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FC Porto: a maldição inglesa e a fuga à “lei do ex”

Desde 2000, só um antigo treinador portista foi feliz no regresso ao Dragão – e não foi Mourinho. E como será frente ao Nottingham Forest de Vítor Pereira, bicampeão no FC Porto? Os portistas têm ainda que se preocupar com uma (má) tradição, pois há 22 anos que não eliminam equipas inglesas.

O futebol é um desporto dado a superstições e manias. Uma delas é apontada como a “lei do ex”, quando um jogador marca à sua antiga equipa e acaba por tramar o clube onde, muitas vezes, se formou ou ganhou notoriedade. Ainda no passado fim de semana assistimos a dois casos desses em Portugal.

O FC Porto já defrontou esta época o Nottingham Forest, na fase de liga, tendo perdido em Inglaterra por 2-0
O FC Porto já defrontou esta época o Nottingham Forest, na fase de liga, tendo perdido em Inglaterra por 2-0

Primeiro foi Rodrigo Pinheiro, defesa do Famalicão que fez aos 99 minutos o golo do empate (2-2) no estádio do Dragão, um resultado que “roubou” dois preciosos pontos aos portistas na luta pelo título. Ora, o jogador cumpre a segunda época nos famalicenses, após ter passado sete anos no FC Porto, onde fez grande parte da formação.

Seguiu-se o caso de Rafael Brito, do Casa Pia, que marcou no empate (1-1) contra o Benfica. O médio foi formado nas águias, e no final reagiu assim: “O jogo foi especial, mas pelo ponto conquistado. Demonstrámos que somos uma equipa resiliente, que não vira a cara à luta”.

Em relação aos treinadores, o FC Porto espera que a “lei do ex” não funcione esta quinta-feira, dia 9 de abril, no jogo da primeira mãos dos quartos de final da Liga Europa, frente ao Nottingham Forest. A equipa inglesa é treinada por Vítor Pereira, que orientou o FC Porto entre 2011 e 2013, tendo sido bicampeão, somando apenas uma derrota no campeonato nessas duas épocas.

Vítor Pereira foi também adjunto de André Villas-Boas (hoje presidente dos portistas) no FC Porto que ganhou a Liga Europa em 2010/11, regressando pela primeira vez ao estádio do Dragão como treinador adversário, depois de já ter orientado equipas como Olympiacos, Fenerbahçe, Flamengo ou Wolverhampton. E já avisou que a intenção é ganhar: “Estes jogadores têm qualidade e carácter. Só queríamos dar-lhes a confiança para jogarem ao nível a que são capazes. Vamos encarar jogo a jogo e vamos ao estádio do Dragão para ganhar”.

A exceção veio de Guimarães

Se isso acontecer, Vítor Pereira irá tornar-se no segundo treinador, desde 2000, a fazê-lo no regresso ao estádio do Dragão. Segundo um levantamento feito pelo jornal O Jogo, no século XXI, nas 19 ocasiões em que antigos treinadores do FC Porto ali voltaram como adversários, só venceram uma vez. Foi Luís Castro, na época 2018/19, que ali festejou pelo Vit. Guimarães, tendo derrotado por 3-2 os dragões de Sérgio Conceição, conseguindo uma reviravolta surpreendente, pois ao intervalo os minhotos perdiam por 2-0.

Luís Castro já tinha voltado antes ao terreno do FC Porto por duas vezes, mas aí somou duas derrotas. Primeiro pelo Rio Ave (4-2, em 2016/17), e depois pelo Desportivo de Chaves (3-0, em 2017/18).

Desde 2000, já houve oito antigos treinadores do FC Porto a regressarem ao estádio do Dragão como adversários, sendo José Mourinho o que ali voltou mais vezes: foram cinco, três pelo Chelsea e duas pelo Benfica. Pelos londrinos, Mourinho somou duas derrotas (ambas por 2-1, em 2004/05 e 2015/16) e um empate (1-1, em 2006/07). Já esta época, ao serviço das águias, Mourinho empatou (0-0) no campeonato e perdeu (1-0) na Taça de Portugal.

José Couceiro, que treinou o FC Porto na parte final da época 2004/05, falhando o título na última jornada para o Benfica de Trapattoni, depois disso voltou ao Dragão quatro vezes. Em 2010/11, à frente do Sporting, perdeu por 3-2. Depois, no Vit. Setúbal, perdeu duas vezes (2013/14 e 2017/18) e empatou outra (2016/17).

Há ainda o caso de Fernando Santos, que ficou conhecido no FC Porto como “o engenheiro do penta”, por ter conseguido o pentacampeonato em 1999, e que depois disso foi derrotado no Dragão ao serviço do Sporting (4-1, em 2003/04) e pelo Benfica (3-2, em 2006/07).

Também com duas passagens pelo Dragão como ex-treinador esteve Paulo Fonseca, que perdeu quando treinava o Paços de Ferreira (5-0, em 2014/15) e empatou pelo Sp. Braga (0-0, na época 2015/16).

Depois, houve mais três técnicos que tiveram um regresso episódico ao Dragão, casos de Jesualdo Ferreira (perdeu ali com o Sp. Braga por 2-0, em 2013/14), e ainda de José Peseiro (derrota por 1-0, também no Sp. Braga, em 2016/17) e André Villas-Boas. O atual presidente portista saiu por baixo ao serviço do Marselha, num jogo da Liga dos Campeões de 2020/21 – perdeu 3-0.

Em resumo, pode dizer-se que, apesar de tudo, nos últimos 26 anos o FC Porto tem estado imune à “lei do ex” no que respeita a treinadores, pois em 19 jogos contra ex-treinadores no estádio do Dragão somou 14 vitórias, quatro empates e apenas uma derrota.

Apenas três sucessos em 15 eliminatórias

Se Vítor Pereira tem esse fator contra si, o mesmo não acontece com as tradicionais dificuldades do FC Porto quando joga contra equipas inglesas. Os dragões, desde logo, nunca ganharam em Inglaterra – foram 24 jogos e nenhuma vitória (como visitante, a exceção foi o triunfo sobre o Chelsea, em 2020/21, mas num jogo realizado em Sevilha devido à pandemia de Covid-19).

Depois, se formos ver a lista das 15 eliminatórias europeias já cumpridas frente a equipas inglesas, o FC Porto apenas seguiu em frente em três ocasiões. Aconteceu na Taça UEFA de 1974/75, contra o Wolverhampton, com uma vitória caseira por 4-1 e uma derrota em solo britânico por 3-1; sucedeu ainda no épico confronto frente ao Manchester United, em 1977/78, em que os dragões ganharam, nas Antas, por 4-0, sobrevivendo depois em Old Trafford graças aos dois golos de Seninho, no desaire por 5-2.

A outra ocasião de sucesso para o FC Porto está ainda gravada a ouro na memória dos adeptos portistas: aconteceu em 2003/04, quando os dragões ganharam a Liga dos Campeões, em que eliminaram o Manchester United nos oitavos de final, vencendo 2-1 em casa e empatando (1-1) em Manchester, com o golo no último minuto de Costinha – que originou a louca (e famosa) correria do treinador José Mourinho nos festejos.

De resto, nas 12 outras eliminatórias, o FC Porto saiu sempre vergado ao poderia dos clubes ingleses. Começou logo na estreia em confrontos com britânicos, em 1969/70, na extinta Taça das Cidades com Feiras, frente ao Newcastle (depois do 0-0 no Porto, um desaire por 1-0 na Grã-Bretanha).

Seguiram-se eliminações frente a Tottenham (1991/92), Manchester United (1996/97) e Liverpool (2000/01). Se formos ver, desde 2004, ano do triunfo na Liga dos Campeões, o FC Porto nunca mais conseguiu afastar uma equipa inglesa, sendo eliminado frente a Chelsea (duas vezes), Liverpool (duas vezes), Arsenal (duas vezes) e Manchester United e City (uma vez cada).

A última vez que o FC Porto disputou uma eliminatória frente a equipas inglesas aconteceu em 2024, na época de despedida de Sérgio Conceição como treinador portista (e de Pinto da Costa como presidente), em que o frente a frente com o Arsenal foi bastante renhido. Os portistas venceram no Dragão (1-0, com um grande golo de Galeno) e saíram derrotados (também por 1-0) em Londres, acabando eliminados nos penáltis.

Claro que pelo meio houve outras idas a Inglaterra, mas nas fases de grupos das competições. Aliás, já esta época, o FC Porto deslocou-se ao terreno do Nottingham Forest, seu adversário agora nos quartos de final da Liga Europa, mas na fase de liga da prova, tendo perdido por 2-0 (dois golos sofridos de penálti). Ou seja, e tendo em conta o historial de insucesso dos dragões em Inglaterra, se Farioli e os seus jogadores querem seguir rumo às meias-finais, o melhor mesmo é vencerem a equipa de Vítor Pereira em casa. E de preferência por mais do que um golo, para se acautelarem para a decisiva segunda mão, na próxima semana.

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