Sábado – Pense por si

Hugo Oliveira
Hugo Oliveira Deputado à Assembleia da República
05 de outubro de 2026 às 08:00

15 minutos de livro para não ser governado pelo algoritmo

Singapura, percebendo que o “scroll” estava a comer o tempo de leitura, decidiu pagar às pessoas para lerem 15 minutos por dia. Sim, ler vale dinheiro. Se lêssemos mais, talvez deixássemos de acreditar que o mundo se resolve com slogans de TikTok, e promessas de “vou resolver tudo em dois minutos”.

Há quem diga que o polegar é o novo cérebro. Desliza para cima, desliza para baixo, e, de repente, já sabemos tudo sobre economia, vacinas, geopolítica e a vida privada de toda a gente, tudo em vídeos de 15 segundos com música dramática.   

Singapura, percebendo que o “scroll” estava a comer o tempo de leitura, decidiu pagar às pessoas para lerem 15 minutos por dia. Sim, ler vale dinheiro. Em Portugal, o Presidente da República já tinha dito que “ler é o melhor antídoto contra a ignorância”. Ou seja, se lêssemos mais, talvez deixássemos de acreditar que o mundo se resolve com slogans de TikTok, e promessas de “vou resolver tudo em dois minutos”. 

A leitura profunda, aquela em que não há like, não há comentário, não há nada, só nós e o texto, treina coisas chatas mas úteis como a concentração, a paciência, o pensamento crítico e a capacidade de perceber que nem tudo cabe num cartaz.  Os estudos sobre literacia não mentem: quando se lê menos, desce o desempenho em áreas que nada têm de “literaturas”, como a matemática e as ciências. 

Ou seja, quem não lê tem mais dificuldade em entender um orçamento, um plano de mobilidade ou um relatório sobre o clima; Confunde “opinião forte” com “argumento sólido” e acha que “medidas simples para problemas complexos” são sinal de génio, e não de preguiça intelectual. 

É exatamente o perfil que o populismo adora recrutar. 

Em Singapura, o Governo lançou uma campanha: lê 15 minutos por dia, regista o tempo numa plataforma oficial e recebe moedas virtuais que depois se transformam em pequenas recompensas.  É basicamente o “passa e vai” da leitura: em vez de comprar cartas, compras minutos de livro. 

As autoridades não escondem a preocupação: as pessoas estão cada vez mais viciadas em conteúdos curtos, a atenção está em frangalhos e o tempo de concentração caiu a pique.  A solução? Pagar para as pessoas lerem. Há quem critique, dizendo que “ler por dinheiro não é ler de verdade”. Mas a mensagem política é clara, o Estado prefere gastar uns trocados a criar leitores do que lidar com uma sociedade que só consegue processar ideias em formato de legenda de Instagram. Em Singapura, já perceberam que, se não houver incentivo, o algoritmo ganha sempre. 

O Presidente da República tem repetido que “ler é o melhor antídoto contra a ignorância” e que “uma nação que lê é mais culta, mais livre e faz melhores escolhas”.  Disse ainda que “uma nação a ler é mais resistente às ventanias do populismo, da desigualdade, da injustiça e do esquecimento”.   

Quem lê tende a desconfiar de quem promete resolver tudo num fim de semana e entende que há problemas que exigem tempo, trade-offs e alguma chatice técnica. 

O populismo, por outro lado, prospera onde a leitura é rara e o espetáculo é abundante. Quanto menos se lê, mais fácil é vender “nós contra eles”, “eles é que estão a roubar tudo” e “eu sozinho resolvo”. 

As redes sociais não são o demónio em si, mas o modelo conteúdos curtos, emocionais, polarizantes é perfeito para o populismo.  Slogans curtos funcionam melhor do que diagnósticos longos; a indignação gera mais engagement do que a nuance; o bode expiatório é mais “partilhável” do que a explicação estrutural.   

No fundo, a questão é que tipo de cidadãos queremos ser? 

Estudos sobre desinformação mostram que, mesmo quando os jovens dizem “eu sei que há perfis falsos”, continuam a reagir de forma defensiva e individual, sem verificar fontes de forma sistemática. 

Num mundo em que o algoritmo recompensa o extremo, a leitura profunda é como ir ao ginásio num domingo de manhã, ninguém vê, mas fortalece os músculos que vão aguentar o resto da semana. 

A leitura não é uma vacina mágica, mas é um dos melhores “antídotos” que temos pois alarga o tempo (lê-se sobre o passado, pensa-se no futuro), complica o presente (bons livros raramente dão certezas absolutas) e humaniza o outro (a literatura obriga-nos a viver outras vidas, mesmo que só na cabeça). 

Como disse o Presidente, “uma nação que lê promove a inteligência humana e não fica passivamente à espera dos benefícios e facilidades da inteligência artificial”.  Num mundo de algoritmos que nos dizem o que queremos ouvir, ler é uma forma de recuperar a capacidade de escolher o que queremos pensar. 

A iniciativa de Singapura pode parecer exagerada, pagar para ler, mas aponta para uma direção sensata, tratar a leitura como política pública, não como “coisa de quem gosta”. 

O Presidente já pediu “um novo impulso nas políticas de educação para a leitura”, lembrando que, passados 40 anos da Rede de Leitura Pública, os resultados do PISA não permitem grandes festejos.  Não é obrigar ninguém a ler Eça ao pequeno-almoço. É criar condições para que ler seja uma opção real, e não um castigo escolar. 

Ouso assim sugerir assim algumas pistas para reflexão.  

Primeiro, nas escolas criar mais clubes de leitura onde se possa discutir, discordar e até “brincar” com os livros, mas lendo-os primeiro. Mas também nas autarquias pensar em bibliotecas que não sejam só depósitos de livros, mas espaços de encontro, debate, leitura guiada, com horários que façam sentido para quem trabalha. E nos media e redes, mais entrevistas longas, mais crítica, menos “titularite aguda” e menos “isto vai mudar tudo” a cada nova medida. Imaginem no trabalho e na administração clubes de leitura sobre democracia, história, políticas públicas, isto porque também se governa melhor quando se lê o que outros já pensaram. 

No mesmo registo de ousadia, exorto-vos a fazerem o seguinte exercício, nas vossas permanências matinais na casa de banho experimentem a trocar o scroll pela leitura de quatro ou cinco páginas de um livro e no final do mês verifiquem se já estão a terminar a leitura do mesmo. No passado nas casas de banho era habitual encontrar-mos revistas, que mais tarde foram trocadas pelo digital. Voltemos ao analógico com a liberdade de aproveitar para ler um bom livro.  

Cada português que trocar 15 minutos de “scroll” por 15 minutos de livro estará, modestamente, a capacitar-se para entender melhor o mundo, reforçar sua resistência à manipulação e ao simplismo, e contribuir para uma cultura pública mais exigente e menos vulnerável ao populismo.  Como resume o apelo do Presidente: “Leiam, leiam, leiam”, porque “uma nação que lê sabe escolher melhor”.  E, sim, talvez um dia o Estado pague para lermos. Mas, até lá, podemos começar por não deixar que o algoritmo leia por nós. 

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