Trump faz o que quer. E a Europa?
Trump faz o que quer e a Europa é a primeira a deixar que assim seja.
Hoje já nada nos choca da Administração Trump. Na sexta-feira passada, o Supremo Tribunal norte-americano considerou inconstitucionais as tarifas aduaneiras, motivando fúria da Casa Branca. Trump ameaçou ripostar, aplicando uma taxa de 15% sobre todas as exportações para a América, pelo menos durante um período de cinco meses antes de ser forçado a levar estas medidas ao Congresso.
Há uns anos, isto seria uma crise gigantesca. Há uns meses, motivou um pacote de ajudas do Governo na ordem dos 10 mil milhões de euros. Agora, como já não surpreende, o tema já não suscita a urgência necessária para agir, seja em Portugal seja na Europa. O melhor que se conseguiu foi voltar a suspender o processo de ratificação de um acordo comercial que não se entende se continuará a existir neste contexto.
A situação para Trump não está fácil. A Reserva Federal de Nova Iorque publicou um estudo que aponta para 90% dos custos das tarifas estarem a ser absorvidos pelos importadores americanos e não pelas exportadoras estrangeiras. Os impactos adversos sentem-se numa economia que estagna e que faz gorar a promessa de fazer ressurgir o emprego, em especial entre as classes populares que o elegeram. Entretanto, o governo sofre as consequências dos excessos – da agência anti-imigração ICE, do condicionamento dos media contra adversários e, claro, da divulgação aparatosa dos ficheiros Epstein.
Apesar da fragilidade externa, o presidente americano goza de sucesso nos seus objetivos internacionais. Criou a sua Board of Peace, numa clara afronta às Nações Unidas, mas contando com o endosso de muitos países europeus, incluindo do governo português. Está a provocar uma situação humanitária grave em Cuba, enquanto ninguém o sanciona pelo ataque à Venezuela nem pela iminente agressão ao Irão. Chega mesmo a encorajar movimentos independentistas no Canadá e de extrema-direita na Europa.
Trump faz o que quer e a Europa é a primeira a deixar que assim seja. Veja-se que, não obstante a ameaça declarada de invadir ou (indignamente) adquirir a Gronelândia, os nossos líderes continuam – com honrosas exceções – amestrados, bajulantes, rastejantes. Será que reforçaram o apoio à Ucrânia? Não, nem sequer conseguiram acordar o seu financiamento. Tendo a necessidade de se armar para estar preparados para qualquer ameaça à sua segurança coletiva, permanece descoordenada e displicente no reforço da sua capacidade industrial militar.
A questão, claro, é estratégica. Há quem ache que o melhor que podemos fazer é agradar e não irritar a fera. Há quem entenda que não podemos prescindir de fazer um acordo com Washington, seja por motivos económicos seja pela cooperação militar e de informações (intelligence) que temos deles. A esta equação devemos quiçá juntar a nossa dependência energética. Se em 2021, a América era responsável por menos de 6% do nosso fornecimento de gás, agora ela responde por 26% dessas necessidades e por 15% do nosso consumo de petróleo.
Todavia, se não podemos nos desembaraçar da nossa interdependência, há muito que podemos fazer para reforçar o nosso peso negocial. O think-tank alemão Dezernat Zukunft (“Departamento do Futuro”) publicou há dias um estudo que aponta para o facto de 30% do valor de mercado das grandes tecnológicas americanas depender do acesso aos mercados europeus, de 80% do urânio pouco enriquecido usado nos EUA ter cá origem ou de como a priorização de turbinas da Siemens para data centres europeus põe em risco investimentos nos EUA na ordem dos 50 mil milhões de euros.
Os analistas repararam já, também, que, perante suficiente pressão, sobretudo dos mercados financeiros, “Trump always chickens out” (Trump acobarda-se sempre). Embora isso pudesse convidar os mercados a instigar a cobardia, essa antecipação na verdade resulta numa reação mais suave às atitudes do Presidente e, logo, na necessidade de este agir ainda pior até o mercado cair o suficiente para o travar. Por outro lado, há quem entenda que o Presidente norte-americano fabrique crises, como a ameaça de invadir a Gronelândia, como forma de distrair o mundo da sua verdadeira agenda, designadamente no Médio Oriente e na Europa do Leste. É possível que, numa era onde nada é permanente, esticar o limite seja apenas tática numa negociação.
Seja a essência de Trump o cinismo ou a vulnerabilidade, há muito a fazer se quisermos mais do que apenas reagir ao curso da história e mitigar o dano que esta possa infligir. De uma forma ou de outra, desdramatizar dificilmente parece ser o caminho ótimo. Como se viu com Mamdani, mais do quem afaga o seu ego, Trump respeita um adversário que se dá ao respeito e que está seguro do seu valor e das suas convicções.
Em matéria de relações internacionais, os tempos não estão para os fracos de estômago ou de coração. Estes são tempos em que a nossa postura vai ficar registada na história. Em 1938, Chamberlain fez o Acordo de Munique, para evitar a guerra e comprar tempo para os Aliados se armarem. Ainda assim, a história não é simpática com a sua estratégia de apaziguamento. Quase 90 anos depois, a Europa comete o mesmo erro moral enquanto falha clamorosamente na reação estratégica. A inércia de hoje é a mãe da impotência de amanhã. E então estaremos derrotados à partida. Aí é que a história não nos perdoará.
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