Sábado – Pense por si

PASSATEMPOS

Descubra os novos desafios da SÁBADO

JOGAR

Luto migratório: a tragédia invisível que não cabe nas estatísticas

As mais lidas

Enquanto a Europa debate fronteiras e imigração, especialistas alertam para uma realidade menos visível: as perdas sucessivas vividas por muitos migrantes podem deixar marcas profundas na saúde mental, muito para além da travessia.

As dezenas de milhares de migrantes que, nas últimas semanas, tentaram ultrapassar as fronteiras de Ceuta reacenderam um debate que rapidamente se dividiu entre segurança, controlo fronteiriço e imigração. Há, no entanto, uma dimensão que vai ficando para segundo plano, do ponto de vista de quem está mais distante, fisicamente e emocionalmente: o impacto psicológico da perda entre quem abandona o seu país, atravessa rotas perigosas e vê familiares, amigos ou companheiros de viagem desaparecerem pelo caminho.

No caso dos migrantes as perdas tendem a acumular-se
No caso dos migrantes as perdas tendem a acumular-se AP Photo/Antonio Sempere

O alerta foi dado pela Sociedade Portuguesa de Terapia Focada nas Emoções (SPTFE) que este ano ajuda a organizar a European Grief Conference (Conferência Europeia do Luto), que decorre na Super Bock Arena, entre 10 e 11 de setembro. A SÁBADO falou com a psicóloga clínica Daniela Nogueira, membro da SPTFE que aponta o holofote para o “luto migratório”, uma área pouco estudada em Portugal, apesar de afetar milhares de pessoas.

"Os próprios refugiados já trazem perdas cumulativas. Já perderam as casas, os seus pertences, por vezes a família, a comunidade, e depois podem ainda perder colegas de viagem ou familiares durante o percurso", explica. Segundo a especialista, estas sucessivas perdas distinguem o fenómeno de muitos outros processos de luto. Não se trata apenas de lidar com a morte, mas também com uma sucessão de ruturas que obrigam a pessoa a reconstruir a própria vida num ambiente desconhecido.

Muito mais do que a morte

Tradicionalmente, o luto é associado à perda de alguém próximo. Mas Daniela Nogueira recorda que existem outras formas de perda capazes de desencadear processos semelhantes. "Pensamos habitualmente no luto por morte, mas há pessoas que desenvolvem processos de luto pela perda da casa, dos seus pertences, da família ou do país onde viviam", afirma.

No caso dos migrantes, estas perdas tendem a acumular-se. Muitos abandonam o seu país por falta de condições mínimas de sobrevivência, conflitos armados, perseguições ou situações de extrema pobreza. Outros acabam por ser atraídos por redes de tráfico humano que prometem condições de vida melhores do que aquelas que realmente encontram à chegada. "O que faz milhares de pessoas abandonarem os seus países de origem? Se lhes perguntássemos se preferiam ficar no seu país com condições dignas, dificilmente escolheriam partir", sublinha. Essa vulnerabilidade prévia funciona, muitas vezes, como um fator de risco para o agravamento do sofrimento psicológico.

Os primeiros socorros psicológicos

Quando ocorrem tragédias como as registadas nas rotas migratórias, a prioridade imediata continua a ser assegurar a sobrevivência física das pessoas: alimentação, água, abrigo e segurança. Mas Daniela Nogueira salienta que isso não basta. "Quem presta estes cuidados básicos também deve ter formação em primeiros socorros psicológicos", defende.

Para Daniela Nogueira, uma das ideias erradas mais persistentes é a noção de que qualquer pessoa em sofrimento deve ser imediatamente encaminhada para um psicólogo. "Há este mito de que o psicólogo é o único profissional habilitado a lidar com processos de luto. Isso é uma falácia", afirma.

“Da mesma maneira que há muitos profissionais que não são médicos e que têm capacidade de prestar os primeiros socorros - averiguar se a pessoa está a respirar, se precisa de uma reanimação - também deve haver sensibilidade e formação para esses primeiros socorros psicológicos”, sugere a psicóloga. Esses cuidados passam por medidas simples: permitir que as pessoas expressem emoções, respeitar os diferentes tipos de reação ao trauma, transmitir segurança e garantir que não ficam isoladas. "Há investigação que mostra que a forma como as pessoas são tratadas nas horas e dias seguintes à tragédia tem um impacto muito significativo nas consequências a longo prazo."

Em alguns casos, acrescenta, os sobreviventes relatam que a forma como foram tratados após o acontecimento acabou por ser mais traumatizante do que o próprio evento. Daí defender a importância desta primeira abordagem urgente e depois avaliar se é necessário acompanhamento psicológico especializado. No entanto, ressalva que apenas cerca de 10% desenvolve situações mais complexas que justificam intervenção clínica.

Portugal ainda está a dar os primeiros passos

Embora Portugal tenha uma longa tradição de acolhimento de imigrantes, a resposta especializada nesta área continua a ser limitada. De acordo com Daniela Nogueira, o país encontra-se atrasado mesmo no que diz respeito à intervenção no luto em geral quando comparado com outras realidades europeias.

A psicóloga aponta o exemplo da Irish Hospice Foundation (Fundação Irlandesa para o Hospício), com cerca de 40 anos de experiência, ou do Danish National Centre for Grief (Centro Dinamarquês para o Luto), na Dinamarca, que trabalha nesta área há mais de duas décadas. "Estamos ainda 25 ou 40 anos atrás em relação àquilo que já se faz noutros países", refere.

Em Portugal, a consulta de luto prolongado foi criada apenas em 2019 e existem atualmente seis unidades de referência no Serviço Nacional de Saúde. Ainda assim, considera que a resposta está longe de ser suficiente e não contempla, de forma específica, situações de luto migratório.

A psicóloga recorda, por exemplo, o acolhimento de milhares de refugiados ucranianos após a invasão russa de 2022. Nessa altura, houve uma mobilização institucional para garantir apoio social e psicológico às pessoas deslocadas pela guerra. No entanto, diz, a dimensão do luto associado à perda de familiares, da casa, da comunidade ou do país de origem continuou a receber pouca atenção específica. "Também houve essa mobilização para acolher as pessoas e com apoio psicológico, mas continua sem grande enfoque nesta perspetiva do luto e acho que é uma área que temos de desenvolver",

O papel dos media

A cobertura mediática destas tragédias encerra igualmente desafios. Por um lado, a exposição pública dos acontecimentos ajuda a mobilizar atenções e recursos. Por outro, existe o risco de reduzir vidas humanas a simples estatísticas. "Passa a ser um óbito, um número. Para as famílias isso é muito difícil", afirma.

A psicóloga considera que as imagens mais duras podem ser importantes para gerar indignação e sensibilização social, mas defende que devem ser utilizadas com cuidado para preservar a dignidade das vítimas. “Ao mesmo tempo, quando somos invadidos por tantas imagens, se elas não forem cuidadosas no sentido de preservar também a dignidade do ser humano, podem ativar este nosso sentimento de impotência e nos fazer dessensibilizar”, alerta. “Eu ainda recordo um discurso de uma pessoa um habitante de Ceuta que dizia exatamente isto: ‘Um ou dois consigo ajudar, não consigo ajudar os milhares deles’”, recorda.

A chave, diz, está em humanizar as histórias, apresentando casos concretos para que “sintam que são pessoas e ativar o sentido de compaixão pelos outros”.

Artigos Relacionados