Vasco Vilhena não quer mudar o mundo, só a si mesmo

No seu segundo disco, o pianista lisboeta volta-se para si mesmo para encarar os dilemas da modernidade, e defende que não há progresso sem introspeção. A Poda das Nuvens já está nas plataformas digitais, e é editado em formato físico a 1 de maio.

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Vasco Vilhena, cujo segundo álbum, A Poda das Nuvens, já está nas plataformas de streaming.
Vasco Vilhena, cujo segundo álbum, A Poda das Nuvens, já está nas plataformas de streaming. Joana Ruth

Vasco Vilhena não tem problemas em chamar os seus discos de "conceptuais", não obstante o peso que a palavra possa carregar. "Para mim, não faz sentido fazer discos em que as músicas não tenham nada a ver umas com as outras", revela o artista lisboeta de 27 anos, que chamou a atenção pela primeira vez após ter sido finalista do concurso EDP Live Bands com o seu primeiro álbum de originais. Agora, ao segundo, está cada vez mais convencido de que a sua música faz mais sentido com a consciência "da relação de cada parte com o todo".


A primeira apresentação deste seu universo, Urso Solar, de 2018, era, esteticamente, o cruzamento entre os universos da nova canção portuguesa e da música alternativa e, narrativamente, um "apontar do dedo" de um jovem aos grandes dilemas que o rodeiam, do "peso do nosso legado colonial" à "questão do feminismo", mas, principalmente, do ambientalismo, onde "ainda damos primazia ao lucro em detrimento da sustentabilidade".

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Já nas oito canções de A Poda das Nuvens, o seu segundo disco em nome próprio, editado no passado dia 5, assume uma "perspetiva interior", pensada como "o polo exatamente oposto" ao do disco anterior. Reflete, para o compositor, um desencantamento que sente como muito próprio da sua geração, o da inviabilidade das aspirações de "ser um profissional de sucesso, ter estabilidade financeira, não ser infértil" - uma espécie de desconstrução (ou poda) "dos sonhos que projetamos para as nuvens" quando somos novos.


Mas é também uma substituição da denúncia dos males do mundo pela "procura do que podemos mudar dentro de nós próprios para que possamos estar no mundo que queremos construir", uma mudança patente até nos seus videoclipes: em Urso Solar, encontramo-lo como presa e predador de uma mesma natureza indomável; em Vapor, do novo disco, vemo-lo de enxada na mão, a trabalhar diligentemente a terra que habita. "Se não ages de acordo, então é tudo vapor", canta, no refrão, como que sumarizasse o propósito do disco.

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Se, tematicamente, A Poda das Nuvens representa um virar para dentro, musicalmente é a expansão da sua paleta de sons, a solidificação da sua identidade na nova pop portuguesa e, em simultâneo, uma ainda mais assumida homenagem às influências que cultiva, algures entre os "intemporais da música portuguesa" Zeca Afonso, Fausto e José Mário Branco (a quem, diz, "não faria sentido não referenciar") e o rock alternativo do século XXI.


No que ao som diz respeito, a música está mais próxima deste último: cita Radiohead, que referencia abertamente na faixa-título e em Corte e Cultura, por exemplo, ou King Gizzard & the Lizard Wizard, que o incitaram a experimentar com a estrutura do álbum - entusiasmado, convida-nos a intercalar as canções dos dois discos e descobrir as ligações entre elas - mas acredita que as referências não-musicais foram tão ou mais importantes no processo.

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Conta que "houve uma série de leituras, do Murakami ao Dostoiévski", que o conduziram a este disco, mas que os seus maiores momentos de inspiração vêm do Cinema: "muita música veio depois de ter visto um bom filme, quando vi o Parasitas quis logo escrever qualquer coisa sobre isso", recorda. "Sinto que é destas pequenas reflexões que vou tendo que acaba por surgir uma canção", confessa.


Que conclusão tirar, afinal, destes dois discos, um sobre o mundo envolvente, outro sobre o mundo interior, que se podem ouvir em sequência ou entrepostos? Vasco Vilhena sumariza: "é a ideia de que não podes mudar o mundo sem te quereres mudar a ti, e a de que não podes mudar-te sem, de alguma forma, mudar o mundo".

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