Um homem para a eternidade
Pedro Duro
07 de fevereiro de 2018

Um homem para a eternidade

Cheguei de manhã na excitação logística que sempre me invade. Aconteça o que me acontecer, há um antes e um depois daquele dia. Da excitação da espera, à frustração do não-vai-poder-entrar-vamos-precisar-de-usar-ventosas-mas-está-tudo-bem, à alegria de ver aquele frágil e ainda incaracterístico ser onde só as mulheres descortinam logo parecenças, à inquietude do "e agora?"

Cheguei de manhã na excitação logística que sempre me invade. Aconteça o que me acontecer, há um antes e um depois daquele dia. Da excitação da espera, à frustração do não-vai-poder-entrar-vamos-precisar-de-usar-ventosas-mas-está-tudo-bem, à alegria de ver aquele frágil e ainda incaracterístico ser onde só as mulheres descortinam logo parecenças, à inquietude do "e agora?", à atrapalhação do não-lhe-pego-senão-parte-se, de tudo um pouco me passou pela cabeça.

Um dos primeiros temas que o advento desse 7 de fevereiro de 2005 trouxe foi o nome. Depois de vários ensaios e leituras de listas, quem o traria à luz lá se fixou num. Fiz aquilo que qualquer homem minimamente inteligente e com instinto de sobrevivência faz: racionalizei a escolha feminina, adotando-a como também minha, para ficcionar uma coautoria. Assim, "Tomás" fazia todo o sentido. Não o "de Aquino", como ia proclamando em exibição pedante do meu passado protorreligioso, mas o "More", no que eu julgava ser um presente virado para a cidadania. Thomas More era pai, jurista, político – entretanto padroeiro dos políticos, porque deixara que lhe levassem a cabeça, mas não a palavra, mas não as ideias, mas não a alma. Perdeu tudo o que era para si para não perder nada de si. É, por isso, a vários títulos, o meu santo dos santos – que resistiu à minha passagem para o agnosticismo. Se hoje fosse uma pessoa religiosa e tivesse seguido a via do Seminário, na impensável circunstância de se levantar o fumo branco para me levar à varanda em Roma, seria seguramente anunciado um papa "Tomás I" – tamanha é a minha noção de que chegar aos calcanhares daquele Thomas é chegar a um lugar tão longe de mim que prefiro pensar que não existe (a minha utopia).

Estou certo de que muitos políticos (mesmo religiosos) pouco saberão desse «homem para a eternidade» (para recordar um filme biográfico sobre o santo) e, provavelmente, não estariam disponíveis para tomar as decisões que ele tomou. Mas outros estarão.

Para continuar a ler
Já tem conta? Faça login
Para activar o código da revista, clique aqui