Sonhar
Tiago Pereira Membro da Direcção e Coordenador do Gabinete de Crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses
14 de junho

Sonhar

E porque, como seres humanos que somos, procuramos, invariavelmente, um outro "eu", sonhar é voar, projectando-nos. Permitindo que nos experimentemos, que nos rejeitemos e rejeitemos outras e outros.

Imagino que o magnético verbo – sonhar – vos estimule a evocação de alguns sonhos, mais ou menos significativos, mais ou menos repetidos. Imagino-o, tal qual imagino que cada uma ou um de nós tenha, em algum momento, sonhado que voava. Como a Gillette e a Maizena são marcas de produtos e, ao mesmo tempo, se tornaram "produtos em si", voar poderia sê-lo para o sonhar porque, além de sonharmos voar, sonhar, literal ou figuradamente, é sempre voar, de um eu para outro eu, de um acontecimento para outro acontecimento, de uma realidade para outra realidade. O sonho e a possibilidade de sonhar, guiam-nos. 

Pensemos no "I have a dream" [Eu tenho um sonho], conceito base feito título do mais marcante discurso de Martin Luther King e reflictamos se não é um ousado plano de voo. Pensemos em quando marcamos aquele golo no último lance de um jogo com um estádio a abarrotar gritando o nosso nome, quando recebemos aquele prémio que todas e todos queriam ou quando encontramos a solução para o mais complexo dos complexos problemas do Mundo. Ou pensemos quando nos sonhos lúcidos percebemos que estamos a sonhar e por isso temos um papel mais activo nos sonhos. Ou, simplesmente, nos "sonhos pandémicos", conforme foram definidos, que podemos ter sonhado e que reflectem o sofrimento partilhado e o medo do contágio, em quando caminhamos num espaço público sem roupa ou quando caímos depois daquele passo em frente num precipício; "voares" que partilhamos colectivamente nos nossos sonhos com pessoas de idades, culturas e experiências diferentes das nossas. Sonhar é voar, aqui como em qualquer outro lugar do Mundo. 

E porque, como seres humanos que somos, procuramos, invariavelmente, um outro "eu", sonhar é voar, projectando-nos. Permitindo que nos experimentemos, que nos rejeitemos e rejeitemos outras e outros. Que nos aceitemos e aceitemos outras e outros. Que com e pelo sonho resolvamos problemas, reparemos, sejamos criativos e nos inspiremos, como Paul McCartney na melodia da canção Yesterday surgida num sonho seu. Mas, um pouco como a pandemia que vivemos nos demonstrou com a COVID-19 e os seus impactos, se todas e todos podemos sonhar, nem todos e todas temos as mesmas condições para o fazer.  

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