A IA venceu os melhores revisores científicos. E agora?
A Newsletter Na Revista no seu e-mail
Conheça em primeira mão os destaques da revista que irá sair em banca.
(Enviada semanalmente)
Quando todos os investigadores recorrem a ferramentas semelhantes para gerar ideias e corrigir textos, a ciência tende a convergir para o convencional, o consensual, o previsível. A IA torna cada um de nós melhor individualmente, mas pode tornar o conjunto mais pobre.
Há uma verdade incómoda que qualquer investigador conhece e poucos admitem em público: a revisão por pares, o alicerce sobre o qual assenta a credibilidade da ciência, funciona muito pior do que gostaríamos. Revisores que leem até à página três à procura de um pretexto para rejeitar, que exigem citações dos próprios trabalhos ou que levam meses a responder com meia dúzia de linhas são figuras familiares a quem publica. Durante décadas aceitámos isto como o preço inevitável de um sistema imperfeito mas insubstituível.
Um estudo agora divulgado por Gary King e Steven Worthington, da Universidade de Harvard, põe em causa a segunda parte dessa frase. Os autores compararam 134 revisões humanas de 124 artigos com revisões geradas por inteligência artificial. Não eram revisões quaisquer: foram escritas por especialistas cuidadosamente escolhidos, bem pagos e instruídos para serem construtivos. Antigos editores de revistas de topo consideraram-nas das melhores que alguma vez tinham visto. Era, por assim dizer, a seleção nacional da revisão científica.
Perdeu. A IA ganhou em todas as comparações quando avaliada por outro modelo de IA, de uma empresa concorrente. Também ganhou em 87% dos casos quando avaliada às cegas por antigos editores humanos, que não sabiam o que estavam a comparar. E errou menos: cerca de 5,5% das afirmações das revisões automáticas sobre os manuscritos estavam incorretas, contra quase 16% nas humanas. Não houve uma única referência inventada.
Convém ler estes números com a cautela que o próprio estudo recomenda. A avaliação humana assentou em apenas dez pares de revisões. Grande parte do veredicto foi entregue a uma máquina. E os autores não mediram se os artigos ficaram efetivamente melhores depois de revistos. Ainda assim, mesmo descontando tudo isto, a conclusão é difícil de contornar: para ajudar um autor a melhorar um texto, a máquina já é, no mínimo, uma concorrente séria do melhor que temos.
O problema é que a revisão por pares não serve apenas para melhorar artigos. Serve também para decidir o que merece ser publicado, ou seja, o que a comunidade científica reconhece como conhecimento. E aqui o estudo levanta um alerta que me parece o mais importante de todos. Quando todos os investigadores recorrem a ferramentas semelhantes para gerar ideias e corrigir textos, a ciência tende a convergir para o convencional, o consensual, o previsível. A IA torna cada um de nós melhor individualmente, mas pode tornar o conjunto mais pobre. A discordância caótica entre revisores humanos, tantas vezes exasperante, é também uma forma de diversidade.
Há ainda um risco mais prosaico. Se as revistas publicarem o "prompt" oficial com que avaliam os artigos, os autores passarão a escrever para agradar ao algoritmo, e não para fazer boa ciência. Já vimos este filme com os rankings e os indicadores bibliométricos.
Fingir que nada mudou também não é solução. Um inquérito numa das maiores conferências de aprendizagem automática revelou que mais de um em cada cinco revisores proibidos de usar IA a usou na mesma. A IA já está dentro do sistema; a questão é se entra pela porta da frente, com regras, ou pela janela.
O caminho sensato parece-me o que os próprios autores sugerem. Os autores devem usar a IA para limpar os erros, as fragilidades metodológicas e as falhas de argumentação antes de submeter. As revistas devem exigir transparência sobre esse uso e respostas fundamentadas às críticas da máquina. A decisão final sobre o que é relevante, original e digno de publicação deve continuar nas mãos de editores humanos, com nome, responsabilidade e prestação de contas.
A máquina pode ser o melhor revisor que já tivemos. Mas a ciência não pode abdicar de decidir, ela própria, o que considera verdadeiro e importante.
A IA venceu os melhores revisores científicos. E agora?
Quando todos os investigadores recorrem a ferramentas semelhantes para gerar ideias e corrigir textos, a ciência tende a convergir para o convencional, o consensual, o previsível. A IA torna cada um de nós melhor individualmente, mas pode tornar o conjunto mais pobre.
Um país que gasta fortunas a formar mestres e doutores e depois lhes diz, nos seus próprios concursos, que esse esforço vale meio valor está a mandar uma mensagem clara a quem pensa em estudar mais.
A aposta na inovação é a certa. Mas a inovação não é o contrário da ciência: é a ciência a chegar ao mundo. Uma lei que o compreenda plenamente pode ser a reforma de que o país precisa há anos.
O Estatuto do Pessoal Dirigente deixa aos júris ampla liberdade para fixar métodos e ponderações, e com essa liberdade constrói-se um concurso cujo desfecho parece conhecido antes de abrir. Chama-se concurso, mas funciona como uma nomeação com outro nome. É essa a falsidade.
Anos de formação académica, experiência comprovada e competências técnicas podem ser anulados numa conversa de meia hora, pontuada por quem bem entende.
Para poder adicionar esta notícia aos seus favoritos deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.
Para poder votar newste inquérito deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.