O centenário
Nuno Rogeiro
15 de março

O centenário

O PC português e o chinês são centenários, 30 anos depois do fim da URSS, quando surgiram oportunidades de ouro para um recomeço de consciência limpa. Havia propostas, mas não foram (ainda) aproveitadas

Quando envelhecemos, a memória transforma-se numa espécie de vida.
Em 1991, com o fim da Guerra Fria, propus que o PCP deixasse de ser considerado um "partido estrangeiro" em Portugal.
Declarei ainda, com alguma solenidade (em nome próprio), deixar de estar em guerra com ele, por causa de fidelidades nacionais, dado que no resto tínhamos vários pontos em comum.
Caiu o Carmo e a Trindade.
Como é que um "empedernido fascista" podia ter "amigos comunistas", "simpatias comunistas", e não ser, fundamentalmente, um "anticomunista"?
Claro que, noutros continentes, por exemplo os da "burguesia conservadora" dos salões jovens e frescos, descobria-se Álvaro Cunhal, no fim da idade. Como uma coisa curiosa, preciosidade de outros tempos. Trazia-se a sua imagem, e a sua voz, para os chás canasta pós-modernos, como em Nova Iorque as estrelas de cinema convidavam os Panteras Negras para festas. Estremecimento gratuito, em que se ignorava a mensagem, e, sem risco, se valorizava o aspecto.
Havia ainda os que, na direita, apreciavam o PCP (ou o que imaginavam que ele fosse), porque este representava também um sentido de "lei e ordem", de moral tradicional, de disciplina face à anarquia.
O meu "problema" era diferente.
A minha aproximação ao comunismo dava-se fora de moda, apesar da moda, contra a moda. Sempre achei que a sua morte como estado/superpotência seria a salvação da ideia.
Enterrada, para bem de todos, a União Soviética, o "sol da terra", que alguns interpretavam como versão blasfema do "Sal da terra", talvez se pudesse voltar às origens.
Porventura seria possível aos mais sinceros e esclarecidos dentro do PCP promover uma revolução interna.
Reconhecer não só os "erros" mas os crimes da URSS e seus serventuários, e partir para a tarefa essencial de reconstrução portuguesa, com base na justiça social.
Talvez fosse a altura de o próprio partido reconhecer aqueles que, dentro dele, pagaram com a expulsão e o ostracismo (e coisas piores) as várias oposições corajosas ao imperialismo, quer no pacto nazi-soviético de 1939 (o cocktail Molotov-Ribbentrop), quer na repressão sangrenta dos povos "de Leste": Berlim 1953, Budapeste 1956, Praga 1968, e um longo etc.
Talvez se pudesse encontrar um entendimento entre forças nacionais, que valorizassem o papel de um governo social, que pudesse pôr a tónica da discussão não nas funções do Estado - que pareciam evidentes num país ainda carente -, mas na melhor forma de assegurar a competência técnica das mesmas.
Mantive desde então muitos contactos, conversas e iniciativas, onde pude verificar avanços e recuos nesta expectativa.
Muitos comunistas quiseram verdadeiramente abraçar a liberdade como valor fundamental, mas outros não.
E o partido entra nos seus 100 anos – como o PC chinês – preferindo pôr uma pedra sobre o passado.
Nas verdades da vida, nada é fácil, mas tudo o que é essencial acaba por ser simples.
E seria simples denunciar o que, no "comunismo", o fez cair em 1991.
Mas o PCP optou pelo complicado. Persistiu no compromisso histórico da ambiguidade.
Compreendo o reflexo de sobrevivência. Mas havia outro caminho.

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