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Eurico Reis Juiz Desembargador Jubilado
29.03.2026

Asco e desprezo

Sim, Trump é um palhaço e um palhaço egoísta, megalómano e irresponsável, mas, acima de tudo isso, é um palhaço assassino.

Desculpem a nítida agressividade do texto de hoje, mas as coisas em Portugal e no Mundo estão a tornar-se absolutamente insuportáveis.

E muito preocupantes.

Como já referi várias vezes, temo pelo futuro dos meus netos, muito em especial das minhas duas netas, dada a contra-revolução cultural que, há já mais de uma década, está em curso por todo o lado e cujas primeiras vítimas, em pleno pé de igualdade, são as mulheres e os trabalhadores, sejam os que trabalham por conta de outrem, sejam aqueles que, aparentemente (e só aparentemente) trabalham por conta própria.

O caso dos motoristas de TVDE é um exemplo notório (mas não único) de como é ilusória a “independência” desses trabalhadores.

Contudo, aquilo que já não consigo suportar é o pseudo silêncio da direcção do PSD de Luís Montenegro acerca da confirmação do acordo estratégico e já não pontual, com o Chega que foi anunciado por André Ventura, silêncio esse que soa a confirmação, mas sobretudo, pelas suas profundas e nefastas consequências para todos os povos do Mundo, as múltiplas aparições de Donald Trump nos órgãos de comunicação social, em especial nas televisões.

Só a postura dele, divertidíssimo e totalmente despreocupado com as consequências das suas palavras e dos seus actos, me dá nojo.

Sim, Trump é um palhaço e um palhaço egoísta, megalómano e irresponsável, mas, acima de tudo isso, é um palhaço assassino.

Sem dúvida que não é o único (pensemos no genocida Netanyahu e nos seus comparsas, igualmente genocidas, nos dirigentes do Irão e em Putin, para citar só alguns), mas é o mais poderoso deles todos, logo o mais perigoso.

E, para além disso, ninguém me tira da ideia de que, sendo certo que há gente (não muita, mas alguma) que está a ganhar fortunas com as actuais constantes e rápidas flutuações que acontecem nos vários mercados (que não apenas os dos combustíveis), Trump é uma dessas pessoas.

Reparem que essas flutuações nos mercados decorrem sobremaneira das declarações de Trump e só depois das respostas dos dirigentes do Irão.

Não é uma certeza, porque não tenho meios para a provar, mas é uma suspeita muito forte.

Trump já mostrou que é capaz de tudo, até de promover um golpe de Estado no seu próprio país e de estar a tentar impedir - ou pelo menos manipular – as eleições federais chamadas intercalares que estão marcadas nos EUA para o próximo dia 3 de novembro.

Ou de ir raptar o presidente da República de um país soberano (por mais execrável que essa pessoa – Nicolás Maduro – possa ser e de facto é) ou de estar a estrangular a economia de Cuba, condenando a população dessa ilha à fome e à miséria.

E estes são apenas alguns exemplos da torpeza desse repulsivo (e até obsceno) ditador.

E, enquanto isso, a economia mundial vai-se afundando e talvez fosse bom que alguém se começasse a preocupar com a possibilidade já não apenas de estar a aumentar, de uma forma exponencial e cada vez mais rápida, o número de pessoas que vive abaixo do limiar da pobreza, mas também de poder vir a acontecer em breve uma crise alimentar.

Crise alimentar que irá afectar não apenas os países e povos “do costume”, mas também os mais ricos.

Já olharam bem para o que está a acontecer com os fertilizantes artificiais que são o motor das agriculturas nacionais? Por favor, vão pensando nisso enquanto ainda há tempo.

Mas não é isso que ocupa os pensamentos medíocres dos cobardes, subservientes (a Trump e aos interesses egoístas dos EUA) e hipócritas dirigentes europeus, quer em termos da UE, quer a nível dos seus Estados Membros.

E é por isso que só posso sentir um profundo desprezo por toda essa gente.

Tal como sinto por Luís Montenegro e pelos demais membros da direcção do seu PSD.

Voltando ao princípio deste texto, estou profundamente convicto que a bravata do racista, xenófobo e fascista André Ventura não é mais uma das suas mentiras, e este silêncio de Luís Montenegro e dos demais membros da direcção do seu PSD tem como única finalidade levar os portugueses e as portuguesas a considerar que concretizar um acordo estratégico de governação e partilha do poder com o Chega é uma coisa natural e perfeitamente aceitável.

Ou, pelo menos, a conformarem-se com essa situação, oque lhes permitirá avançar para a concretização de uma revisão constitucional anti-constitucional, isto é, que irá violar os limites materiais fixados no texto actual dessa Lei Maior.

Vamos ver o que irá fazer, nesse caso, o Presidente da República António José Seguro, o qual, aliás, tem já pela frente uma encruzilhada assaz importante e relevante para a definição da estrutura funcional não apenas do Estado, mas de todo o tecido comunitário.

Refiro-me à Lei parlamentar (e para lamentar) que revogou a muito equilibrada legislação aprovada em 2018 (Lei n.º 38/2018, 07 de agosto, para quem a quiser ir ler) acerca do direito à autodeterminação em questões da identidade de género.

Será que António José Seguro vai ratificar essa Lei parlamentar? Ou será que a vai vetar? Ou será que a envia ao Tribunal Constitucional para apreciação prévia da sua constitucionalidade?

Uma coisa é certa: o grau de tolerância para com o incumprimento das promessas eleitorais é cada vez menor.

O que, em boa verdade, é algo de bom.

Só é pena que sejam desalmados sem-vergonha, que de pessoas de bem nada têm, que estão a beneficiar desse descontentamento popular.

Eu sei que todos os seres humanos nascem selvagens, egoístas, e tendencialmente irracionais.

Mas creio que já basta de tanta irracionalidade.

O Chega é um partido racista, xenófobo e fascista e já mostrou que não tem alternativas que permitam uma governação estável, muito menos uma boa governação, do país.

É certo que é gritante a falta de alternativas, mas esta aliança estratégica do PSD (o CDS, fora das Regiões Autónomas, não existe), mas este caminho irá necessariamente conduzir ao desastre.

Resistir é preciso. Porque viver (e não apenas navegar) também é preciso.

Por nós, pelos nossos filhos e pelas nossas filhas e pelos filhas e filhos dos nossos filhos e das nossas filhas.

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