Fogos-de-artifício
João Pereira Coutinho Politólogo, escritor
06 de maio de 2017

Fogos-de-artifício

Ninguém obriga ninguém a ir a Fátima. Mais: ninguém obriga ninguém a acreditar no que quer que seja. E, no entanto, o fanatismo do tempo age como se a Igreja Católica tivesse absoluto domínio sobre os seus corpos e almas

O PAPA VEM A FÁTIMA e a festa já começou: falo de um certo ódio anti-religioso que se multiplica em artigos de jornal, entrevistas, reportagens, até livros inteiros. Com um zelo que nem o mais crente dos crentes consegue imitar, lá temos as acusações de "falsificação", "construção histórica", "negócio" e sei lá que mais.

Estes eflúvios sempre me provocaram o maior espanto. Como é possível ter um ódio tão profundo por algo em que não se acredita? Não seria o desinteresse a atitude mais aconselhável – e, no fundo, mais racional?

Dou um exemplo: o Verão aproxima-se. E, com ele, aproximam-se dezenas de festivais que prometem congregar milhares de fãs em torno de um ídolo qualquer. Pessoalmente, nem morto me enfiariam nesses recintos. Mas nunca me passaria pela cabeça dedicar horas, dias, meses de vida a denunciar, oralmente ou por escrito, a natureza ruidosa, alienante, anti-higiénica ou simplesmente imbecil desses convénios. Excepto, claro, se me obrigassem a lá ir, a respirar o mesmo ar, a contrair as mesmas doenças– e a abanar a cabeça com a mesma ferocidade. A intolerância só é compreensível em legítima defesa.

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