Insustentáveis cromos de (ou do) futebol
A caderneta Panini existe desde 1961. Sessenta e cinco anos depois, o modelo é o mesmo: compra-se a caderneta, abrem-se saquetas com cromos aleatórios, cola-se. A diferença é a escala.
Confesso: eu já não me lembrava das cadernetas de cromos e de como os cromos controlavam determinados momentos na nossa vida. Na escola era ver quem tinha mais cromos e quem acabava primeiro a coleção, nos intervalos comparávamos a caderneta e trocávamos cromos. Algumas cadernetas ajudavam-nos a aprender coisas sobre o mundo e a natureza, outras aproveitavam um evento global e viciavam-nos. Era um jogo, infantil e uma competição por vezes hostil. Eu nunca acabei nenhuma caderneta e, lá em casa, chegando a um determinado ponto em que só saíam cromos repetidos, perdia-se o entusiasmo e faziam-se contas à despesa. E era caro, especialmente porque, depois de completa, era substituída por outra, e colocada no fundo da gaveta. Uma proto-sociedade de consumo que influenciava pais através dos mais novos. Hoje, os adultos estão a fazer a coleção do Mundial, há encontros para troca de cromos e o papel ganha a atenção que o digital também tem.
A caderneta Panini existe desde 1961. A primeira edição oficial de um Mundial foi em 1970, no México. Sessenta e cinco anos depois, o modelo é o mesmo: compra-se a caderneta, abrem-se saquetas com cromos aleatórios, cola-se. A diferença é a escala. Esta edição do Mundial 2026 tem 980 cromos. É a maior de sempre. Num cenário perfeito, sem um único repetido, completar a coleção custaria 210 euros. Só que esse cenário não existe. Paul Harper, professor de matemática na Universidade de Cardiff, calculou que, sem recorrer a trocas, seriam necessários cerca de 7.300 cromos, ou seja, 1.569 euros. E a Panini não revela as probabilidades de saída de cada cromo. Pois.
O mesmo mecanismo que nos jogos digitais gera controvérsia e regulação, a recompensa variável, aleatoriedade opaca, escalada de custos à medida que a coleção avança, existe aqui há décadas, impresso em cartão brilhante, e sempre pareceu inofensivo porque era para crianças. Hoje, não são só as crianças. O Portal da Queixa registou mais de 60 reclamações de fraudes online associadas à venda de cromos do Mundial, desde sites falsos, pagamentos que não geram encomendas, taxas fictícias a posteriori. O entusiasmo suficiente para atrair criminosos.
E, no entanto, há aqui algo além do preço ou a lista de burlas. O vinil ultrapassou os CDs em vendas em 2024. As cassetes voltaram. A fotografia em película está a crescer. A geração que nunca viveu sem internet está a escolher, conscientemente, experiências com textura e demora. Não é nostalgia. Como já escrevi, acredito que é resistência ao scroll infinito, à gratificação imediata, ao conteúdo que desaparece quando se fecha o ecrã. A caderneta Panini encaixa nesse movimento porque obriga ao tempo: semanas, trocas, a espera pelo cromo certo.
Esta edição tem ainda outra dimensão. Será uma das últimas da Panini: a FIFA anunciou que, a partir de 2031, as cadernetas oficiais dos Mundiais passam para a Topps, empresa americana de coleccionáveis. Talvez por isso, também haja qualquer coisa de despedida nesta febre.
A verdade é que o Mundial é apenas um pretexto para recuperar uma prática que durante algum tempo se perdeu, reunindo pessoas, manipulando o papel, sem, contudo, se perder a inovação. E é assim que poderíamos viver na sociedade digital, sem ignorar ou substituir o que nos trouxe até aqui, numa integração que, provavelmente, até nos faria mais felizes.
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