Museu da Praia
João Pedro George
13 de junho de 2018

Museu da Praia

Portugal é uma imensa praia, possui perto de dois mil quilómetros de costa. E muitos de nós levamos na memória quase toda uma vida passada na praia. No entanto, a praia não tem ainda, na sociedade portuguesa, na arte portuguesa, na literatura portuguesa, na museologia, o papel e o culto que deveria ter

Depois de ter percebido que o termo "Descobrimentos" está politicamente comprometido, muito mais do que a maioria das outras palavras do nosso dicionário, Fernando Medina decidiu fazer caso dos historiadores que denunciaram as reminiscências salazaristas que borbulhavam debaixo da ideia do Museu da Descoberta (e que puseram a descoberto, agora sim no sentido forte e rigoroso do vocábulo, os académicos e cronistas que continuam a promover e a perpetuar a ideia abstrusa da magnífica importância da História de Portugal para a felicidade do planeta) e decidiu mudar-lhe o nome. Isto é: o presidente da Câmara Municipal de Lisboa lembrou-se de, tropegamente, lhe chamar "Museu da Viagem" (de quem terá sido, por Zeus, a sugestão?).

Com o intuito de contribuir para o engrandecimento turístico de Lisboa, tomo a liberdade de fazer uma proposta a Fernando Medina e aos arquitectos que mandam na capital: em vez do Museu da Descoberta ou da Viagem, construam um Museu da Praia. Para que se deixem levar por esta fantasia, seguem-se alguns argumentos persuasivos. Não só a praia é uma das formas de lazer mais generalizadas e comuns em Portugal, como está implícita nas nossas feições como pequenina mas provecta Nação. Por exemplo, logo na primeira estrofe de Os Lusíadas, Portugal aparece como "a ocidental praia lusitana", o país onde "o mar começa", e no Canto IX o Trinca-Fortes descreve o encontro dos marinheiros com as ninfas numa "ilha das delícias", a que se seguem práticas eróticas que se desenrolam em praias de "branca areia".

Portugal, temos de reconhecer, é uma imensa praia, possui, se incluirmos os Açores, a Madeira, as Ilhas Desertas, as Ilhas Selvagens e a Ilha de Porto Santo, perto de dois mil quilómetros de costa. E muitos de nós levamos na memória quase toda uma vida passada na praia. No entanto, a praia não tem ainda, na sociedade portuguesa, na arte portuguesa, na literatura portuguesa, na museologia, o papel e o culto que deveria ter. Além disso, se não me engano muito, seríamos o primeiro país do mundo a ter um museu exclusivamente dedicado à cultura de praia.

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