Autoridades turcas detêm comediante acusado de insultar o Alcorão
O comediante turco Deniz Göktaş foi detido esta quinta-feira no aeroporto de Istambul, quando regressava ao país. É acusado pelo Ministério Público da Turquia de insultar "valores religiosos" no recente espetáculo "Mar Morto".
O espetáculo de stand-up "Mar Morto", de Deniz Göktas, deu origem a várias queixas junto do Ministério Público turco por alegadamente "insultar publicamente valores religiosos", avança o jornal pró-governo Sabah. Esta quinta-feira, o comediante foi detido no aeroporto de Istambul por ter utilizado expressões com possível relevância criminal no conteúdo do espetáculo.
Em causa, segundo o jornal turco, estão piadas sobre os livros sagrados, entre elas a frase: "Os três primeiros livros eram bons, mas no quarto a tradução ficou fraca". O espetáculo, gravado a 1 de junho num auditório em Harbiye, Istambul, foi publicado no YouTube a 24 de junho, alcançando um público mais vasto e gerando indignação entre os setores mais conservadores da sociedade turca. Foram apresentadas 185 queixas através do CIMER (Centro Presidencial de Comunicação), que levaram à abertura de uma investigação contra Deniz Göktas por alegado insulto aos valores religiosos.
Na descrição do espetáculo no YouTube, o comediante explica que, desde junho de 2023, tem "andado de cidade em cidade a apresentar este espetáculo pessoalmente, como se a imprensa nunca tivesse sido inventada e a internet não existisse". Acrescenta que, ao longo deste percurso, o espetáculo passou por vários países e cidades e foi visto por mais de cem mil espectadores.
O artigo do Sabah utiliza repetidamente a expressão "autoproclamado humorista", uma formulação pejorativa em relação a Deniz Göktas. O jornal destaca ainda o passado do pai do comediante, Kemal Göktas, que terá sido membro da THKO (Exército de Libertação Popular da Turquia) durante a década de 1980 e que foi detido na posse de armas de fogo e munições.
Segundo a Associated Press (AP), este é mais um episódio relacionado com as restrições à liberdade de expressão na Turquia. Membros da revista satírica Leman, por exemplo, estão a ser julgados por incitamento ao ódio devido a uma caricatura publicada no ano passado que retrata os profetas Maomé e Moisés. Outra humorista de stand-up, Tuba Ulu, foi brevemente detida no início deste ano por insultar uma figura histórica venerada, na sequência de uma piada sobre o sultão otomano Solimão, o Magnífico.