Trump: O horizonte é dourado
Ante um Congresso hostil, o servilismo interessado dos próximos do presidente, vai agravar o desvario de Trump, um egotista imprevisível.
O Nobel da Paz, um pacto de partilha do mundo em que chineses e russos reconheçam a primazia dos Estados Unidos, são algumas das obsessões que medram na cabeça de Trump.
Tanto quantos os dourados do Salão Oval, o Salão de Baile da Casa Branca, o Arco do Triunfo em Washington ou os milhões da família, a Trump, agora, só lhe importa a imensidão do seu legado.
Ante um Congresso hostil, o servilismo interessado dos próximos do presidente, vai agravar o desvario de Trump, um egotista imprevisível.
A nomeação de Stephen Miller – assessor de segurança interna, investido na repressão da imigração clandestina – como substituto da chefe de gabinete Susie Wiles, uma das raras pessoas na Casa Branca com capacidade de coordenação e planeamento, é indício de que aí vem.
É de regra que presidente norte-americano no final do segundo mandato, sobretudo quando carece de maioria no Congresso, invista em iniciativas de política externa, área em que dispõe de maior liberdade de manobra.
Bill Clinton após as eleições intercalares de 1994 que levaram a uma maioria republicana no Congresso – a primeira desde 1955 –, empenhou-se na política externa e o melhor que conseguiu foi evitar a ruptura com a Rússia de Boris Ieltsin devido à intervenção da NATO no Kosovo, em 1999.
Ainda que tenha evitado a ignomínia da destituição pelo escândalo Monica Lewinsky, Clinton não salvaguardou uma sucessão a contento e perspectivas razoáveis para o partido.
Al Gore perdeu para George W. Bush, que se viu sugado para o vasto mundo logo no início do primeiro mandato pelos atentados da Al Qaeda de 11 de Setembro de 2001, acabando por sair de cena, em 2009, em plena crise financeira internacional e sem triunfo à vista no Iraque.
Barack Obama viu-se em minoria na Câmara de Representantes e no Senado desde 2015, ano em que apoiou o Acordo de Paris sobre Mudanças Climáticas e o plano de limitação do programa nuclear do Irão, subscrito, igualmente, pela China, Rússia e estados da União Europeia.
Certos erros de análise, muitos compromissos incumpridos, revelam-se, contudo, anos depois, mais gravosos do que acordos globais passíveis de serem revogados por posteriores presidentes ou alterações nas relações de forças e jogos de interesses.
Obama é, por isso, um caso exemplar ao incumprir a advertência de Agosto de 2012 de intervenção militar na Síria se Bashar al Assad usasse armas químicas na guerra civil iniciada com os protestos populares contra o regime de Damasco, em Março de 2011.
Precisamente um ano depois, Bashar al Assad atacou com gás sarin posições rebeldes em Goutha, a sul de Damasco, e Obama escusou-se a recorrer à força militar, alegando um possível voto negativo do Congresso.
As repercussões da decisão repercutiram muito para além dos mandatos de Obama e marcam, desde então, a percepção de aliados e inimigos quanto à real eficácia e valia de proclamações na Casa Branca acerca do uso da força militar.
Pequim e Taipé, Seul e Pyongyang, tomaram de imediato boa nota desta ambiguidade; Putin avançou contra a Ucrânia em 2014.
Se a ameaça de uso da força, ponderada e com objectivos precisos, se esvaiu, ataques militares precipitados, com fitos incertos, obscuros ou megalómanos, como a ofensiva contra o Iraque de George W. Bush em 2003, só geraram, por seu turno, perplexidade.
Vale o mesmo para acordos incoerentes como o assinado entre Trump e os taliban, em Fevereiro de 2020, que culminou na queda de Cabul e na retirada desastrosa do Afeganistão, em Agosto de 2021, às ordens de Joe Biden.
A Trump é, notoriamente, alheia qualquer preocupação sobre as consequências das suas acções e declarações para os candidatos do Partido Republicano, conforme demonstrando por estas eleições intercalares.
No Congresso, a partir de Janeiro, uma evidência vai impor-se aos democratas, ainda em busca de estratégia coerente para responder às ansiedades de eleitores preocupados com o que guerras no Médio Oriente e a corrupção institucional acarretem para o aumento do custo de vida.
Cortes na proposta de 1,5 triliões de dólares no orçamento de defesa de Pete Hegseth – secretário da guerra, putativo responsável pelos fiascos no Irão com a cabeça a prémio – estão desde já em cima da mesa.
A partir de Janeiro, tal como sucedeu em 1973 com a guerra no Vietname, o Congresso vetará o financiamento da guerra contra o Irão, mas está em aberto o que advenha, em função destas expectativas, com a reacção de Teerão, os dilemas de Israel e o impacto sobre o conflito na Ucrânia.
Trump vislumbra um futuro dourado, mas é bem mais provável que venham a predominar tons cinzentos e negros para ele e no que realmente importa.
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