Sábado – Pense por si

Contos Clássicos Portugueses


agora disponíveis para ler e ouvirContos Clássicos PortuguesesAceder aqui

Petições reacendem debate sobre terapias de conversão sexual em Portugal. "As identidades de género não são tratáveis"

As mais lidas

Num debate dividido, alguns especialistas alertam para a falta de base científica das práticas de conversão da orientação sexual, enquanto outros profissionais defendem a revogação da lei e alegam limitações à liberdade clínica.

Dois anos depois da aprovação da lei 15/2024, que proíbe as práticas de conversão sexual contra pessoas LGBT+, o tema voltou ao debate público. A 3 de abril, a atriz e ativista Maria João Vaz criou uma  "contra a legalização de terapias de conversão de identidade de género e orientação sexual", que junta 50 mil assinaturas e surge em resposta a uma outra , que pede o "fim da Ideologia de género nas instituições e a revogação da Lei 15/2024". "Pensei que poderia fazer o movimento inverso", diz à SÁBADO Maria João Vaz.   

Bandeira LGBT
Bandeira LGBT AP Photo/Eraldo Peres

E acrescenta: "Senti-me contrariada durante muitos anos, descobri tarde que era uma pessoa trans. Se eu puder evitar que outras pessoas passem pelo sofrimento que sofri, evito". A contra-petição foi criada em conjunto com Miguel Salazar, que , acusou a mãe, Maria Helena Costa, membro da concelhia do Chega da Póvoa do Varzim, de o ter submetido a “terapia” por ser homossexual e de agressões físicas. 

"Depois de terem revertido a Lei n.º 38/2018 [que estabelece em Portugal o direito à autodeterminação da identidade de género e expressão de género], sabia que o próximo passo seriam as teorias de conversão. Parece que é uma iniciativa de cidadãos, mas há obviamente motivação política do Chega", diz à SÁBADO Miguel Salazar, que considera que a descriminalização seria um retrocesso. Após a revogação da lei que permite a  autodeterminação da identidade de género, Miguel voltou a manifestar-se publicamente sobre a mãe, acusando-a de ser uma "fascista lunática".

Zélia Figueiredo, psiquiatra e coordenadora do Grupo de Acompanhamento da Implementação da Estratégia de Saúde para as Pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexo (LGBTI), olha para o debate público atual com apreensão: "Felizmente em Portugal há pessoas que deram a cara e que falaram das tentativas de conversões que fizeram com elas que não resultam em nada". Para a especialista, os pedidos de revogação da lei estão relacionados com motivações políticas e não se baseiam no conhecimento científico. "As identidades de género não são tratáveis, não são doença. É um retrocesso enorme", sublinha.

Por outro lado, também existem profissionais da área que manifestam uma posição favorável à revogação. Em resposta a um email enviado pela SÁBADO, o psicólogo Abel Matos Santos, que em 2024 já tinha apontado falhas à lei 15/2024, referiu: "(...) não sei o que são terapias de conversão. Em psicologia, na psiquiatria, em saúde mental não convertemos ninguém, não somos uma seita." O psicólogo diz concordar com a petição para a revogação desta lei, que considera "iniqua, injusta, desadequada da realidade" e "inconstitucional, porque o profissional de saúde tem de ser livre no seu exercício da profissão, sem condicionamentos".

A psicóloga Joana Amaral Dias concorda e diz à SÁBADO que não vê necessidade de uma lei que regule terapias de conversão sexual. "A petição [a favor da revogação] pretende que seja possível haver a exploração clínica e que os problemas sejam compartilhados", refere.

A psicóloga acredita que a definição de "intervenção de género", presente na lei, não apresenta contornos precisos e cita o estudo finlandês "Morbidade psiquiátrica entre adolescentes e jovens adultos que contataram serviços especializados em identidade de género na Finlândia entre 1996 e 2019", publicado na Acta Paediatrica, em abril, para justificar: "Sabemos também que a morbilidade psiquiátrica associada a situações deste género é elevadíssima. Ou seja, há probabilidade de existir outra patologia (...)". Neste caso, Joana Amaral Dias refere-se a "quadros [clínicos] que são encaminhados como questões de identidade de género". Por práticas de conversão sexual, entende-se intervenções que visam reprimir ou suprimir a orientação sexual ou identidade de género de pessoas LGBT+.

O que dizem as entidades de saúde?

Em 1990, a OMS removeu a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças (CID), e em 2018, retirou a transexualidade da lista de transtornos mentais. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), que atua como o escritório regional da Organização Mundial da Saúde (OMS), também condenou em 2012 os tratamentos para "curar" a homossexualidade. 

Em Portugal, a Ordem dos Psicólogos emitiu um parecer, em 2021, onde classificava este tipo de intervenções "como altamente questionável não só do ponto de vista da sua validade científica e ética, mas também da sua eficácia e benefícios, sendo assinaláveis os potenciais riscos e prejuízos para a Saúde Psicológica (...)". 

Artigos Relacionados