O contribuinte não deve entregar ao automatismo a definição do que é do seu interesse, nem deixar de ler, verificar e compreender uma declaração que, uma vez confirmada, passa a produzir efeitos em seu nome.
Há um momento, todos os anos, em que muitos contribuintes entram no Portal das Finanças com uma expectativa simples, a de ver se o sistema já preencheu a declaração, e depois talvez baste carregar em confirmar.
A expetativa é compreensível. Menos tempo, menos papéis, menos ansiedade perante uma obrigação fiscal que continua a implicar, para muitos cidadãos, uma linguagem pouco familiar, pelo que nesta matéria a digitalização trouxe ganhos evidentes de simplificação e previsibilidade. Mas há uma diferença essencial entre uma declaração preenchida por meios automáticos e uma declaração pensada por quem conhece a sua própria vida.
O IRS automático não decide pelo contribuinte. É uma proposta construída a partir de informação disponível na Administração Tributária, designadamente rendimentos, despesas comunicadas por terceiros e dados relativos ao agregado familiar. Isso torna o procedimento mais cómodo, mas não o torna infalível. A vida familiar, profissional e patrimonial nem sempre cabe sem sobras nos campos previamente preenchidos de uma plataforma. Um filho que mudou de residência, uma alteração no agregado, despesas não corretamente comunicadas, uma opção fiscal que depende da situação concreta ou uma informação que ficou incompleta podem alterar o resultado.
A questão, por isso, não é de desconfiança perante a tecnologia, mas de compreender o seu lugar. A automatização serve para facilitar o cumprimento de deveres fiscais, não para dispensar a atenção do cidadão. O Estado pode organizar dados, propor cálculos e tornar mais acessível uma obrigação declarativa, mas não substitui a responsabilidade de verificar se aqueles dados correspondem à realidade. Num imposto pessoal como o IRS, que procura tributar o rendimento de acordo com circunstâncias individuais e familiares, a exatidão dos dados não é um detalhe menor, mas uma condição para que a tributação seja justa.
Este ponto é particularmente importante, porque o imposto não é apenas uma “conta” entre o contribuinte e a Administração. É também uma relação jurídica em que existem deveres, garantias e consequências, pelo que confirmar uma declaração significa aceitar que aqueles elementos servem de base à liquidação.
Não confirmar nada também pode ter efeitos, porque a declaração provisória pode converter-se em definitiva no final do prazo legal, pelo que a aparente passividade digital não é, afinal, uma zona neutra, podendo produzir resultado jurídico.
Uma Administração mais eficiente é desejável e necessária, pois ninguém ganha com procedimentos opacos, repetitivos ou desnecessariamente difíceis. Mas a eficiência só reforça a confiança pública quando é acompanhada de clareza, possibilidade real de verificação e acesso a meios de reação. A tecnologia deve aproximar o cidadão do direito, não afastá-lo por excesso de confiança no automatismo.
Também por isso os tribunais tributários são uma peça essencial do Estado de direito. Quando se discute a legalidade de uma liquidação, a fundamentação de uma cobrança, a prova dos factos tributários, a aplicação de juros ou a validade de uma sanção, não está em causa uma resistência caprichosa ao pagamento de impostos, mas saber se o poder público atuou dentro dos limites que a lei lhe impõe.
Pagar impostos é um dever de cidadania, mas ser tributado segundo a lei é uma garantia da mesma cidadania.
O IRS automático é, assim, um bom exemplo do que deve ser a modernização administrativa. Um instrumento útil, simples e valioso, desde que não seja confundido com uma abdicação de consciência. E o clique que confirma uma declaração não é apenas um gesto digital, mas um ato de responsabilidade.
É por isso que o contribuinte não deve entregar ao automatismo a definição do que é do seu interesse, nem deixar de ler, verificar e compreender uma declaração que, uma vez confirmada, passa a produzir efeitos em seu nome.
O contribuinte não deve entregar ao automatismo a definição do que é do seu interesse, nem deixar de ler, verificar e compreender uma declaração que, uma vez confirmada, passa a produzir efeitos em seu nome.
Um valor pode estar certo e, ainda assim, estar mal explicado. Pode resultar de dados declarados, cruzamentos de informação e critérios legais, mas chegar como uma conclusão fechada.
Num contexto internacional em que a solidez das instituições democráticas deixou de poder ser tomada por adquirida, o desgaste institucional começa muitas vezes na linguagem com que essas instituições são descritas, porque é através dela que se forma a perceção pública da sua utilidade, da sua legitimidade e da sua função.
O tribunal não é chamado a apreciar apenas o resultado, mas a verificar se a decisão respeita os pressupostos legais que a sustentam, o que implica compreender o percurso que conduziu a esse desfecho.
A justiça manteve-se em funcionamento porque os juízes continuaram a exercer a função em condições difíceis, assegurando decisões e tramitação mesmo quando essas condições interferiam diretamente com o trabalho quotidiano.
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