Malas de dinheiro, negócios ruinosos e o homem que escapou

Dias Loureiro foi, durante anos, suspeito de ser responsável por prejuízos de milhões no banco. Reve lações de uma investigação arquivada

A ordem veio do 8º andar, o piso da administração do Banco Português de Negócios (BPN), para a Direcção Operacional, situada igualmente no edifício-sede de Lisboa. Internamente, alguém teria de ir ao balcão de apoio do banco, no primeiro andar do prédio, para levantar e transportar um saco com 1,5 milhões de dólares (cerca de 1,4 milhões de euros actualmente).

A tarefa coube ao funcionário António Tinoco, que recebeu e contou o dinheiro, levando-o de seguida de elevador para uma sala do 8º andar do banco. Lá dentro, estava o administrador Dias Loureiro e um casal que falava espanhol. Os maços de dinheiro foram então contados e colocados numa mesa, à frente de todos os presentes. Depois, os dólares passaram para o interior de uma mala preta do casal. No fim, Tinoco ofereceu-se para acompanhar os clientes até à garagem do banco, onde tinham estacionado "um carro grande com matrícula espanhola". A pasta foi colocada na bagageira e despediram-se, com o diligente funcionário a ajudar até nas manobras de saída da viatura da garagem para a movimentada Av. António Augusto de Aguiar.

Quase seis anos depois, na manhã de 3 de Abril de 2009, António Tinoco contou este episódio ao procurador Rosário Teixeira, durante a inquirição no Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP). O ainda funcionário do BPN (hoje BIC) disse que não se lembrava do nome do "espanhol" nem do offshore (Jared) em que o dinheiro tinha sido debitado ou ainda se o sujeito tinha assinado algum documento na sua presença. Mas não teve qualquer dúvida sobre a presença de Dias Loureiro naquela reunião.

Já o procurador tinha a convicção de que o homem da mala era Benedito Vicente, dono da empresa marroquina Alborada, comprada em 2002-2003 pelo grupo BPN/Sociedade Lusa de Negócios (SLN) no âmbito de uma complexa teia de negócios, tratados por Dias Loureiro, Oliveira Costa e o empresário Abdul Al -Assir, que acabaram por provocar dezenas de milhões de euros de prejuízos ao banco e à sociedade que nele mandava.

Menos de três meses antes de recolher este testemunho, o procurador decidira abrir mais uma investigação ao universo BPN, um processo que foi arquivado oito anos depois, no início deste mês, por falta de provas. E sob forte polémica: pelos termos usados no despacho judicial e por ninguém ter sido responsabilizado por prejuízos avaliados em mais de 70 milhões de euros.

A consulta de parte da documentação principal do inquérito-crime (ver caixa), feita pela SÁBADO, revela que o Ministério Público (MP) vasculhou as contas bancárias e ouviu as conversas ao telefone e via email de Dias Loureiro, mas acabou por chegar a um beco sem saída. "Toda a prova produzida nos autos revela-nos uma engenharia financeira extremamente complexa, a par de decisões e práticas de gestão que, a serem sérias, são extremamente pueris e desavisadas, o que nos permite suspeitar que o verdadeiro objectivo da celebração dos negócios da Redal e da Biometrics [empresa de Porto Rico] foi tão-só o enriquecimento ilegítimo de terceiros à custa do prejuízo do Grupo BPN, nomeadamente, e pelo menos, de Dias Loureiro, de Oliveira Costa e de Al-Assir, enriquecimento esse sob a forma de pagamento de comissões, ainda que através da formalização da pretensa concessão de financiamentos a entidades instrumentais, aceitando, logo à partida e deliberadamente, que tais empréstimos seriam incumpridos, razão pela qual não se mostra exigida a prestação de garantias adequadas", especificou a procuradora Cláudia Porto que concluiu o processo depois de vários anos sem diligências relevantes.

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