Há dois anos, Richard Gadd levou meio mundo a refastelar-se no sofá em frente a uma série hipnotizante. Baby Reindeer, uma história de stalking (ou perseguição obsessiva), sobretudo, mas também de traumas antigos, expectativas frustradas e o impacto de se ser vítima de violência sexual, estreou na Netflix a 11 de abril de 2024 e foi recebida com devoção: pela generalidade da crítica, que lhe teceu loas, pelo público (foi vista por mais de 80 milhões de pessoas) e pela indústria, que a premiou sem reservas com seis Emmys.
Desde então, o nome de Richard Gadd passou a ser seguido com máxima atenção. É que Gadd não era apenas o criador de Baby Reindeer - era também o argumentista e o protagonista, interpretando a personagem principal, Donny Dunn, por sinal construída a partir de factos da sua própria vida, que fundiu com a ficção.
Ator, escritor e comediante escocês, Richard Gadd, de 36 anos, licenciou-se em literatura inglesa e estudos teatrais na Universidade de Glasgow, em 2011, e começou por se destacar no circuito da comédia stand-up no Reino Unido. Foi nos palcos, aliás, que estreou Baby Reindeer, um solo que cruzava drama e humor que lhe valeu prémios, plateias compostas no Reino Unido e um contrato com a Netflix para adaptar o texto a um formato televisivo. Um caso algo semelhante a Fleabag, criação de Phoebe Waller-Bridge que começou por ser espetáculo de palco (apresentado, tal como Baby Reindeer, no festival Fringe de Edimburgo) antes de se tornar série aclamada no ecrã.
Por tudo isto, em especial porque Baby Reindeer era uma criação relativamente unipessoal para os padrões da ficção televisiva (estava tudo bastante centrado no texto, na visão e na interpretação de Richard Gadd), a expectativa para o que o argumentista, comediante e ator viria a fazer a seguir estava nos píncaros. O que é esse passo seguinte, estamos quase a descobrir: Half Man estreia daqui a três semanas, a 24 de abril, na HBO Max. A data foi anunciada pela própria produtora e distribuidora de filmes e séries em streaming, sem grande pompa e circunstância, num discreto comunicado oficial.
Na sua nova criação televisiva, Gadd volta a ter um papel central também enquanto ator: vai interpretar Ruben, um dos protagonistas desta história. O outro será Niall (interpretado pelo ator britânico Jamie Bell), que não é "parente de sangue" de Ruben mas é "o mais próximo que se pode chegar" disso, lê-se na sinopse oficial.
Também apelativa a espectadores que não torcem o nariz quando ouvem discorrer sobre os benefícios da "economia de atenção" - tal como Baby Reindeer, Half Man também é uma minissérie; e se a antecessora tinha sete episódios, esta tem seis -, Half Man promete acompanhar, ao longo do tempo, a evolução da relação de Ruben e Niall, desde que eram "jovens inseparáveis" (em versões interpretadas, nesses casos, pelos atores Stuart Campbell e Mitchell Robertson) - ainda que com personalidades diferentes, "um, feroz e leal; o outro, calmo e de temperamento ameno" -, unidos "pela morte e pelas circunstâncais", até chegarem à fase adulta.
Aí, tudo muda. Ruben (Gadd) "aparece no casamento de Niall, três décadas depois" e está "tenso, estranho". O que se segue é "uma explosão de violência" e um retrato de "30 anos na vida destes homens atormentados" e da "irmandade, violência e intensa fragilidade das relações masculinas". Tudo isto é adiantado pela HBO Max. Muito - desde logo o trailer - está ainda no segredo dos deuses. Deixará de estar em breve. Falta também encontrar a resposta a uma pergunta difícil: estará Half Man à altura das (elevadas) expectativas?