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Associação alerta para "aumento alarmante" de casos de extorsão sexual contra homens

Lusa 04 de fevereiro de 2026 às 07:54

As vítimas dividem-se em dois grupos etários: por um lado, homens à volta dos 30 anos, e, por outro, a partir dos 50 anos.

A associação "Quebrar o Silêncio", de apoio a homens vítimas de violência sexual, alertou na terça-feira para o "aumento alarmante" de casos de extorsão sexual contra homens, com 57 pedidos de ajuda em 2025 contra um em 2024.
Associação alerta para aumento de extorsão sexual contra homens de 30 e 50 anos simarik/iStockphoto
Com Tiago (nome fictício), 32 anos, "aconteceu tudo muito rápido", depois de receber uma mensagem numa rede social, da parte de uma mulher que aparentava ter a sua idade. "Começámos a falar, a conversa parecia normal, e quando dei por mim já tínhamos trocado algumas fotos e vídeos. Logo a seguir, ela revelou que afinal era um homem e começou a exigir dinheiro. Ao mesmo tempo, criou grupos de mensagens com a minha família, amigos e colegas de trabalho", relatou. Tiago recorda que entrou em pânico, perante um cenário em que "as mensagens não paravam", ao mesmo tempo que surgiam as ameaças, contagens decrescentes e uma pressão enorme para pagar, enquanto vivia com medo que a mulher descobrisse e terminasse o casamento. À Lusa, Ângelo Fernandes descreveu um perfil de vítima, que se divide em dois grupos etários: por um lado, homens à volta dos 30 anos, e, por outro, a partir dos 50 anos. Os mais jovens, com uma "vida muito ativa nas redes sociais", encontram pessoas na internet e supostamente conhecem as regras, como não mostrar a cara ou características específicas nas fotos e vídeos. Os mais velhos, muitas vezes divorciados ou viúvos, vivem isolados emocionalmente e muitas vezes desinformados sobre os perigos das redes sociais, sobre quem facilmente é explorado essa vulnerabilidade. No caso de Marcelo (nome fictício), 63 anos, o contacto começou através do Facebook, quando uma rapariga "com um ar muito jovem" lhe disse que "queria sentir-se protegida por um homem mais velho". Apesar das garantias de que era maior de idade, depois de lhe ter enviado fotos e vídeos, foi contactado por alguém que dizia ser de uma autoridade policial estrangeira e que estava acusado de pedofilia, pelo que teria de pagar 1.500 euros à polícia. Foi só depois de ter contactado a Quebrar o Silêncio, e de seguir as instruções dadas, que conseguiu resolver a situação, bloqueando todos os contactos e não pagando qualquer valor.
Ângelo Fernandes partilhou que tem havido um esforço por parte da associação para informar e alertar para estes casos, o que pode justificar o aumento em 5000% no número de pedidos de ajuda entre 2024 e 2025. Os dados da Quebrar o Silêncio mostram que houve 67 pedidos de ajuda, em 2025, por casos de extorsão sexual, 51 dos quais com homens. Segundo o responsável, estes homens que procuram a ajuda da associação estão "ansiosos e desesperados" e querem sobretudo "uma solução rápida" para que a extorsão acabe. No entanto, adiantou que em muitos casos, quando o contacto com a associação é feito, as vítimas já começaram a pagar, o que desencadeia "uma escalada na violência exercida contra estes homens", que se traduz em pressão, chantagem, mensagens e telefonemas, o que aumenta a sensação de que "não há escapatória". De acordo com Ângelo Fernandes, houve homens que "chegaram a pagar quase 20 mil euros" antes de procurarem a Quebrar o Silêncio. Aconselha a que as vítimas não cedam à chantagem, não enviem dinheiro nem mais fotos ou vídeos e guardem tudo o que possa servir como prova, seja mensagens, 'links' ou transações, antes de bloquear o número, e apresentem queixa junto das autoridades. Os casos de extorsão sexual incluem-se num total de 283 pedidos de ajuda que a associação recebeu em 2025, entre os quais 154 de homens sobreviventes de violência sexual. O número de pedidos de ajuda aumentou 37% em relação a 2024 e é o número mais elevado desde que a associação começou a funcionar. Entre os pedidos de ajuda, a associação registou 165 crimes, entre 74 casos de abuso sexual de crianças, adolescentes ou menores dependentes, 67 por importunação sexual, 13 violações ou tentativas de violação, 6 casos de assédio sexual e 5 casos de violência doméstica. Dados que serão apresentados no evento para comemorar os nove anos da Quebrar o Silêncio, no dia 06 de fevereiro, no qual será igualmente apresentada uma nova campanha de sensibilização, e onde será abordado o tema da violência sexual contra homens na idade adulta.
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