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Pedro Ledo
19.01.2026

Que saúde afinal

Sabemos que a saúde será sempre o maior desafio para um governante que tenha a coragem de ser ministro desta matéria.

A ministra da Saúde tem demonstrado coragem política ao assumir que os problemas estruturais do Serviço Nacional de Saúde não se resolvem com gestão defensiva nem com medidas cosméticas. Ao avançar com reformas em contexto de forte pressão social, escassez de profissionais e elevada exposição mediática, optou por enfrentar interesses instalados e resistências internas, assumindo o risco político inerente a qualquer transformação estrutural. A aposta na reorganização do acesso, no reforço do papel da triagem clínica e na utilização de instrumentos digitais e de inteligência artificial como alavancas de eficiência revela uma leitura realista do estado do SNS e uma recusa clara em perpetuar um modelo assente apenas em improviso e sacrifício dos profissionais. Esta postura rompe com anos de adiamento de decisões difíceis e introduz uma agenda de modernização que reconhece que a sustentabilidade do sistema exige mudança, mesmo quando essa mudança é impopular no curto prazo.

É igualmente relevante sublinhar a coragem demonstrada ao colocar a inovação tecnológica no centro da política pública de saúde, não como discurso vazio, mas como instrumento operacional para melhorar acesso, qualidade e eficiência. A decisão de promover a digitalização clínica, a interoperabilidade dos sistemas e a introdução responsável de inteligência artificial em áreas como triagem, gestão de fluxos e apoio à decisão clínica implica enfrentar receios legítimos, enquadramentos regulatórios exigentes e uma cultura organizacional tradicionalmente avessa à mudança. Ao fazê-lo, a ministra assume que o SNS não pode continuar a funcionar com modelos do século passado perante desafios demográficos, epidemiológicos e sociais cada vez mais complexos. Esta visão estratégica, alinhada com as orientações europeias e com a evidência internacional, revela liderança política num sector onde, historicamente, a prudência excessiva tem servido muitas vezes de pretexto para a inação.

No plano oficial e nos indicadores internacionais, Portugal figura como um país com cobertura universal e bons resultados em algumas dimensões de saúde, mas com desafios persistentes no acesso e na perceção dos cuidados. No relatório Health at a Glance 2025 da OCDE, apesar de Portugal apresentar cobertura universal e melhores resultados em cinco indicadores de acesso e qualidade do que a média da OCDE, apenas 58% da população se diz satisfeita com a disponibilidade de cuidados de qualidade (abaixo da média da OCDE) e a despesa pública em saúde cobre uma percentagem menor dos custos totais, levando a um peso mais elevado de despesas diretas pelos cidadãos. Estes dados permitem afirmar que há sinais de continuidade e expansão de cobertura, mas também dificuldades em melhorar a satisfação e o acesso real de forma significativa. 

Comparando concretamente com o período até 2023, a avaliação de desempenho do SNS no ano passado já mostrava que o nível de actividade hospitalar tinha aumentado, mas não em intensidade suficiente para satisfazer a procura crescente da população. Em 2023, havia um problema claro de lista de espera para consultas e cirurgias. As actuais listas de espera e congestionamento estrutural não desapareceram e continuam a ser um foco de crítica e de insatisfação social. 

Os dados que emergem neste início de 2026 confirmam que a pressão sobre os serviços de urgência está ainda presente e, embora tenha havido uma melhoria em alguns tempos médios, a realidade na prática continua exigente: em 2025 a mediana do tempo de espera para a primeira observação médica foi reduzida para cerca de 49 minutos, o que representa um avanço em relação a 2024, mas o tempo total de permanência ainda se situa em médias superiores a quatro horas, com picos locais de seis horas nos grandes centros urbanos, incluindo Lisboa e Vale do Tejo. Estes indicadores mostram que as políticas recentes podem estar a produzir algum efeito, mas a operação diária dos serviços de urgência ainda vive congestionamento crónico e filas de espera prolongadas para os utentes que mais precisam de cuidados rápidos. 

Outro aspecto crítico que emerge das análises mais recentes é que as barreiras no acesso aos cuidados de saúde, um atributo fundamental do SNS, continuam acima dos níveis pré-pandémicos. Relatórios como o Acesso a Cuidados de Saúde 2025 revelam que a probabilidade de recorrer exclusivamente ao SNS diminuiu de 88% em 2023 para 82% em 2025, e que há um aumento dos episódios de doença reportados pelos cidadãos, particularmente entre os mais jovens. Ao mesmo tempo, persistem barreiras financeiras, com um aumento da percentagem de pessoas que não procuram cuidados mesmo estando doentes, frequentemente devido às dificuldades em adquirir medicamentos ou marcar consultas dentro de prazos considerados adequados. Estes factores mostram que, apesar de algumas iniciativas do Governo para aliviar a procura sobre urgências e ampliar cuidados primários, o SNS ainda não conseguiu resolver as desigualdades de acesso que afectam mais as camadas socioeconómicas desfavorecidas. 

A opção política por implementar programas como ”Ligue antes, salve vidas” e reforçar o papel do SNS24 demonstra uma tentativa de reformular o paradigma de entrada no sistema de urgência, afastando uma parte da procura desnecessária dos serviços de urgência e redireccionando para cuidados primários ou autocuidados quando clinicamente seguro. Contudo, estudos académicos recentes sobre o SNS24 indicam que sem reforço estrutural (incluindo reforço de capacidade e pessoal) este serviço corre o risco de saturação crónica, com projectos que estimam até um milhão de chamadas não atendidas no pico da temporada de 2025/26 se não forem reforçados os recursos. Isso coloca um alerta sobre a sustentabilidade operativa das políticas adoptadas, mesmo quando são bem concebidas em teoria. 

Do ponto de vista da satisfação dos utentes e do desempenho geral do SNS, os relatórios internacionais também trazem nuances. A satisfação com a disponibilidade de cuidados em Portugal situa-se abaixo da média europeia, e embora o país se destaque em cobertura e resultados de alguns indicadores de qualidade, problemas como a mortalidade pós-AVM ou pós-enfarte continuam acima da média da OCDE, apontando para áreas onde a qualidade dos cuidados ainda pode ser reforçada de forma mais sistemática. 

Finalmente, a persistência de desigualdades e as barreiras financeiras no acesso, mesmo após políticas de eliminação progressiva de taxas moderadoras para determinados grupos, indicam que há uma necessidade de aprofundar reformas que vão além de ajustes marginais. Sem uma expansão robusta da capacidade, melhoria das condições de trabalho dos profissionais de saúde e planos de longo prazo para prevenir e gerir doenças crónicas, as melhorias pontuais em alguns tempos de espera ou em serviços digitalizados arriscam-se a ser vistas como paliativas. 

Em suma, a política de saúde em Portugal entre 2023 e 2025 mostra avanços conceptuais e operacionais em algumas áreas, nomeadamente na triagem, gestão de urgências e digitalização, mas os desafios fundamentais de acesso, organização dos serviços, recursos humanos e equidade não foram substancialmente resolvidos. A narrativa de “situação melhor” só é sustentável se for contextualizada com estas tensões estruturais, que continuam a ser um dos grandes temas políticos e sociais em torno do SNS e que, na prática, moldam o quotidiano de utentes e profissionais de saúde. 

A inteligência artificial na área da saúde tem deixado de ser uma visão de futuro abstrata e está a tornar-se uma realidade operacional que já se manifesta de forma concreta em várias frentes, tanto nos Estados Unidos como na Europa e em Portugal. A adopção crescente de soluções baseadas em IA não é apenas uma promessa tecnológica; ela já começa a transformar o diagnóstico, a gestão de pacientes, a triagem, os processos administrativos e até a investigação clínica, com impacto directo nos resultados de saúde e na eficiência dos sistemas de cuidados.

Um dos documentos mais abrangentes sobre o estado da IA na saúde em Portugal é o White Paper Inteligência Artificial na Saúde em Portugal, publicado pela SPMS, onde se identifica que a IA pode beneficiar múltiplas áreas dos cuidados de saúde e sistemas hospitalares, incluindo diagnóstico, produção de estimativas sobre sucesso de tratamentos, apoio durante o cuidado ao longo dos tratamentos e investigação clínica. A mesma publicação sublinha que estas tecnologias permitem alcançar desempenhos de elevada qualidade e personalização de resultados, desde que integradas adequadamente nos sistemas existentes. 

A utilização de IA para automatizar e optimizar tarefas administrativas e de gestão é um dos vectores de mudança mais imediatos. A Comissão Europeia reconhece que a IA pode reduzir custos e agilizar processos como o agendamento de consultas, faturação e gestão de registos médicos electrónicos, libertando os profissionais de saúde para se concentrarem mais no cuidado directo aos pacientes. 

No diagnóstico, a IA tem demonstrado capacidade de acelerar e melhorar a precisão de análises clínicas. Sistemas de análise de imagem por IA conseguem identificar padrões em exames como radiografias, ressonâncias magnéticas e tomografias que podem escapar a observadores humanos, contribuindo para diagnósticos mais rápidos e, nalguns casos, mais precisos. Esta capacidade é especialmente relevante em doenças com janelas terapêuticas curtas ou em patologias cuja detecção precoce altera significativamente o prognóstico do doente. 

Nos Estados Unidos, por exemplo, soluções avançadas de IA estão já a ser utilizadas para reduzir a carga administrativa e melhorar o cuidado ao paciente. Plataformas como “CS Connect” integradas com sistemas de registos electrónicos de saúde utilizam IA para agilizar o registo de saúde do paciente, responder a sintomas e encaminhar cuidados adequados, permitindo aos profissionais centrar-se mais na intervenção clínica que na digitação ou processamento de dados. 

Outra linha de inovação é o desenvolvimento de assistentes digitais e chatbots de IA adaptados ao contexto dos cuidados de saúde, que podem auxiliar na triagem inicial, responder a dúvidas dos pacientes e orientar doentes sobre quando devem procurar cuidados presenciais ou emergência. No contexto internacional, empresas como a Anthropic e a OpenAI estão a lançar produtos específicos para o sector da saúde (“Claude for Healthcare” e equivalentes) concebidos para funcionarem com dados clínicos, sistemas de codificação como o ICD-10 e bases de dados de cuidados de saúde, e desenhados para reduzir a carga administrativas dos profissionais e facilitar o acesso às informações clínicas. 

Na Europa, relatórios como o Artificial Intelligence Is Reshaping Health Systems da OMS Europa mostram que os países da região estão a integrar a IA em múltiplos níveis do sistema de saúde, desde a governança, estratégia e regulação até à utilização prática em cuidados primários e hospitalares. Esses mecanismos implicam não apenas tecnologia, mas também a preparação de força de trabalho, integração com sistemas de dados nacionais e enquadramentos éticos e legais para garantir segurança e eficácia. 

No campo mais clínico, projectos de investigação têm aplicado IA em áreas de triagem em serviços de urgência, em sistemas que analisam sinais vitais, padrões de sintomas e histórico clínico para classificar a gravidade e prioridades de atendimento com maior rapidez e consistência do que métodos manuais tradicionais. A literatura científica indica que sistemas de triagem baseados em IA têm potencial para transformar a operação dos serviços de urgência, melhorando a eficiência, apoiando os profissionais e contribuindo para melhores desfechos clínicos. 

A investigação também explora modelos baseados em linguagem natural e redes neurais para apoiar decisões clínicas mais complexas, incluindo a deteção precoce de condições graves durante o transporte de doentes, o que pode ser particularmente útil em cuidados pré-hospitalares ou em cenários de trauma. 

Em Portugal a adopção ainda está em fases iniciais comparada com os EUA ou certas experiências europeias de vanguarda, mas já existem actividades relevantes. Por exemplo, a healthtech portuguesaSword Healthdesenvolve programas de fisioterapia digital suportados por IA que permitem monitorização remota e ajustamento de planos terapêuticos em tempo real, com evidência de melhorias na dor, função corporal e redução de intenção cirúrgica, demonstrando como soluções portuguesas estão disponíveis no mercado global e a contribuir para a inovação clínica. 

O papel da IA generativa na área clínica também tem ganho destaque, com plataformas capazes de transcrever e estruturar automaticamente consultas médicas, facilitando a documentação clínica e reduzindo o tempo que os profissionais passam a registar informação após consulta.

Este movimento global de adopção da IA na saúde transporta consigo vantagens claras, como maior rapidez no diagnóstico, maior eficiência operativa, melhoria da gestão de dados e apoio à decisão clínica. Porém, também levanta desafios significativos em termos de governação, segurança dos dados, integração com sistemas existentes e aceitação por parte dos profissionais de saúde. Relatórios académicos realçam que a aceitação clínica da IA depende da confiança dos profissionais nos sistemas, da explicabilidade dos resultados e da integração destes no fluxo de trabalho habitual, de forma a minimizar riscos e potenciar benefícios.

Em resumo, a inteligência artificial na saúde já está a ser aplicada em Portugal e internacionalmente de forma concreta no diagnóstico assistido por imagem, na triagem emergente, na optimização de processos administrativos, na personalização dos tratamentos e na documentação clínica, com evidência de impacto positivo em eficiência e qualidade dos cuidados quando implementada com avaliação contínua e sob estruturas de governação adequadas. 

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