A noite mais sangrenta da primeira República foi há 100 anos

A noite mais sangrenta da primeira República foi há 100 anos
Sara Capelo 20 de outubro

A camioneta-fantasma perseguiu e chacinou republicanos de topo pelas ruas de Lisboa. António Granjo, já demissionário, acabou com balas na cabeça, pescoço, braços e pernas.

Segundos antes de morrer, António Granjo ouviu o desprezo dos algozes: "Supunhas que escapavas?!" O presidente do ministério (equivalente a primeiro-ministro) demissionário estava escondido num quarto simples do primeiro andar da casa da guarda no Arsenal da Marinha. "Matem-me, que matam um bom republicano." Os três militares da Guarda Nacional Republicana (GNR) e um número desconhecido de marinheiros - provavelmente já bem bebidos pelas celebrações da revolta que na manhã desse 19 de Outubro de 1921 depusera o governo de Granjo - dispararam, em raiva (houve quem falasse em 400 tiros). Quando o político liberal tombou, em agonia, deram-lhe uma coronhada que lhe partiu o maxilar e um clarim da Guarda, que lideraria o grupo, rasgou-lhe o tronco com um sabre e gritou: "Vejam de que cor é o sangue de porco!"

António Granjo, 39 anos, era um homem alto, encorpado, de sorriso fácil. Mas os que o viram no necrotério, com muita dificuldade identificaram algum desses traços: balas na cabeça, pescoço, braços e pernas, o rosto inchado em resultado da coronhada, o colete e a camisa rasgados pela baioneta que lhe trespassara o peito. Depois dele, a carrinha que ao início da noite transportara Granjo até ali sob falsas promessas de protecção (e que ficou para a história como camioneta-fantasma) voltou a deixar o Arsenal, junto ao Terreiro do Paço, à procura de nova vítima: José Carlos da Maia, maçon, destacado oficial no 5 de Outubro, deputado à Constituinte e ministro da Marinha nos tempos de Sidónio Pais. Este capitão-de-fragata, de 43 anos, era vítima de um daqueles boatos que surgiam para fazer cair governos e faziam crescer o ressentimento nos militares: dizia-se que ele enviara os marinheiros rebeldes do 18 de Janeiro de 1918 para África. Era mentira.

O Dente de Ouro
Ganha protagonismo, a partir daqui, o cabo Abel Olímpio, o Dente de Ouro, um desconhecido que aparece nos livros como uma espécie de capataz desta noite sangrenta. Era ele que, durante a viagem até à Rua dos Açores, perto do Jardim Constantino, lembrava o papel desdenhoso de José Carlos da Maia às talvez duas dezenas de GNR, marinheiros e civis que seguiam na caixa da camioneta-fantasma. Foi ele que, pelas 23h, deu voz de prisão ao capitão-de-fragata. Aos pedidos de clemência de Berta Maia, que tinha o filho de 6 meses ao colo, o Dente de Ouro fez crescer a mentira: "Foi por causa deste que os marinheiros foram deportados para África, no tempo do Sidónio. Também a minha mãe morreu de dor quando me mandaram para lá." Ora, ele não fora deportado e a mãe estava viva.

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