Necrofilia política
José Pacheco Pereira Professor
22 de setembro

Necrofilia política

É deprimente assistir às filas de pessoas que se vê que são pobres a comprarem jogo, ou a perguntar se lhes saiu alguma coisa, patrocinada pelas melhores causas do mundo e arredores e pelas mais santas das instituições.

Parece que finalmente o caixão da Rainha vai descansar do passeio e da exibição póstuma despudorada a que o corpo tem sido sujeito. Nós achamos bizarros e mesmo difíceis de aceitar muito costumes asiáticos ou africanos, mas digam-me se esta necrofilia pode ser aceite como normal, como civilizada, alimentada que é pela mediatização da pompa? Na verdade, não é só pelo espectáculo com boas audiências televisivas porque há muito mais do que adulação nestes dias sucessivos de “cerimónias” fúnebres, há uma clara intenção política. Por um lado, a apologia da monarquia por via das “virtudes” da monarca, uma causa menos inocente do que se pode pensar, em que um chefe de Estado é não eleito numa entorse aos princípios democráticos; por outro, uma afirmação da “unidade” do Reino Unido, Escócia e Irlanda em particular. Há quem saiba o que faz, perante os inocentes úteis embasbacados.

A normal violência do futebol
Já não sei quantas vezes me referi à violência endémica no futebol. É das coisas mais inúteis que escrevo, porque verdadeiramente ninguém quer saber do assunto para nada. Até ao dia em que alguém tiver a coragem de tomar uma medida a sério, que doa aos clubes, às claques e aos indivíduos, tudo vai continuar na mesma. Mas posso esperar mais do que sentado, deitado. Quando há um incidente há um surto de indignação, quase sempre dos “outros”, e depois passa, tudo volta ao habitual. Eu não quero saber se em Inglaterra ou na Holanda se passa o mesmo, o que eu sei é que se alguém me perguntar por que razão digo muitas vezes que Portugal é um país atrasado, é por coisas como esta: a violência consentida, desculpada, ignorada, indiferente no mundo do futebol.

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