Colonialismo e Alegria para Todos (ah, e amor)
Francisco Sousa Mestrado em Biotecnologia, Produtor Musical
05 de dezembro de 2016

Colonialismo e Alegria para Todos (ah, e amor)

O presidente do clube de fãs de Margaret Thatcher François Fillon, é o ponta-de-lança da direita para enfrentar Le Pen nas presidenciais

O presidente do clube de fãs de Margaret Thatcher François Fillon, é o ponta-de-lança da direita para enfrentar Le Pen nas presidenciais (a esquerda, mesmo não tendo Hollande a atrapalhar, é tão pobre que mete medo). O colunista Henrique Raposo escreveu no Expresso a 21 de Novembro num artigo intitulado "Fillon, a melhor notícia do ano" que (entre outras coisas), "Fillon é um boa noticia porque é um patriota e um católico". O Larápio aplaude de pé, toca piano e cita Camões.

Entre várias coisas muito interessantes, o Sr. Melhor-notícia-do-ano (Fillon, claro) já tinha dito em Agosto, a propósito da colonização francesa, que os franceses "não são culpados de ter partilhado culturas em África, Ásia e América do Norte", numa demonstração de orgulho pelo passado glorioso. Devo dizer com emoção que o aluno superou a mentora. Não precisa de voltar atrás, leitor. A palavra escolhida foi mesmo "partilhar". A mesma que se usa para descrever a partilha de uma garrafa de vinho, de uma ideia ou de uma nota de 20. Antes de mais e antes que a conversa azede, agradecimentos a Fillon por ter desenterrado um bicho que, pensava eu, já estava enterrado desde o princípio do pensamento pós-colonial nos anos 50. Vivemos um tempo de revivalismo.

Quando a história é desagradável ou inconveniente de discutir, até agora só havia uma hipótese: criar ruído e evitá-la ao máximo. Trump, Le Pen e Petry são mestres no assunto. Fala-se de tudo menos do tema que pede de joelhos para ser discutido. Mas François inventou um novo método de lidar com estes assuntos: Ver só o lado poético da vida. Enquanto o passado e o presente lhe mordem os calcanhares, o belo e penteado François prefere ler poetas românticos, ver filmes parisienses da nouvelle vague, mandar entregar flores ao escritório da mulher, e passear na praia com o cão de raça. Sim, leitor! A estratégia é esta: Sorri-se sempre, mesmo quando se olha para o lado e se vê um cadáver decrépito a olhar para o infinito.

As trocas culturais de que Fillon fala são variadas e belas. Vejamos: O assassínio de mais de 6000 vietnamitas em Haiphong em 1946, os 200 argelinos mortos em Paris (onde?) em Outubro de 1961, o milhão e meio de mortos na Argélia. Mas antes houve o Massacre do Haiti em 1804.

Não percebem? Não faz mal. Henri Christophe, escravo convertido em líder da revolução Haitiana, escreveu isto a propósito do tratamento dos escravos em Santo Domingo, Haiti:

"Não enforcaram eles homens de cabeça para baixo, não os afogaram em sacos nem os crucificaram em tábuas de madeira, não os enterraram vivos, não os obrigaram a comer o próprio excremento? (...)"

Só pode estar a mentir. Trocas culturais, amigo. Ou então trocas radicais de amor, como diria Assunção Cristas de beicinho tremido. Por alguma razão Napoleão proibiu as relações interraciais. O amor verdadeiro, afinal, deixa sempre feridas.

Fillon quer falar. O Larápio sente-se honrado e estende-lhe a mão. "Faça o favor, Doutor". Diz ele: "A França não inventou a escravatura". O Larápio enfada-se. E isso significa o quê? Porque está a tentar escapar à pergunta? Os alemães teriam sido ilibados se as câmaras de gás tivessem patentes inglesas?

Pergunto eu: Que é isto senão populismo? Neste episódio, que é Fillon que não um Trump mais discreto e sem poupa amarela? Que mais demagógico se pode ser que negar as atrocidades provadas do passado, sugerir que tudo foi positivo, e ainda querer dar uma versão mentirosa a quem sabe o que se passou? Em que é esta omissão mais aceitável do que a da propaganda nazi estudada nos cursos da Sciences Po? Sabendo que o colonialismo não foi única e exclusivamente exploração, há dúvidas de que foi essa a sua razão de existir? Que sentiram os cidadãos das ex-colónias e suas famílias, que combateram em guerras de libertação e cujos avós foram escravos ao ouvir tamanha estupidez? Que direito, por muito arrumadinho que seja, tem Fillon de negar factos da história? O seu eleitorado, tendo-o aplaudido, concorda que não houve atrocidades? Haverá outra hipótese de avanço senão o diálogo sobre o que realmente se passou? Se não queremos que a história se repita, há outra alternativa senão mostrar a todos os erros cometidos? Mais: Há dúvidas de que a razão pela qual a extrema-direita em Portugal não existe é porque somos uma nação que ainda tem a memória da ditadura muito perto? Não significa isso que a única forma de evitar regredir é manter a memória viva?

O Larápio não exagera, leitor. É suficientemente grave que Estados cometam atrocidades em terras ocupadas. Se para além de as cometer depois as nega, é meio caminho andado para que os massacres continuem. Se forem escondidos, tudo bem.
Quando a única coisa que há a fazer pelas gerações pós-coloniais é falar sobre o passado e tentar entender como foi ele possível, negá-lo é uma alucinação cobarde, conveniente, inaceitável e, mais que tudo, irresponsável porque retira responsabilidade a quem a deveria ter, abrindo a porta a gerações ignorantes que, sem saber o que foi viver uma guerra com 60 milhões de mortos nem o que foi carregar a "caderneta do indígena" pendurada ao peito nem mesmo o que foi ser torturado na prisão durante anos, se ergue agora, de smartphone no bolso e tatuagens do Gengis Khan, rumo ao "sonho da supremacia branca". Visto que os políticos que não são de extrema direita são incapazes de transmitir argumentos, ao menos que não neguem o que foi a história. Se não conseguem exercer a simples verdade dos factos perante o julgamento popular, provam que não conseguem fazer rigorosamente nada.
Até p'rá semana.

P.S. Não pense o leitor que o colonialismo português foi melhor. Um dia lá chegaremos.

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