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Paula Cordeiro Especialista em comunicação
07.07.2026

Histórias da insustentável cara de IA

As pessoas procuram alterar o rosto de acordo com imagens de si próprias geradas por chatbots: pele sem poros, maçãs do rosto muito definidas, simetria quase perfeita. Robôs, portanto.

Sabemos que a sociedade mudou quando as pessoas procuram procedimentos cirúrgicos para alterar o seu aspeto e ficar parecidas com versões irrealistas de si mesmas. Sempre aconteceu, dirão. Os padrões de beleza alteram-se. Tendencialmente queremos parecer-nos com o que nos dizem ser bonito. Diz quem, perguntamo-nos alguma vez?

Há uns anos, não muitos, uma aluna minha, do ISCSP, fez um estudo exploratório para compreender a influência do Instagram junto de jovens da sua idade. Estudou o comportamento de outras estudantes universitárias e percebeu que estas não publicavam, nos stories do Instagram (que, note-se, duram apenas 24 horas), selfies sem filtro, sobretudo os que embelezam o rosto. Não se sentiam confiantes com o seu aspeto e sentiam-se diminuídas em relação a outras jovens, iguais a elas, na mesma plataforma. Sabemos também que os media sempre endeusaram figuras públicas, modelos e celebridades, e que estas sempre representaram padrões quase inalcançáveis de beleza, com consequências já conhecidas nestes setores de atividade. Agora, falamos da miúda lá da rua que, com as ferramentas hoje disponíveis, transforma o seu aspeto num ecrã e depois procura um médico para tornar o rosto e o corpo iguais ao que a inteligência artificial definiu para si.

A “cara de IA” é hoje uma preocupação séria na cirurgia plástica. As pessoas procuram alterar o rosto de acordo com imagens de si próprias geradas por chatbots: pele sem poros, maçãs do rosto muito definidas, simetria quase perfeita. Robôs, portanto. E que, por agora, a cirurgia ainda não consegue replicar. Ainda bem?

Simultaneamente, há jovens que já não conseguem conversar sem consultar um chatbot de IA. Confesso que também eu já pedi ajuda à IA para reescrever um ou outro email mais difícil, tornando-o mais polido e educado, mantendo a essência da mensagem. Quem nunca?… Usar IA para gerir as nossas conversas é já digno de paródia, ao estilo Gato Fedorento ou Porta dos Fundos. Curiosamente, o "escritório ChatGPT" da Porta dos Fundos faz precisamente isso: substitui a máquina por humanos escondidos atrás do ecrã, respondendo a quem pergunta ao ChatGPT sem saber que do outro lado está gente, não um algoritmo. Na paródia, o ridículo em que nos transformámos torna-se evidente: aceitamos respostas absurdas e mudamos de tema como um cata-vento. Os erros sucedem-se, básicos e nem tanto, de geopolítica e geografia, receitas inventadas, emojis para acalentar conversas sobre traumas amorosos. E, como terminam dizendo, mentir é humano.

Karen Hao, jornalista norte-americana e autora do best-seller "Empire of AI", escreveu o livro a partir de 260 entrevistas para desvendar os meandros da OpenAI, a empresa por trás do ChatGPT. O retrato que traça é o de uma tecnologia que se infiltrou em todos os aspetos da nossa vida sem que nos apercebêssemos bem de como tal aconteceu. Transformar um email raivoso, escrito num momento de cólera, pode ser uma ajuda simpática. Depender da IA para escrever todos os emails da nossa vida já é preocupante. E é isso que acontece às gerações mais jovens, sendo que o problema não é o email, é todo o domínio da vida social. Ao que se sabe, há jovens que já não conseguem desenvolver uma interação normal e usam ChatGPT para gerir as suas conversas.

Se não somos capazes de pensar de forma independente da tecnologia, é a empresa que passa a desenhar essa visão do mundo por nós (e para nós), impondo os seus valores e os seus sistemas de pensamento, à medida que nos tornamos cada vez mais viciados e dependentes, num ciclo que tende a piorar, ao ponto de nos esvaziar a alma e nos tornar incapazes, sequer, de conversar. Se isto não é insustentável, não sei o que será.

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