Porque votar importa e, desta vez, em Seguro
A abstenção atual não nasce da ignorância e indecisão, mas da desilusão e elevada exigência diária, incluindo a leitura e reflexão. A abstenção não corrige o sistema, torna-o mais pobre. Menor participação fragiliza a legitimidade democrática e amplifica, pelo fenómeno da dispersão de votos, os extremos, amiúde fortemente organizados e hierarquizados.
No final do artigo farei a minha declaração de interesses sobre o meu apoio a António José Seguro. Para já, procuro responder à pergunta: por que raio, indecisos, eleitores fartos da política e políticos, abstencionistas e afins, devem votar nestas eleições presidenciais e em Seguro?
Portugal é por muitos indicadores, um bom país para viver. É essencialmente pacífico, socialmente coeso, relativamente seguro, economicamente desenvolvido e respeitado no exterior, o país e os portugueses.
Porém, este bem-estar esconde um paradoxo crescente: muitos cidadãos sentem que votar já não faz a diferença ou que votar nos extremistas é a única solução de mudar a política e os políticos. No caso, sobretudo, dos moderados, a principal questão é: porquê votar? E, mais ainda, por que votar em António José Seguro?
Votar importa
De facto, a política democrática é, amiúde, previsível, aborrecida e repetitiva, mas importa saber que tal é a normalidade das democracias e constituições liberais, como a de Portugal, cujo estado de direito democrático assenta em leis, princípios e instituições fundamentais e estáveis, e na vontade de maiorias com respeito pelas minorias, o que obriga a diversos compromissos e consensos entre atores e interesses nacionais, públicos e privados.
A alternativa são as denominadas democracias iliberais ou ditaduras democráticas, cujos governos autoritários, discriminatórios, persecutórios e corruptos manipulam e iludem a vontade popular e a verdade governativa.
A política pode, também, ser dececionante e desligada da vida quotidiana, porém, a abstenção não é um verdadeiro gesto de revolta ou de indiferença, quando muito de desesperança e cansaço.
A abstenção atual não nasce da ignorância e indecisão, mas da desilusão e elevada exigência diária, incluindo a leitura e reflexão. A abstenção não corrige o sistema, torna-o mais pobre. Menor participação fragiliza a legitimidade democrática e amplifica, pelo fenómeno da dispersão de votos, os extremos, amiúde fortemente organizados e hierarquizados.
O voto é o último espaço onde a cidadania permanece verdadeiramente igual. Um voto vale o mesmo, no interior e no litoral, no continente e nas ilhas, independentemente da posição social ou da visibilidade pública.
O voto é um investimento individual na riqueza nacional, onde se inclui o estado de direito, a democracia, os princípios e direitos e deveres fundamentais e o bem-estar social, cultural e económico.
Ou seja, não votar não é solução, pois alimenta a autoilusão de melhoria e mudança. Votar é, mais do que um dever, um tributo ao nosso passado, presente e futuro.
O passado, presente e futuro importam
A democracia portuguesa é jovem e, como todas as demais, não nasceu por inércia. Foi construída com protestação, coragem e a convicção de que a participação conta. Com sangue, suor e lágrimas, como diria Churchill. É certo que as democracias não caem de um dia para o outro, contudo, desgastam-se lentamente, sobretudo com a alienação ou inação cívica ou
política dos cidadãos, permitindo restar a decisão e responsabilidade políticas nas mãos dos mais ruidosos e retóricos.
A democracia é sempre um legado cívico e político para quem vive nela. Se quiserem, é mesmo um fardo, o fardo dos moderados. Um fardo que permite aspirar e manter uma vida boa, livre e protegida. A democracia não é somente um legado digno de proteção, é a medida de governo da dignidade dos governados e qualidade das suas instituições.
É neste quadro que importa olhar para percursos políticos que revelam integridade, coerência e sentido de Estado.
O percurso público de Seguro revela fidelidade aos princípios constitucionais, respeito pelas instituições, moderação e equilíbrio constitucional. Representa uma política que entende o poder como transitório, o serviço público como permanente e a prevalência do interesse público sobre os interesses privados e pessoais.
Seguro destacou-se, ainda jovem deputado, na defesa do direito à autodeterminação de Timor-Leste, tendo sido detido ao realizar um protesto pacífico à porta do pavilhão da Indonésia, na EXPO92, em Sevilha. Outras provas são a sua demarcação do partido quando votou, sozinho, contra a disciplina de voto, a alteração à lei de financiamento dos partidos políticos, em 2009. Outras ocasiões contracorrente ocorreram, por exemplo, em 2008, votando contra a não realização de referendo sobre o Tratado de Lisboa, e no período da troika (2011-2014), posicionando-se contra o aumento do IVA e dos cortes nos subsídios dos funcionários públicos.
Os sobreditos valores e princípios mais uma vez ficaram demonstrados, não sendo exaustivo, quando, enquanto líder partidário, após uma das maiores vitórias nas eleições autárquicas do PS, em 2013, e nas eleições europeias, em 2014, tomou uma decisão politicamente arriscada e corajosa: marcou eleições internas no PS, apesar da sua legitimidade interna e popular, afirmando que a legitimidade democrática não se acumula, renova-se.
Mais, após perder as eleições internas de 2014, afastou-se totalmente da política, dedicou-se sobretudo ao ensino e aos negócios familiares e da sua região e só regressou em 2024.
Em matéria de desapego ao poder e ao poleiro mediático de um ex-líder partidário do arco da governação creio que não há precedentes.
Concluindo
Portugal enfrenta desafios exigentes: demografia, qualificações, produtividade, transição climática, transformação digital, envelhecimento populacional, imigração, descentralização, defesa. Nenhum se resolve com atalhos e bitaites. Exigem lideranças que escutem, orientam e inspirem, instituições que escrutinem e resistam e cidadãos protegidos e capacitados.
Votar é a oportunidade de os eleitores mostrarem o caminho e darem o exemplo daquilo que criticam nos políticos e no país. É um instrumento de reforma, não de rutura. De certo modo, o voto é um dever de homenagem ao passado, ao presente e ao futuro de uma nação e uma manifestação de coragem cívica tranquila. A abstenção não corrige o sistema, empobrece-o. Portanto, em países e tempos exigentes, votar importa.
Neste contexto, Seguro oferece algo discretamente contracorrente: integridade, proximidade, representatividade, serenidade e autenticidade. Não promete ruturas ou milagres, não fala pela negativa, não discrimina ou exclui, nem explora o medo, o conflito ou a nostalgia.
A credibilidade de Seguro assenta, positiva e autenticamente, na sua história, ação e abnegação.
A vida política, profissional, cívica e pessoal de Seguro mostra que ele é um democrata íntegro, moderado, culto, humanista, progressista, inclusivo e reformador. Ou seja, um estadista.
Declaração de interesses
Abro uma derrogação nesta coluna de opinião, designada “O Canto das Políticas”, para declarar o meu apoio a António José Seguro, sem prejuízo de a mesma ser absolutamente independente e apartidária. Mas isso não significa que seja politicamente neutra ou inabilitada. Faço-o, em primeiro lugar, por imperativo ético, político e pessoal, e também amizade, para com o candidato. Em segundo lugar, faço-o, por corolário do primeiro, pelo sentido e valor destas eleições presidenciais, onde incluo o risco de o país eleger candidatos extremistas, autoritários ou não tão bem preparados.
Por fim, declaro, igualmente, ser membro da comissão de honra de apoio à candidatura de António José Seguro.
Porque votar importa e, desta vez, em Seguro
A abstenção atual não nasce da ignorância e indecisão, mas da desilusão e elevada exigência diária, incluindo a leitura e reflexão. A abstenção não corrige o sistema, torna-o mais pobre. Menor participação fragiliza a legitimidade democrática e amplifica, pelo fenómeno da dispersão de votos, os extremos, amiúde fortemente organizados e hierarquizados.
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