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Seis novos filmes para ver em streaming esta semana

Do melodrama à ficção científica, com histórias competentes e bem contadas, há novos filmes de todos os feitios e para todos os gostos nas plataformas de streaming.

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As mais lidas GPS
Seis novos filmes para ver em streaming esta semana
Pedro Marta Santos 15 de fevereiro
Palmer
Pieces of a Woman
O Tigre Branco
Penguin Bloom
A Escavação
Outside the Wire

Não é necessário ser produzido na Disney+ para cheirar e saber a citrinos audiovisuais da grande quinta do Rato Mickey - hoje o maior latifúndio de ficção do planeta, mais conhecido pelos corretores como Comcast, o monstro que acumula a 21st Century Fox, a Marvel, a Lucasfilm, a National Geographic, a ESPN, a A+E Networks e o mais que o capital permita.

Três das seis recentes longas em streaming no centro nervoso das nossas celas acolchoadas, perdão, lares (talvez fosse interessante que os filmes oferecidos pelos serviços over the top correspondessem a essa necessidade de acidez do pH mental dos confinados) saíram da linha de montagem da Netflix e da Apple +, mas poderiam ser um único feel good movie pré-natal (ou pré-natalício).

Os tempos não estão para psicodrama, embora a melhor estreia em fitas streaming das últimas semanas seja Pieces of a Woman de Kornél Mundruczó, um antitelefilme de domingo, híbrido de terror doméstico e reconstrução emocional de uma mulher a braços com uma bebé que nasce para morrer ao fim de um minuto.

Mundruczó é um húngaro dado às fábulas animalistas em paisagens ultrarreais, mas não há nada de fantasioso na primeira meia hora, de murro no estômago em qualquer sonho pediátrico, com a encenação do parto a cargo do trio Shia LaBeouf (o marido bruto mas bem intencionado; registo LaBeouf de marca registada), Vanessa Kirby (Melhor Atriz de Veneza por Pieces of a Woman) e Molly Parker, a parteira Eva. É escrito por Kata Wéber, companheira de escrita de Mundruczó desde White God, e aconselha-se a casais jovens sem planos reprodutivos imediatos.




Mais apaziguador (mas previsivelmente mais morno) será Penguin Bloom, do australiano Glendyn Ivin, a aguardar estreia na Netflix nacional, e é desde já Palmer, do norte-americano Fisher Stevens, a postos na Apple+ desde 27 de janeiro.

A primeira longa, baseada numa história verídica, tratará do ressurgimento de Sam Bloom (Watts), uma enfermeira cheia de adrenalina, praticante exímia de surf, mãe extremosa de três putos (é o que o filme nos vende nas promoções) a par de marido perfeito (Andrew Lincoln, o galã de Walking Dead) que, em viagem à Tailândia, sofre uma queda que a deixa paraplégica, erguendo-se graças à pega-rabuda (interpretada por 10 pássaros) resgatada da morte pelo filho Noah.




De lágrima obrigatória é Palmer, por via da metamorfose da personagem do título (um Justin Timberlake no registo certo, sem falsetes), ex-promessa do futebol americano universitário regressado à casa da avó (a grande June Squibb) após uma década na penitenciária mais próxima por tentativa de homicídio. Palmer tornar-se-á mentor renitente e, depois, pai substituto de Sam (Ryder Allen), um miúdo gay de ternura e caráter que derreteriam um serial killer. É um melodrama competente para ver em família.




A Escavação
é outra história inspirada em factos, a descoberta de um tesouro merovíngio num descampado britânico na antevéspera da II Guerra Mundial, de notas polidas e aroma convencional, com Ralph Fiennes em número arqueológico de época e Carey Mulligan a morrer em cada fotograma. Poderia ser outro especial Disney da vigência de Jeffrey Katzenberg, mas vê-se sem enfado.




O Tigre Branco
também passa pela reinvenção individual, na pele de Balram Halwai (Adarsh Gourav), um fura-vidas de uma aldeia pobre na Índia que trepa degraus sociais, tornando-se indispensável aos patrões de Nova Deli. Estes tramam-no, Balram vinga-se, usa as armas corruptas dos ricos e ascende a empresário, mas as comparações com Parasitas - pela parábola classista no âmago - são manifestamente exageradas.

Baseado na novela do jornalista Aravind Adiga, vencedora do Man Booker de 2008, O Tigre Branco é uma sátira, quase sempre negra, várias vezes certeira, do sistema de castas indiano, cuja violência hierárquica condena milhões à pobreza, se bem que o fluxo narrativo quase fique condenado pela overdose de voz-off do protagonista. Ainda assim, é o melhor filme de Ramin Bahrani (Man Push Cart e o intragável reboot de Fahrenheit 451).




Outside the Wire, trama de guerra num futuro próximo, move-se por terrenos ucranianos, em disputa nuclear resolvida graças a um caloiro com sangue na guelra e a um tenente androide (Anthony MacKie) com o tronco desenhado por alguns dos piores efeitos digitais de que há memória. Comecem por Pieces of a Woman. A pedaços, é um grande filme.

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