Sábado – Pense por si

Gonçalo Levy Cordeiro
Gonçalo Levy Cordeiro Dirigente da IL
18 de setembro de 2026 às 08:53

Quem quer vestir Sydney Sweeney?

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Edição de 15 a 21 de setembro

Acusações como “esta campanha fez os direitos das mulheres recuar cem anos”, são tão estapafúrdias que eu questiono-me se o ensino de História falhou de forma tão clamorosa como a frase indica.

A realidade supera a ficção. Num mundo em guerra, com combustíveis a caminharem para os 2,5€ por litro ao ritmo de sete cêntimos por semana, onde as pessoas não conseguem pagar as contas, a elite bem-pensante mundial – onde se inclui o nosso pequeno burgo, claro está – escolheu como tema semanal (com direito a debates televisivos) um problema cuja resolução corrigirá, certamente, todos os males do mundo: Sydney Sweeney. A julgar pelas mensagens que me foram enviadas a pedir encarecidamente que comentasse o tema (já agora, por favor, parem com isso), a mais recente campanha da famosa actriz para a empresa de apostas da qual é accionista – a Novig – causou mais celeuma do qualquer crime contra a humanidade perpetrado por qualquer ditadura do mundo. Várias pessoas afectas à esquerda radical viram mais problemas nesta campanha do que em qualquer bombardeamento perpetrado pela Rússia em Kiev. Assim, a pedido de muitas famílias, aqui verto as minhas ideias sobre um tema que, sob qualquer prisma deveria ser irrelevante, não fosse tão útil em expor a indigência intelectual dos ditos intelectuais. 

Do alto da sua ilógica, o feminismo moderno militante saiu de 2026 e transportou-se para 1926, altura em que o anúncio ousado de Sweeney teria dado direito a prisão. De repente, as mulheres do “my body, my choice” passaram para o “her body, our choice”, porque se arrogam o direito de dizer o que Sweeney deve ou não fazer com o seu corpo. Concluímos, por isso, que é mais fácil ver uma feminista moderna numa manifestação no Chiado pelo direito ao uso da burca do que a defender o direito de Sweeney posar, exibindo os seus atributos físicos para ganhar a vida. Décadas de luta pela emancipação sexual feminina foram destroçadas por uma loira em trajes reduzidos. As mesmas feministas que vêem no OnlyFans uma plataforma de “empowerment feminino”, querem tapar esta pobre (de espírito) americana que, coitada, não sabe o que é melhor para si. Sórdido. 

A verdade é que me comovo ao ver a forma como a mais recente onda da esquerda identitária se comporta de forma muito próxima da Gasht-e-Ershad, a polícia da moralidade iraniana. Acusações como “esta campanha fez os direitos das mulheres recuar cem anos”, são tão estapafúrdias que eu questiono-me se o ensino de História falhou de forma tão clamorosa como a frase indica. Como é que eu hei-de explicar? Há cem anos, em boa parte do mundo ocidental, as mulheres nem podiam votar, quanto mais ousar sequer imaginar posar em frente a câmaras com pele à mostra para além do tornozelo, onde findavam as mui longas saias cintadas. 

Outros, como não sabiam exactamente com que se indignar, justificaram o seu desdém para com a atriz, explicando que ela não representa o desporto feminino. Ora, quero aqui, em primeira mão, dizer que estou em condições de falar pelo senso comum mundial quando digo que ninguém achou que esse fosse o seu objectivo. Não é por Sweeney ter um taco na mão que representa o desporto feminino, da mesma forma que eu não represento os pilotos de aviação se me tirarem uma fotografia num cockpit. As análises rocambolescas de quem quer politizar todos os cantos da nossa vida seriam trágicas se não fossem tão cómicas. Não há nada de político no anúncio. Há tudo de primário: a indústria das apostas desportivas é alimentada por homens. Como tal, puseram uma mulher bonita a chamar a atenção. Ponto final. Não é preciso ter nenhum PhD em Ciência Política para perceber isto. Basta ter noções básicas de biologia. Esqueço-me que isso é difícil de pedir às pessoas que negam haver diferenças biológicas entre homens e mulheres. Já sobre as acusações de sexualização do desporto, apraz-me dizer que, quando ainda Sydney Sweeney não era nascida, a Sports Illustrated já se ria dessa acusação. 

Sweeney já tinha destroçado a amoralidade vigente quando fez a campanha da American Eagle, “Sydney Sweeney has great jeans”, aproveitando-se da sua imagem com calças vestidas e do facto de “calças-de-ganga” e “genes” serem palavras homófonas na sua língua materna, numa campanha que correu o mundo pela incapacidade moderna de não nos conseguirmos rir – ou simplesmente ignorar – uma piada óbvia. Com isto, ela conseguiu o ódio das “mulheres que sabem o que é melhor para as mulheres” e dos homens a que a estas sucumbem por motivos tão primários como os do anúncio da Novig. Choveram acusações de querer promover a “supremacia branca” e até mesmo a “eugenia”, algo tão risível quanto imbecil… Ou, se calhar, risível porque é imbecil. Assim é que é. 

Para esta elite bem-pensante, polícia religiosa do seu Estado pagão sem fronteiras, dotada da virtude e da moral dos amanhãs que cantam, Jerry Seinfeld tem de ser cancelado, porque, como é pró-Israel, “é um genocida”, apesar nunca ter matado ninguém. A mulher que virou ícone mundial em Euphoria da HBO tem de ser cancelada, porque é, ela própria, um retrocesso civilizacional. As trabalhadoras da Torre Eiffel que foram obrigadas a esconder-se da comunidade hindu que quis ir visitar a dita cuja torre na semana passada, coitadas, é que ainda estão à espera de uma defesa dos feministas modernos. Andam tão preocupados com a linguagem inclusiva e em aceitar todas as culturas, que ignoram a discriminação sexual contra as mulheres em nome do obscurantismo religioso. Só Macklemore, corrido dos concertos de Ed Sheeran pela sua defesa pró-Palestina, mereceu qualquer tipo de defesa desta gente que não duraria 24 horas viva na mesma Palestina. 

Já eu, liberal convicto me confesso, não quero que cancelem ninguém: nem Sweeney, nem Seinfeld, nem Macklemore, por mais que discorde deste último. A liberdade não existe apenas para quem diz as coisas “certas” e subscreve as causas “certas”. Se precisa de autorização prévia da patrulha moral, chama-se outra coisa. E talvez seja isso que verdadeiramente incomode alguns em Sydney Sweeney: ela não pediu licença. Não pediu licença para ser quem é, para explorar comercialmente a própria imagem ou para ignorar a cartilha de quem decidiu que a emancipação feminina só é válida quando produz mulheres ideologicamente aprovadas pelo Comité Central. 

Durante décadas disseram-nos que libertar a mulher era permitir-lhe escolher. Agora descobrimos a nota de rodapé: pode escolher — “desde que escolha bem”. Sydney Sweeney fez um anúncio. Não aboliu o sufrágio feminino, não fechou universidades a mulheres, não instituiu a burca e, tanto quanto sabemos, não declarou guerra a ninguém. Hoje, tem mais ódio destilado contra si do que o Hamas. O progressismo lutou décadas para que as mulheres pudessem vestir menos roupa. Agora luta para que ponham roupa. 

E foi quanto bastou para se tornar o bode expiatório de uma cultura que já não sabe distinguir opressão de mau gosto, violência de publicidade ou misoginia de uma mulher fazer exactamente aquilo que lhe apetece com o próprio corpo. 

No fundo, a grande heresia de Sydney Sweeney não foi mostrar demasiado. Foi não obedecer o suficiente. 

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