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Talvez sem o querer, Marcelo fez de Gonçalo Mendes Ramires, esse fidalgo hesitante, mais enamorado da retórica do que da ação, um espelho involuntário do seu próprio percurso presidencial.
À medida que se aproxima o fim do mandato de Marcelo Rebelo de Sousa, torna-se inevitável fazer um balanço crítico de uma presidência que ficará menos marcada pela solenidade do cargo e mais pela sua omnipresença mediática. Marcelo não foi apenas Presidente da República. Foi comentador permanente, intérprete instantâneo da atualidade, especialista universal e, acima de tudo, uma figura que confundiu proximidade com informalidade excessiva e popularidade com autoridade institucional.
Nada simboliza melhor esta presidência do que o próprio gesto final. No seu último discurso, Marcelo escolheu ler excertos de A Ilustre Casa de Ramires, de Eça de Queiroz. O gesto pretendeu ser culto, identitário e literário. Mas, ironicamente, acabou por ser profundamente revelador. Porque Eça não escreveu aquele romance como uma exaltação ingénua do passado glorioso, mas como uma crítica mordaz à decadência, à vaidade e à incapacidade das elites para corresponderem ao peso da história que invocam.
Talvez sem o querer, Marcelo fez de Gonçalo Mendes Ramires, esse fidalgo hesitante, mais enamorado da retórica do que da ação, um espelho involuntário do seu próprio percurso presidencial.
Se Eça de Queiroz vivesse hoje, dificilmente resistiria à tentação de atualizar o Conselheiro Acácio, essa personagem magistral que encarnava o moralismo vazio, a solenidade oca e a obsessão com frases feitas. O Conselheiro Acácio do século XXI não pisaria salões oitocentistas. Pisaria praias, feiras populares e corredores televisivos, sempre disponível para uma selfie, sempre pronto a comentar tudo, absolutamente tudo, mesmo aquilo que a prudência constitucional aconselharia ao silêncio.
Marcelo fez da palavra o seu principal instrumento. Mas também o seu maior risco. Um Presidente que comenta diariamente a política nacional, que antecipa decisões do Governo, que se pronuncia sobre investigações, conflitos sociais, crises internacionais e até matérias judiciais sensíveis, deixa de ser árbitro para se tornar jogador. A Constituição não proíbe a palavra presidencial, mas exige contenção. E a contenção foi, talvez, a grande ausente deste mandato.
A erosão da dignidade institucional não acontece de forma súbita. Faz-se por acumulação. Uma gafe aqui, uma tirada infeliz ali, uma opinião emitida antes do tempo. A selfie constante, símbolo máximo da fusão entre o cargo e o entretenimento, pode parecer inofensiva, mas tem efeitos profundos. Banaliza a função, dilui o respeito e transforma o Presidente numa figura simpática, mas politicamente leve. Ora, a Presidência da República não é um concurso de popularidade.
O episódio das gémeas ilustra bem esse problema. Independentemente da conclusão jurídica, subsistiram dúvidas sérias sobre a atuação da Presidência da República em matéria sensível, com potenciais implicações éticas e institucionais. O que se esperava não era apenas legalidade, mas transparência. E, nesse ponto, o silêncio presidencial não esclareceu. Pelo contrário, adensou a desconfiança. Num cargo que exige exemplaridade absoluta, o silêncio prolongado pode ser politicamente cúmplice, mesmo quando juridicamente prudente.
Mas talvez o momento mais simbólico da perda de densidade institucional tenha ocorrido no plano internacional. Quando o Presidente de Angola, em discurso público, proferiu declarações que muitos consideraram vexatórias para Portugal, esperava-se do Chefe de Estado português uma reação firme, ainda que diplomática. Não se tratava de criar um conflito, mas de afirmar a dignidade do Estado português. Marcelo optou pelo silêncio. E esse silêncio foi ensurdecedor.
O Conselheiro Acácio, como nos ensinou Eça, adorava a conciliação retórica e temia o conflito real. Preferia a frase redonda à posição firme. Também o nosso Presidente parece ter privilegiado a harmonia aparente à defesa clara da instituição que representava. A diplomacia não é subserviência, a cordialidade não é submissão. Um Presidente não fala apenas por si. Fala por um país inteiro, com história, memória e dignidade próprias.
A leitura de A Ilustre Casa de Ramires no discurso final acaba, assim, por funcionar como metáfora perfeita desta presidência. Gonçalo Ramires invoca um passado heroico que já não consegue honrar. Marcelo invocou a literatura de Eça como selo de elevação cultural, mas esqueceu-se de que Eça escrevia para desmontar vaidades, não para as legitimar.
As eleições presidenciais são já depois de amanhã. Importa pois, refletir seriamente sobre o modelo de Presidente que queremos. O país precisa de menos espetáculo e mais substância. Menos comentários permanentes e mais silêncio estratégico. Menos selfies e mais distância institucional. Um Presidente da República não é um comentador residente do sistema político, nem um animador da agenda mediática.
O que se espera, afinal, de um Presidente da República? Espera-se que seja garante da Constituição, não protagonista do ruído. Que saiba quando falar e, sobretudo, quando não falar. Que represente o Estado com dignidade, tanto no plano interno como externo. Que esclareça, em vez de se refugiar em ambiguidades literárias. Que una, sem banalizar. Que seja próximo, sem ser trivial.
Marcelo Rebelo de Sousa será recordado como o Presidente da empatia e da palavra fácil. Mas também como aquele que confundiu popularidade com autoridade e proximidade com excesso. O próximo Presidente terá de aprender com esse legado. Não para o repetir, mas para o corrigir.
Porque, como Eça de Queiroz nos ensinou, o ridículo nasce muitas vezes quando a forma suplanta o conteúdo. E um país que quer ser levado a sério não pode permitir-se um Chefe de Estado que pareça, demasiadas vezes, saído de uma caricatura literária.
O próximo Presidente deverá ser menos Conselheiro Acácio e mais estadista. Menos personagem e mais instituição. Menos citação literária e mais República.
Talvez sem o querer, Marcelo fez de Gonçalo Mendes Ramires, esse fidalgo hesitante, mais enamorado da retórica do que da ação, um espelho involuntário do seu próprio percurso presidencial.
Os momentos mais perigosos da História não são aqueles em que tudo colapsa, mas aqueles em que todos fingem que nada está a mudar. Em 1026, ninguém previa a avalanche de transformações que se seguiria.
Uns pais revoltavam-se porque a greve geral deixou os filhos sem aulas. Outros defendiam que a greve é um direito constitucional. Percebi que estávamos a debater um dos pilares mais sensíveis das democracias modernas: o conflito entre direitos fundamentais.
Os sistemas públicos precisam de alarmes, alertas e indicadores automáticos. No caso de Obélix, era impossível não notar que uma única médica prescrevia milhares de embalagens em volume muito superior ao padrão clínico nacional.
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