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Porto Canal deixa de ser generalista: "uma perda muito grande para a região"

Renata Lima Lobo 19 de dezembro de 2025 às 18:30

Para já não estão previstos despedimentos, mas há quem acredite que a região do Norte fica a perder.

O Porto Canal é o único canal regional do país com uma programação linear de televisão. No entanto, o negócio não parece garantir o retorno financeiro desejado e os proprietários - cujo maior acionista é o Futebol Clube do Porto (FCP) - solicitaram à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) a alteração do canal de generalista para temático, especializado em desporto, um pedido entretanto aprovado. À SÁBADO, o Sindicato dos Jornalistas (SJ), na voz do vice-presidente Augusto Correia, considera a decisão “uma perda muito grande para a região”, enquanto o Partido Comunista Português emitiu um comunicado no qual afirma que esta mudança “enfraquece a região e prejudica as suas populações”.
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A notícia da deliberação da ERC foi difundida pela Lusa esta quinta-feira - embora a deliberação tenha sido publicada a 26 de novembro - dando conta de um pedido submetido a 20 de outubro pela Avenida dos Aliados – Sociedade de Comunicação, S.A., entidade detentora do Porto Canal, da qual o FCP é o sócio maioritário, com 82% das ações. A , consultada pela SÁBADO, recorda que o Porto Canal foi “autorizado como um serviço de programas temático com acesso não condicionado com assinatura” em 2006, tornando-se generalista uma década depois. Uma decisão que é agora invertida, pela “difícil prossecução na procura dos seus objetivos a vários níveis”, explica o operador no pedido enviado à ERC, nomeadamente “em termos de audiências, de renovação da própria audiência, de resposta a uma concorrência mais apetrechada e com outra capacidade financeira, da geração de receita e de procura de financiamento que permitam assegurar uma operação de ambiciosa envergadura, em suma, tornando a sua sustentabilidade cada vez mais difícil e até, a prazo, inviável”. Argumentos que sustentam a vontade de mudar para um canal temático com o foco no desporto, dedicado ao universo do Futebol Clube do Porto. Para já, e segundo a deliberação da ERC, não está prevista uma assinatura do serviço, à semelhança, por exemplo, da Benfica TV, mantendo-se “a cobertura nacional e o tipo de acesso do serviço de programas”, assim como a “garantia de 24 horas de emissão diária”. A programação será composta por transmissões ao vivo de jogos das equipas de formação, femininas e modalidades, assim como jogos de pré-temporada da equipa principal; programas de análise e debate; documentários e reportagens especiais; entrevistas exclusivas; notícias e atualizações diárias; conteúdo de arquivo, como a reexibição de jogos clássicos; ou programas interativos com adeptos. Ao , fonte do clube confirma que as operações do canal passam das instalações da Senhora da Hora, em Matosinhos, para o Estádio do Dragão, enquanto que a nova grelha deverá arrancar já em janeiro. Para já, não estão previstos despedimentos, embora alguns profissionais já tenham deixado o Porto Canal por iniciativa própria, confirma à SÁBADO o vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas, Augusto Correia.

Uma região a descoberto

A diminuição da cobertura da agenda mediática mais a norte garantiu uma primeira reação pública do Partido Comunista Português (PCP), num publicado esta quarta-feira, que lamenta “um objetivo enfraquecimento da Região Norte” pelo desaparecimento “do seu único canal generalista”, apesar de avaliar a decisão como “uma opção legítima dos proprietários". Para os comunistas, a situação “assume maior gravidade” se associada ao fecho de outros jornais locais, como o O Comércio do Porto (com uma última edição em papel em 2005) e O Primeiro de Janeiro (2015), ou às “dificuldades por que passa o Jornal de Notícias e ao enfraquecimento do Local Porto do jornal Público”, manifestando “solidariedade com os trabalhadores do Porto Canal – designadamente aqueles que têm vindo a sair da empresa na sequência da alteração da sua tipologia temática”. Sobre a manutenção ou não do número de jornalistas que trabalham no Porto Canal, o vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas acha “pouco provável” que não haja cortes: “Temos de estar sempre receosos ou sempre precavidos", começa por dizer à SÁBADO, numa conversa por telefone, onde sublinhou a falta de jornalistas em território nacional. “Já temos um País com poucos jornalistas para a dimensão que temos e precisamos é de mais jornalistas, jornais, canais de televisão e rádios. Precisamos de mais informação séria e de qualidade e menos redes sociais”. Augusto Correia acompanha a preocupação do PCP sobre o impacto que pode ter no norte do país, definindo a situação como “uma perda muito grande para a região”, cuja cobertura fica “um bocadinho circunscrita” ao Jornal de Notícias, onde trabalha, e ao serviço público da RTP e da Lusa. “É uma voz que se vai perder”, lamenta o sindicalista que defende “diversidade de vozes e abordagens” na comunicação social, ao mesmo tempo que julga “incompreensível como uma região tão forte economicamente não tem capacidade para ajudar a manter um canal de televisão como o Porto Canal, ou não tem capacidade para apoiar os órgãos de comunicação da região”. Sobre os modelos de financiamento, Augusto Correia explica que a posição do SJ passa por “uma intervenção do Estado”, um modelo admitido por Luís Montenegro. “Os políticos dizem que é um pilar da democracia, por isso tem que ser tratado como tal”, observa, acreditando “que é possível conversarmos e tentar encontrar formas” de o fazer. A SÁBADO tentou contactar o FCP, por telefone e email, mas até à publicação deste artigo não obteve qualquer tipo de resposta, a perguntas em torno do calendário de alterações; redução do número de jornalistas; ou resposta às considerações sobre o enfraquecimento da cobertura jornalística na região.
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