Geração suicida
Pedro Marta Santos
05 de dezembro de 2021

Geração suicida

Os que têm hoje entre 15 e 34 anos não vivem. Sobrevivem. O peso também recai nos ombros dos seus pais: estes são os primeiros da sua condição a perceber que os filhos terão pior presente e menos futuro do que eles tiveram.

À Espera no Centeio é um dos romances mais influentes do século XX, publicado originalmente em fascículos entre 1945 e 1946 e a única obra longa do misantropo Jerome David Salinger, nascido durante a Lost Generation, a geração que animara o período entre as duas Guerras Mundiais com o seu niilismo.

J.D. Salinger passaria a segunda metade da vida enfiado numa cabana no New Hampshire a tentar replicar o êxito artístico do romance. O protagonista do livro é Holden Caulfield, um puto de 17 anos que recusa regressar a casa no Natal, preferindo vaguear por Nova Iorque com a solidão como confidente. A angústia é insofreável, e Caulfield despreza o materialismo mas não encontra um sentido, um rumo, apenas conseguindo imaginar-se como o derradeiro protector das crianças que brincam num campo de centeio junto ao abismo, o poço sem fundo da idade adulta no qual a inocência vai a sepultar.

Todas as gerações têm o seu Caulfield porque todas elas vivem perto do precipício em que o futuro é tolhido pelo nevoeiro. Mas não há ravina mais alta ou queda mais temível do que a que assombra as duas últimas gerações, as que nasceram entre 1990 e 2005. No resto, há a roleta cósmica de nascer na Finlândia, em Portugal ou no Bangladesh.

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