O último romântico
Pedro Marta Santos
03 de dezembro de 2019

O último romântico

Romântico incurável, o californiano Rudolph é hoje um imenso desconhecido. Ele foi um revolucionário das formas narrativas levando as técnicas de Robert Altman a uma desintegração da intriga em benefício de personagens complexas e saturadas de mistério

Sem amor, o que resta? Para Alan Rudolph, nada. Só a música, que de novo resgatará o amor. Romântico incurável, o californiano Rudolph é hoje um imenso desconhecido. E no entanto, ele foi um revolucionário das formas narrativas, levando as técnicas corais, elusivas, esvoaçantes de Robert Altman (seu mentor, produziu-lhe os primeiros dois filmes) a uma desintegração da intriga em benefício de personagens complexas e saturadas de mistério. "O meu cinema não se inspira em John Ford, inspira-se em John Coltrane", disse numa entrevista obscura em 1985.

Para trás ficavam duas das obras mais experimentais da década mais madura do cinema americano, Welcome to LA (1976) e Remember My Name (1978), ambas vigiadas pela presença perturbante e solitária de Geraldine Chaplin. Com Genevieve Bujold e Keith Carradine, Chaplin integrava a linha da frente da trupe habitual de actores de Rudolph, e o desajustamento e a imprevisibilidade do trio tornaram-se a face deste cinema – rostos e canções eram a trave-mestra do diretor, não o guião. São criaturas de Lua vaga como os loners de Edward Hopper, comandadas pelo sonho, o destino, as suítes musicais de Richard Baskin, os blues de Roberta Hunter, o trompete de Mark Isham. É Isham a acompanhar Marianne Faithfull, ela que carrega na voz todos os pecados do mundo, ao longo da paisagem sonora, atravessada por lágrimas e chuva, de Trouble in Mind (1985).

Kris Kristofferson, em sobretudo preto, olhos minúsculos e brilhantes como um pássaro azul, sai da prisão e regressa ao Wanda’s Café (Wanda, para variar, é Geneviève Bujold), nos limites de uma cidade fortificada por chaminés industriais, cruzando-se – nos filmes de Rudolph, as personagens não se encontram, chocam de frente umas com as outras – com um anjo rural (Lori Singer, a Nicole Kidman dos pobres) e resgatando-a da relíquia macabra interpretada por um Carradine com eyeliner e crista de punk. O film noir não anda longe, mas são os acordes e os compassos da música que ditam o ritmo onírico, como um poster sonoro à saída de um diner pelas 3h da manhã.

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