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O que aconteceu nos EUA com as nomeações de juízes para o Supremo Tribunal Federal feitas por Trump e “carimbadas” pela sua maioria MAGA no Senado, deveria ser um sinal de alerta mais do que suficiente para os perigos que decorrem de um acordo com um partido xenófobo, racista e fascista como é o Chega.
Como a Cultura passou a ser, para aqueles que, a vários níveis da estrutura política do país, desgovernam Portugal, uma coisa “técnica” sem importância, desprezível e completamente desnecessária, muito provavelmente o título deste escrito será uma bizarria.
Isto é, mais uma das minhas bizarrias.
Aliás, o mesmo se passa com o estudo da História (e das histórias) da Humanidade e com a preservação da Memória (e das memórias) acerca dos acontecimentos ocorridos no passado.
Em termos históricos, a menção aos “Idos de Março” - uma divisão temporal do calendário vigente na Roma Antiga - refere-se ao assassinato de Júlio César no ano de 44 aC, sendo que, segundo afirmam os historiadores da época, um adivinho havia avisado este último para se precaver porque algo de mau lhe iria acontecer nessa altura.
E aconteceu mesmo, pois esse líder político e militar foi esfaqueado até à morte em plena reunião do Senado, numa conspiração na qual estiveram envolvidas cerca de 60 pessoas politicamente conservadoras, lideradas pelo senador Cassius e pelo seu cunhado Brutus, igualmente senador e cuja mãe era amante de César à data do seu nascimento.
Culturalmente, a expressão ficou imortalizada na peça de William Shakespeare cujo título original em inglês é “The Tragedie of Julius Caesar”, na qual está escrita a célebre frase em latim “Et tu, Brute?” - Até tu, Brutus? -, que passou a ser comumente utilizada para significar a inesperada traição de um amigo ou pessoa muito próxima da vítima.
As consequências dessa traição foram exactamente as opostas às pretendidas pelos conspiradores (que tiveram mortes muito pouco dignificantes) já que desse acto e da guerra civil que se lhe seguiu acabou por resultar o fim da República Romana e a coroação em 27 aC do primeiro Imperador Romano, de seu nome Octávio ou Octaviano (Gaius Octavianus), que tomou o nome de Augusto e o título de Cesar, reivindicando para si o legado político do homem assassinado em 44 aC.
Esta já longa viagem ao passado serve para ilustrar o que tem acontecido em Portugal durante todo este mês de março de 2026, que, bem pode afirmar-se, em termos políticos, se iniciou com a tomada de posse do novo Presidente da República no dia 9 deste mês.
Ao contrário do que poderia ser considerado espectável dada a dimensão da vitória de António José Seguro sobre André Ventura e da conjugação de votos que o novo Presidente conseguiu reunir em torno de si e do seu programa eleitoral, o governo de Luís Montenegro e a minoria que o apoia no Parlamento não inverteram a aliança tácita, cada vez mais indesmentível, que começaram a manter com o Chega.
Persistiu a paulatina destruição do SNS (Serviço Nacional de Saúde público e não um sistema assente na ideia propagandística e mistificadora de que o que interessa é que os doentes sejam atendidos e não se o são num hospital público, sendo que é sempre o dinheiro dos contribuintes que custeia as despesas), continuou campanha pela eliminação dos direitos sociais dos trabalhadores (o dito pacote laboral), e não foram renovadas as comissões de serviço de agentes culturais, nomeadamente o director de um teatro (o Teatro do Bairro Alto) e a directora de um museu muito relevante para a preservação da Memória do combate pela Liberdade (Museu do Aljube).
Que fique claro: não quero pôr em causa a competência das pessoas que vão substituir esses directores não reconduzidos, mas questiono o momento das escolhas e, acima de tudo, a absoluta ausência de justificação para as mesmas, especialmente quando tanto e tão globalmente tem sido reconhecido o mérito do trabalho desenvolvido por essas pessoas agora afastadas.
O que se percepciona é que essas alterações foram motivadas por críticas apresentadas contra essas pessoas por representantes do Chega.
E é essa falta de clareza e de transparência que suscita as maiores dúvidas e que acaba por ensombrar e dificultar (espero que não) o trabalho dos que vão passar a dirigir esse teatro e esse museu. O que é algo profundamente lamentável.
Como se tudo isso não fosse já suficiente - ou, para ser mais exacto, suficientemente mau -, depois de, com o apoio do Chega e com uma inaudita imposição no PSD da disciplina de voto em matérias de consciência, ter sido revogada a legislação relativa às questões de identidade de género, desenha-se uma nova concretização do abandono da retórica do “não é não” por parte de Luís Montenegro e da minoria que no Parlamento apoia o seu governo, com a e à aprovação dos nomes de pessoas que irão ocupar os lugares de representação da AR em diversos organismos externos a essa Assembleia.
E isso é particularmente grave no que respeita ao Tribunal Constitucional.
O que aconteceu nos EUA com as nomeações de juízes para o Supremo Tribunal Federal feitas por Trump e “carimbadas” pela sua maioria MAGA no Senado, deveria ser um sinal de alerta mais do que suficiente para os perigos que decorrem de um acordo com um partido xenófobo, racista e fascista como é o Chega, que manifesta abertamente o seu desprezo pela Constituição da República e a sua inequívoca e indesmentível vontade de proceder a uma revisão constitucional violadora dos limites materiais estabelecidos no artigo 288º dessa Lei Maior.
Parafraseando Sérgio Godinho, os pergaminhos democráticos da Direita clássica foram escritos em papel molhado.
Eu conheço muitas pessoas de Direita que se sentem horrorizadas com este progressivo deslizar ideológico e prático do PSD para o campo da extrema-direita antidemocrática, racista, xenófoba e intolerante, mas entristeço-me com o seu silêncio, que lamento, porque já raia a cumplicidade.
Será que essas pessoas vão mesmo curvar-se perante esta onda revanchista que quer fazer Portugal retroceder aos tempos iníquos do Estado Novo?
Contudo, infelizmente, nada disto me espanta porque idêntica postura colaboracionista está a ser assumida pelas lideranças europeias face aos crimes de guerra cometidos pelos EUA e por Israel, que, ao contrário do que acontece com os praticados pela Federação Russa e com as violentas e constantes violações dos direitos humanos perpetrados pelos governantes do Irão, escapam incólumes a qualquer crítica.
Tal como não me espanto com as verdadeiras canalhices de conhecidos comentadeiros e comentadeiras que insistem que o PS tem a obrigação de se juntar a esse acordo entre a AD e o Chega.
Então e a vontade popular daqueles e daquelas que votaram no PS (e nos outros partidos à sua esquerda) e, de igual modo, no actual Presidente da República exactamente porque querem preservar o sistema político consagrado na Constituição da República?
Para além de estar a pôr em perigo a subsistência Democracia e o Estado de Direito, que se encontram já tão enfraquecidos, se aceitarem participar num tal acordo, os dirigentes do PS estarão a trair claramente a vontade dos portugueses e das portuguesas que votaram nesse partido nas últimas eleições parlamentares.
Por mais fortes que sejam as pressões que sobre eles possam ser exercidas, para bem de todos nós e do interesse nacional do país, espero bem que não o façam.
Para que a ninguém seja possível dizer ou escrever “Et tu, PS?”.
Que cada um assuma as suas responsabilidades.
Para que seja claramente visível quem está pela Democracia, pelo Estado de Direito e pela preservação dos direitos humanos, e quem está contra essas conquistas civilizacionais.
O que aconteceu nos EUA com as nomeações de juízes para o Supremo Tribunal Federal feitas por Trump e “carimbadas” pela sua maioria MAGA no Senado, deveria ser um sinal de alerta mais do que suficiente para os perigos que decorrem de um acordo com um partido xenófobo, racista e fascista como é o Chega.
Seria de esperar que a esmagadora votação no actual Presidente da República tivesse levado Luís Montenegro a perceber que a sua aliança tácita com o Chega era um caminho repudiado por uma enorme maioria dos portugueses e portuguesas que votaram nessa eleição.
Talvez seja uma vã ilusão, mas tenho a secreta esperança de que a “próxima vítima” nas Américas, ou seja, Cuba, não se irá comportar de forma tão vergonhosa.
É absolutamente vital não deixar permitir por mais tempo a destruição do Estado Social e a deterioração do nível de vida dos portugueses e das portuguesas que é tão propício ao ressurgimento do novo D. Sebastião, ou seja, o verdadeiro herói e líder das Direitas, Pedro Passos Coelho.
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