Malcolm & Marie, um filme sobre o que nos une e nos separa

Do criador de Euphoria, Malcolm & Marie é protagonizado por Zendaya e John David Washington nos mais intensos e emocionalmente devastantes papéis das suas carreiras. Estreia esta sexta, dia 5, na Netflix.

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Malcolm & Marie, um filme sobre o que nos une e nos separa
Pedro Henrique Miranda 05 de fevereiro
Malcolm & Marie
Malcolm & Marie Netflix

Os fãs de Euphoria - a série da HBO centrada nas drogas e na experiência adolescente que conquistou o mundo em 2018 - hão de ter estado atentos. Em julho do ano passado, a sua principal estrela, Zendaya, publicou no Instagram uma foto sua a preto e branco, a contracenar com John David Washington (BlacKkKlansman, Tenet), o primeiro avanço visual de um filme produzido em segredo enquanto o resto de Hollywood lamentava o fecho das salas de cinema.

Aconteceu assim: quando soube do congelamento, por parte da HBO, da segunda temporada de Euphoria devido à crise pandémica, Zendaya ligou a Sam Levinson, criador, showrunner e principal argumentista da série, a perguntar-lhe se teria capacidade para escrever e realizar um filme em condições abaixo do ideal. Menos de uma semana depois, estava dada a luz verde para um dos primeiros filmes (possivelmente até o primeiro) a ser inteiramente concebido e executado em plena era da Covid-19.

É evidente que a produção teve de se adaptar às circunstâncias. Depois de duas semanas de isolamento, a equipa, que usou máscaras durante todo o processo, não teve permissão para sair do local de rodagem, uma casa recôndita nos arredores de Monterrey, Califórnia, antes do fim das gravações.

Além disso, Zendaya e John David Washington são os dois únicos atores em cena ao longo dos 106 minutos, filmados inteiramente a preto e branco para acentuar a dinâmica emocional com que já podemos contar da parte de Sam Levinson.


A dupla de atores interpreta os titulares Malcolm e Marie, um jovem casal numa noite que deveria ser de celebração: ambos acabam de chegar da aclamada estreia da primeira longa metragem realizada por Malcolm, Imami, baseada, em não pequena parte, na vida de Marie, uma ex-toxicodependente frustrada com o insucesso da sua carreira como atriz. Só que um detalhe no discurso de agradecimento de Malcolm desencadeia uma discussão que vai pôr em causa toda a relação dos dois e desnudar os mais íntimos segredos da sua história.

Pode parecer difícil fazer fluir com naturalidade um filme inteiro com apenas duas personagens e um único cenário, mas Levinson já mostrou ser capaz de o fazer, nomeadamente com os dois especiais de Euphoria lançados em dezembro e janeiro, em lugar da segunda temporada, que, salvo um ou outro plano isolado, são narrativamente carregados por duas personagens apenas.

Se há alguém equipado para fazer funcionar um filme com este conceito, a julgar pela receção crítica deste par de episódios, é Levinson.

O que se segue no pós-festa para Malcolm e Marie é uma verdadeira montanha-russa emocional: amam-se, odeiam-se, querem ficar juntos para sempre ou nunca mais se verem um ao outro, riem-se e choram desalmadamente. E, à medida que se confrontam com todos os ressentimentos que os separam (e que os unem), debatem ainda sobre a superficialidade de Hollywood, as dificuldades de afirmação do cinema negro e a importância da autenticidade na arte.

A apreciação crítica de Malcolm & Marie pode não ter sido tão universalmente positiva quanto a das suas experiências anteriores - alguns especialistas encontraram falhas no pedantismo do discurso ou na falta de desenvolvimento das personagens -, mas a maioria concordou no aplauso à química entre os protagonistas, que aqui atuam como nunca antes, e ao olho de Levinson, que os capta como jamais os vimos.


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