Sábado – Pense por si

Paula Cordeiro
Paula Cordeiro Especialista em comunicação
20 de outubro de 2026 às 12:27

Insustentável: a senha (já) não passa na rádio

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Em três anos, a IA generativa mudou mais o mundo do que qualquer outra tecnologia de que tenho memória. Neste processo, atrevo-me a dizer que a tecnologia está a sobrepor-se às pessoas. Pessoas que cedem e que resistem, numa espécie de implosão social em curso. Com ou sem tecnologia.

Houve um tempo em que não se podia falar. Falava-se baixinho, quase em surdina, entre quatro paredes, não fosse alguém ouvir. Ainda assim, a revolução aconteceu. Hoje não faltam formas de nos fazermos ouvir, mas ficámos tanto tempo calados que o silêncio passou a valer como aceitação. Resignação. Em última análise, consentimento. Consentimos em demasiadas coisas e agora, que uma geração inteira deixa de consentir, ninguém sabe muito bem o que fazer. Nas notícias, manifestações pacíficas e cargas policiais para fazer cumprir a lei. Para muitos será confuso: assiste-nos o direito de manifestação, mas a manifestação também obedece a regras. Nas mesmas notícias, os imóveis de membros do governo, que contribuem, direta ou indiretamente, para a crise da habitação. São os que aprovam as leis, os proprietários, os que anunciam rendas acessíveis a que poucos conseguem aceder. Acreditem: haverá infiltrados à procura de instabilidade, mas a causa de tudo isto é comum à maioria dos cidadãos. Mesmo os que continuam calados e os que, por medo do que já antes viram acontecer, estão quase petrificados. Mas uma nova geração, com menos memória, é capaz de mudar. Ou fazer por mudar.

Muitas vezes começo por dizer que o mundo mudou. O óbvio todos sabemos: o mundo está em permanente mudança. Mas de que falamos quando dizemos que o mundo mudou? Mais do que a tecnologia, mudámos nós. Há o antes e o depois da pandemia e ninguém me convence do contrário. Voltámos mesmo ao normal ou passámos a manter uma certa distância, a cumprimentar com um abraço de rosto desviado quem nos merece alguma confiança, mas não a confiança de um beijo, por mais social que seja? O mundo reabriu, mas tudo parece diferente, como se o tempo tivesse acelerado, como se os dias e os meses e os anos se sucedessem numa voracidade difícil de controlar. Nessa pressa transformada em urgência, perdemos ligações e há quem se sinta desligado, como se se tivesse perdido de si próprio e do mundo. Entretanto, sobem os preços, as cidades enchem-se, o stress e a ansiedade aumentam e a tecnologia, que já estava em todos os domínios da vida, torna-se omnipresente e omnipotente.

Em três anos, a IA generativa mudou mais o mundo do que qualquer outra tecnologia de que tenho memória. Neste processo, atrevo-me a dizer que a tecnologia está a sobrepor-se às pessoas. Pessoas que cedem e que resistem, numa espécie de implosão social em curso. Com ou sem tecnologia.

Se os tumultos dos últimos dias têm a ver com a tecnologia? Não. Mas sim. Vejamos: ainda não chegaram a Portugal, mas nos Estados Unidos dão que falar os robots que entregam comida. Faz sentido? Todo. Queremos isso? Não. Há quem dê pontapés aos robots das entregas, quem os espanque. Espancar uma máquina? O gesto é visto como um ataque aos avanços da IA e ao seu potencial para destruir empregos, ainda que crie outros. Afinal, alguém tem de programar e construir os robots, trabalho mais qualificado do que o das entregas. Só que não é para quem entrega. E por falar em emprego, a nova moda é deixar dois bots a conversar. Os empregadores entrevistam com IA, o candidato não aparece e envia o seu representante digital. Resultado: dois agentes de inteligência artificial num loop interminável porque… não são humanos. E tudo isto nos leva ao início da conversa: as pessoas. É essa a reivindicação dos alunos do liceu Saint-Exupéry, em Créteil, nos arredores de Paris, que entraram em greve em solidariedade com os professores, contra a falta de recursos e de pessoal. O movimento espalhou-se através do TikTok, Instagram e aplicações de mensagens. Ao contrário dos robots de entregas, a tecnologia é a ferramenta da revolta, não o alvo. Para perceber a revolta, não é preciso tecnologia nenhuma. É óbvia e fácil de explicar: ganância e má governação. E de um protesto por falta de condições na escola, está a desenhar-se um protesto global daqueles que, sem esperança, se sentem, legitimamente, defraudados.

Estalou o verniz e escalou o oportunismo, que transformou um protesto pacífico numa debandada que leva tudo à frente e destrói para instigar mais violência, justificando mais repressão e autoritarismo dos governos. A extrema-direita esfrega as mãos, numa altura em que as eleições se aproximam em vários países europeus. Sempre ouvi dizer que não é com vinagre que se apanham moscas. E vale para os dois lados da barricada. Mais repressão, maior revolta. Assim seguiremos, porque os jovens, e com eles os adultos, ou seja, a sociedade, não se sentem ouvidos. E quem não se sente ouvido faz-se ouvir. Não vão precisar de música a tocar na rádio para lançar a senha da revolução. Está a acontecer diante dos nossos olhos, movida pelo passa-palavra nas plataformas digitais às quais estão ligados e através das quais se ligam entre si. O custo de vida. Os empregos que escasseiam e para os quais podemos usar robots, as candidaturas de emprego sem resposta ou com respostas geradas por IA e as entrevistas em que se conversa com uma máquina. Os salários baixos. As casas e a vida em casa dos pais. Vão dizer-me que não viram isto a chegar?

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