Ser homem na época de Adam Driver
Pedro Marta Santos
14 de janeiro de 2020

Ser homem na época de Adam Driver

Driver parece um boxeur, um tenente disposto a salvar o soldado Ryan, um samurai dos bosques digitais, mas é o primeiro a desatar a chorar quando se esperam heróis

Todas as épocas têm o seu modelo masculino, e ele costuma surgir projetado em ecrãs enormes através de focos de luz fantasiosa na escuridão da nossa banalidade. Bogart pelos anos 40. Brando nos 50. JFK e a tragédia fria dos sixties. Paul Newman na transição da década, e os dois Robert (Redford e De Niro) na paranóia dos 70. Viver como homem no tempo de Adam Driver não é tarefa fácil. Driver tem 1,89 m de essência brutal, primitiva – tem músculos onde os outros actores têm tatuagens com juras em línguas que não compreendem.

Foi marine durante dois anos, até uma lesão o lançar fora da carreira militar. Desde puto que fazia peças de teatro, em papéis de delicadeza que considerava uma segunda pele, mas alistou-se logo ao seguir ao 11 de Setembro. É esse bamboleio, esse desalinho, são essas pegadas numa corda tensa sobre o precipício que o tornam um modelo tão difícil de seguir. Driver parece um boxeur, um tenente disposto a salvar o soldado Ryan, um samurai dos bosques digitais, mas é o primeiro a desatar a chorar quando se esperam heróis.

Não se trata da carência oculta no sorriso de James Dean. Ou do tormento de Montgomery Clift. Adam Douglas Driver não só não tem vergonha de ser frágil como mostra orgulho por o ser. É um gigante quando estende a sombra sobre as mulheres (Lena Dunham, Golshifteh Farahani, Scarlett Johansson), mas tão inofensivo como uma criança. Cresceu ao sol másculo da Califórnia, mas as raízes são negras, fundas, paradoxais como as árvores dos pântanos do Louisiana – o padrasto era pastor baptista; nota-se.

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