(A)normalmente Normal
Paula Cordeiro
06 de julho

(A)normalmente Normal

Longe de defender o retrocesso, especialmente da emancipação feminina que os electrodomésticos e os serviços diversos vieram permitir, defendo, contudo, uma pausa para pensarmos naquilo de que podemos abdicar, a favor de aqui continuarmos por mais uns tempos.

(A)normalmente normal é termos um julho de céu semi cerrado e luz difusa, enquanto esperamos uma suposta vaga de calor que anunciam nas redes, resultante do que já consideramos normal e que é, afinal, uma estranha forma de vida que adoptámos algures no tempo. Ou que fomos adoptando, a favor da facilidade e da conveniência, mas também do lucro e da criação de necessidades que são relativamente necessárias, resultantes da falta de tempo, por ocuparmos o tempo em actividades que nos impedem de ter tempo.

Ao ler isto em voz alta ocorreu-me parecer parvo, e pode fazer-vos acreditar que defendo a idade das Trevas ou um regresso aos tempos da mulher dona de casa, que ocupava os seus dias entre a roupa esfregada no tanque e estendida ao sol, que cumprimentava o leiteiro pela manhã ou remendava as meias, ao final da tarde. Longe de defender o retrocesso, especialmente da emancipação feminina que os electrodomésticos e os serviços diversos vieram permitir, defendo, contudo, uma pausa para pensarmos naquilo de que podemos abdicar, a favor de aqui continuarmos por mais uns tempos. Também não sou das conspiracionistas que acha que a Terra é plana, que mundo vai acabar em 2033 ou que considera que o SARS-Covid foi inventado na China num plano maquiavélico de supremacia global. Na passada semana ardeu uma vila, no Canadá. Em Madagáscar, comem-se insectos por falta de opção.

No Golfo do México,  o mar ardeu. Os factos são graves e a ciência já se encarregou de explicar para onde caminhamos, pelo que me questiono, o que falta saber - ou acontecer - para percebermos que o mundo mudou, e não foi para melhor. O que nos faz continuar a viver o quotidiano agarrados a preocupações tão prosaicas e insignificantes sem pensarmos nesta questão? O que nos faz ignorar, de forma deliberada, as opções das grandes corporações e continuar a comprar como se fosse essa a única opção, ou não existissem alternativas no mercado?

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