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Em noite animada à volta da mesa e ao piano, Candidato Vieira pede "uma utopia que nos ponha a olhar para cima"

Luísa Oliveira 19 de janeiro de 2026 às 00:39

O artista escolheu um dos pratos do dia da Padaria do Povo para o jantar em que acompanha, distraído, os resultados da sua candidatura presidencial. Ter ficado entalado entre António Filipe e Jorge Pinho, com um pouco mais do que 1% dos votos, parece satisfazê-lo...

Ainda falta uma hora para Manuel João Vieira chegar ao local que escolheu para passar a noite eleitoral, naquela que foi a primeira concretização de uma candidatura sua, à sexta tentativa, e já lá está o discurso, escrito à mão, numa letra percetível, em papel cartonado branco. São quatro páginas congeminadas por três "sábios" da sua candidatura, que até recorreram a passagens da Bíblia: "Muitos do primeiros serão últimos e os últimos primeiro". Apurou-se ainda que a frase "só há uma coisa e não se mexe" é atribuída ao filósofo grego Parménides, que viveu em 500 a.C. Erudição ao serviço da candidatura artística de Vieira, com o já badalado slogan: "Só desisto se for eleito."
Manuel João Vieira na sede da noite eleitoral Sábado
No debate a 11, , o candidato presidencial prometeu a que batizou de "Criptonota do Santo António". Ao ouvir tal promessa, o ourives Vando Gomez dedicou-se a criar uma criptomoeda dourada com a cara de Manuel João Vieira gravada e enviou-a, há dias, numa caixinha preta de cartão, e em envelope lacado, de Bandalheira, perto da Ericeira, para a sede da candidatura. Só hoje o resultado foi mostrado ao candidato que a guardou no bolso, ao mesmo tempo que dele retirava um charuto. Presume-se que a moeda será um dos destaque da exposição que está a ser planeada com peças emblemáticas das seis candidaturas presidenciais  apresentadas por Manuel João Vieira desde 2001. "Olha um cão!" Enquanto espera pela chegada do candidato, o staff, quase todo voluntário, está no bar a beber imperiais e copos de vinho, com alegria. A sala onde hão de jantar encontra-se vazia, se não se reparar nos dois miúdos que montam um Lego do Super Mário a um canto. Já com os cartazes todos colados na parede, três deles versões adaptadas de capas de prestigiadas revistas internacionais - Vogue, Time e National Geographic -, e as bandeirinhas presas em locais estratégicos, é hora de receber Vieira, que chega a pé, à Padaria do Povo, no bairro em que vive e em que votou durante a tarde. Vem protegido do frio que atira a temperatura para valores abaixo dos 10 graus, com o seu chapéu-imagem-de-marca, um sobretudo que parece quente e ainda um cachecol às riscas. Vem acompanhado pela "primeira-drama", igualmente vestida para impactar. Aos poucos jornalistas que aqui estão, sobretudo para as câmaras de televisão, Manuel João lança umas das suas. "Vitorioso, para mim, seria passar à 2ª fase ou ter 100% dos votos." Mais a sério, conclui: "Não sou propriamente do sistema, por isso se tiver 1% não é muito mau." E remata com tirada poética, ao desejar inscrever a palavra "felicidade" na Constituição, achando que só pode ter sido por esquecimento que ela ainda não lá consta. "Olha um cão!", nota, quando sente algo a rondar-lhe os pés na sala Bento Jesus Caraça desta instituição republicana, onde em tempos funcionou a Universidade Popular. Sair do ninho de vespas Noutra sala, depressa se senta na mesa disposta em U para receber os seus apoiantes e trazem-lhe um copo de vinho tinto. Pede o menu e escolhe carne de porco à portuguesa, o prato do dia. Mas entretanto, a contagem decrescente no grande ecrã sintonizado na RTP revela a primeira sondagem, que lhe dá, em previsão, um honroso oitavo lugar. Tinha prometido ser o primeiro candidato a discursar e quer cumprir - que se dane a temperatura da comida que acaba de chegar à mesa. Levanta-se e passa de novo ao salão para o tal discurso escrito em quatro posters. Há cerca de três dezenas de apoiantes que gritam o seu nome com convicção e ainda se ouve um pedido de "impugnação". No pequeno palco atrás de si, três crianças agitam freneticamente as bandeirinhas amarelas com o logótipo da candidatura, desenhado em torno de uma concha de vieira.  Além de ler aquela espécie de teleponto, Vieira fala um bocadinho a sério, quando questionado sobre o significado de as projeções o posicionarem taco-a-taco com alguns partidos do sistema. "Devia haver pessoas mais interessantes. Ventura ganha porque os outros políticos não têm vivacidade. O discurso populista não recorre à inteligência artificial, apenas à estupidez natural." E também toca em feridas quando  põe a hipótese de o "Pato Donald Trump" ir à base das Lajes, já que vai à Gronelândia. "Gostava que a ficção e a realidade se misturassem para dar origem a uma utopia que nos ponha a olhar para cima e não este ninho de vespas em que estamos agora." Quanto à sua posição na segunda volta das eleições, diz ainda ser cedo para decidir. Sabe que o  resultado nas candidaturas independentes seriam melhores se não houvesse receio de os liberais ou de Ventura chegarem à presidência. Mesmo assim assume que há uma geração que o reconhece e votou na sua candidatura, "sem experiência e absurda", perdida no meio da "confusão". Estamos a falar de mais de 60 mil votos, que representam 1,1% dos votantes, ali a meio caminho entre António Filipe, apoiado pela CDU, e Jorge Pinto, pelo Livre que não chega sequer ao simbólico 1 por cento. Marilú, piano e charuto O tom agora é de jantar de amigos, daqueles barulhentos e em que o bitoque é rei. O bitoque e Manuel João Vieira, a quem todos querem cumprimentar, dirigindo-se à sua cadeira no topo da mesa. Às dez, disse-o, queria estar na cama - a essa hora, as pessoas começam a despedir-se dele, por entre abraços e sobretudo selfies com os mais novos. Mas ele não desarma, embora mal olhe para a televisão que debita resultados. O piano está na sala e faz-se tocar agora por um dos jovens que aqui estão. Antes, já o músico-candidato dera show ao sentar-se às teclas para dedilhar e cantar a famosa música dos Ena Pá 2000, grupo por si fundado, "Marilú" (tendo em conta o tom satírico das suas músicas, imagine-se com que rimará este nome feminino). A maioria dos presentes na sala mostra como sabe o refrão de cor, quando pouco antes de ir embora volta ao piano. Depois de espalhar um cheiro a charuto no ar pela sala fria, há que pagar a conta, ir para casa, que afinal amanhã é segunda-feira e já se fala em preparar uma próxima candidatura, se ainda não estiver completamente "louco" ou "demente". "Vou mas é para casa dormir", avisa, às 23h20, antes de deixar a sala em que ainda ficaram alguns dos seus aguerridos apoiantes.
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