Sábado – Pense por si

João Carlos Barradas
João Carlos Barradas
17 de outubro de 2026 às 08:00

Trump e o palhaço: ódio e negócios

Negociações com a Casa Branca acabam contingentes da comezinha acrimónia de Trump para com Zelenski, de sua imorredoira ganância e da cobiça de muitos outros.

Muito da política da Casa Branca tem a ver com os ódios e negócios que fermentam na mente de Donald Trump. 

O asco irreprimível por Volodomir Zelenski é manifesto desde o momento em que o recém-eleito presidente ucraniano recusou abrir uma investigação contra o candidato democrata à Casa Branca Joe Biden e seu filho Hunter. 

Em conversa telefónica, em Julho de 2019, o presidente Trump sugeriu a Zelenski, eleito dois meses antes, a abertura de um inquérito sobre alegadas pressões do antigo vice-presidente Joe Biden sobre o Procurador-Geral de Kiiv. 

O vice de Barack Obama teria tentando, em 2016, impedir uma investigação por suspeitas de corrupção da holding energética «Burisma», em cujo conselho de administração ingressara, em 2014, Hunter Biden. 

As pressões de Trump, vindas a público em Setembro de 2019, acabariam por ser invocadas pelo Partido Democrático como uma das razões para a primeira tentativa falhada de destituição do presidente no final do ano. 

Trump guardou desde então memória da recusa de um comediante judeu chegado a chefe de estado de um país em guerra. 

Homem de pouca monta era o ucraniano Zelenski comparado com o russo Vladimir Putin, presidente com quem Trump estabelecera uma relação amistosa desde a primeira cimeira, em Helsínquia, em Julho de 2018.   

Biden foi eleito em Novembro de 2020 e a segunda votação para destituição de Trump por sedição na sequência do assalto ao Capitólio a 6 de Janeiro falhou pouco antes do termo do mandato presidencial do republicano.  

Trump remoeu a derrota – fraude!!!, fraude!!! – e seguiu a sua vida de vício, alcoolismo e drogas desde a adolescência, e dúbios negócios por conta do apelido do pai. 

Joe Biden, por fim, antes de deixar a Casa Branca, renegando declarações anteriores, concedeu um perdão ao filho que escapou a possíveis penas de prisão por condenações por posse ilegal de armas e fuga a impostos. 

No rol de ódios acrescente-se a reacção de Melania Trump às afirmações de Hunter Biden, em entrevista divulgada em Agosto de 2025, de que fora o pedófilo Jeffrey Epstein – alegado comparsa de Donald em tratos obscuros – a apresentar a modelo  ao milionário nova-iorquino. 

Nas biografias correntes, Melania, residente nos Estados Unidos desde 1996, teria sido apresentada a Donald dois anos mais tarde, por intermédio de Paollo Zampolli, dono da agência de modelos da eslovena. 

Donald viria a desposar Melania em terceiras núpcias, em 2005, e, segundo os advogados da Primeira Dama, as declarações de Hunter Biden acerca de comprometedoras relações entre Epstein   – que se suicidou na prisão em 2019 – e o casal presidencial são «falsas, depreciativas, difamatórias e provocatórias». 

Na esfera de negócios basta referir que o Departamento do Tesouro prorrogou esta semana a autorização de transacções financeiras para a multinacional «Lukoil», sedeada em Moscovo, continuar a operar as suas estações gasolineiras fora da Rússia até Abril de 2027. 

A transferência de fundos e activos para a Rússia mantém-se interdita nos termos de sanções impostas em Outubro de 2025. 

O Kremlin, entretanto, tem vindo a discutir com os enviados de Trump – Jared Kushner, genro do presidente, e o empresário Steven Witkoff – uma eventual venda de activos da «Lukoil» no estrangeiro. 

Estão em causa campos de gás, refinarias e redes de estações de serviço, nomeadamente em estados da União Europeia como a Bulgária e Roménia, avaliados em mais de 20 mil milhões de dólares. 

A proposta de compra da «Lukoil» é liderada pelo empresário de Miami Todd Boehly – financiador das campanhas de Trump –, investidores do Qatar e dos Emirados Árabes Unidos e a «US International Development Finance Corporation», agência federal de Washington responsável por investimentos no estrangeiro.  

Negociações com a Casa Branca acabam contingentes da comezinha acrimónia de Trump para com Zelenski, de sua imorredoira ganância e da cobiça de muitos outros. 

Mais crónicas do autor
17 de outubro de 2026 às 08:00

Trump e o palhaço: ódio e negócios

Negociações com a Casa Branca acabam contingentes da comezinha acrimónia de Trump para com Zelenski, de sua imorredoira ganância e da cobiça de muitos outros.

10 de outubro de 2026 às 08:00

Tudo o que os americanos detestam

De Gaulle era senhor de uma visão ampla, por muito equivocada que fosse, das grandes linhas de força da política internacional do seu tempo.

03 de outubro de 2026 às 07:00

Franceses, só mais um esforço

Há, em França, uma mão cheia de razões para o descontentamento de toda a gente.

26 de setembro de 2026 às 08:00

Inteligência artificial desalinhada

À Mega-Inteligência Artificial cabem os atributos de presciência divina paradoxalmente concebida pelo ser humano.

19 de setembro de 2026 às 07:55

A operação eleitoral especial de Putin

A votação permitirá ao Kremlin apurar a eficácia de enquadramento institucional dos órgãos de poder.

Mostrar mais crónicas