Luís Neves desmente uso de Porsche apreendido na sua vida pessoal
Ministro da Administração Interna foi acusado de enquanto diretor nacional da PJ ter andado “bastante tempo a guiar um Porsche que depois teve de ser devolvido a uma arguida"
"As mesmas fontes garantem ainda que há investigadores que usam e abusam dos carros de serviço para uso próprio, com o conhecimento dos diretores e direção nacional (há anos um diretor adjunto da PJ tentou controlar isto e não durou muito tempo no cargo), sendo que esta também não terá dado propriamente um bom exemplo nos últimos anos, pois têm sido muitas as viaturas apreendidas em processos que são destinadas ao usufruto dos diretores. No estacionamento da sede da PJ chegaram a estar um sem número de veículos de luxo e até Luís Neves andou bastante tempo a guiar um Porsche que depois teve de ser devolvido a uma arguida de uma mediática investigação."
A revelação consta de um artigo de opinião publicado na CNN Portugal e escrito pelo jornalista António José Vilela, que há muitos anos escreve sobre esta polícia de investigação, direta ou indiretamente. Luís Neves, agora ministro da Administração Interna, nega à SÁBADO, via resposta do seu gabinete, que seja verdade o caso do Porsche: "No seguimento da questão colocada esclarece-se que essa alegação não corresponde à verdade".
Reformulámos a questão retirando o modelo do carro da equação: "Esclarece-se que o Sr. Ministro da Administração Interna não usa nem nunca usou, como diretor nacional na Polícia Judiciária, carros apreendidos para seu uso pessoal", concluiu o gabinete.
A direção nacional da Policia Judiciária, instada a responder sobre a mesma questão, disse apenas genericamente que "a Polícia Judiciária informa que a utilização de viaturas da sua frota bem com a utilização de viaturas apreendidas ocorre em conformidade com as disposições legais em vigor sobre a matéria".
A questão dos bens apreendidos em operações policiais e judiciais e que ficam à guarda da PJ enquanto decorrem os respetivos processos ressurgiu com o caso do atrelado/galera que foi parar às mãos de um empreiteiro amigo de Luís Neves, ex-diretor da PJ e atual MAI. O caso é inusitado porque se tratar de um privado, uma vez que é normal as polícias (PJ, GNR ou PSP) solicitarem aos juízes titulares dos processos que determinados bens (nomeadamente carros, motos ou barcos) sejam colocados à sua disposição.
Segundo Carlos Anjos, ex-inspetor e ex-presidente da Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Criminal da PJ, "o caso é inédito": "Em 40 anos, nunca conheci um caso em que um bem apreendido é autorizado para um privado. A autorização, seja quem for que a deu, terá sido abusiva. Já ouvi a teoria que o atrelado pode ter sido emprestado para o construtor deslocar materiais das obras que estava a fazer para a PJ – um juiz nunca autorizaria isso. E se fosse isso porque é que o atrelado estava em Barcelos, aparentemente sem utilização?"
Euclides Dâmaso, procurador-geral adjunto jubilado, respondeu-nos o mesmo quando lhe perguntámos se se lembra de um bem apreendido estar na posse de um privado: "Não tenho memória disso. A lei apenas permite a afetação provisória à Polícia Judiciária. Depois de declarado perdido por decisão judicial, após julgamento, o bem pode ser afeto a interesse público". E acrescenta: "Estranho as bolandas em que têm andado a galera e os bidões apreendidos e respetivos conteúdos. As informações vindas a lume até ao momento não são de molde a dar-lhe respaldo legal. Aguardo completos e urgentes esclarecimentos sobre o tema, que é de grande melindre processual".