Paula Rego: "Nunca pensei que me dessem uma exposição tão grande na Tate"

A Tate Britain, de Londres, acaba de inaugurar a maior exposição retrospetiva de sempre da artista portuguesa, com mais de 100 obras, de pintura e colagens, a esculturas, desenhos, gravuras e pastéis de grande dimensão.

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Paula Rego: 'Nunca pensei que me dessem uma exposição tão grande na Tate'
Markus Almeida 13 de julho
Paula Rego
Paula Rego Lusa

O texto que se segue foi publicado na edição da revista SÁBADO que foi para as bancas a 4 de março de 2021, integrado num trabalho sobre as 100 mulheres mais influentes de Portugal, que elegou Paula Rego como a personalidade portuguesa mais destacada na área da cultura. Republicamo-lo agora a propósito da inauguração da retrospectiva que o museu Tate Britain, de Londres, lhe dedica.  


Nem a pandemia impede Paula Rego de continuar a trabalhar com afinco. "As lojas estão fechadas e os cinemas e restaurantes [também], por isso não há nada mais a fazer", escreve a artista de 86 anos à SÁBADO num email enviado de Londres, onde fixou residência nos anos 70. A rotina de trabalho não mudou. Só a habitual sessão de cinema ao sábado é que teve de ser descontinuada. "Eu continuo a ir ao meu studio e a trabalhar só com a Lila [Nunes, sua assistente e modelo há mais de três décadas]. Só me interessa pintar a Nossa Senhora."

Se este artigo fosse sobre as mulheres mais poderosas no Reino Unido, é possível que Paula Rego continuasse entre as artistas mais destacadas. A Rainha Isabel II condecorou-a com o grau de Dame Commander of The Order of the British Empire. A conceituada revista de moda Harper’s Bazaar dedicou-lhe o prémio Lifetime Achievement. E enquanto se aproxima o fim da retrospetiva que está em digressão desde 2019 - "Paula Rego: Obediência e Desafio", no Irish Museum of Modern Art, em Dublin, até 3 de maio - uma nova surge já no horizonte.

Vai acontecer na Tate Britain, em Londres, entre 7 de julho e 24 de outubro, será a maior retrospetiva de sempre do trabalho de Paula Rego e, claro, motivo de orgulho para a portuguesa: "Nem imagina! Nunca pensei que me dessem uma exposição tão grande na Tate", revela à SÁBADO.

A exposição reúne mais de 100 pinturas, colagens, esculturas e desenhos, desde os anos 50 até aos dias de hoje. "Graças a Deus que não tenho de ser eu a organizar [a retrospetiva] e há uma equipa para pedir os empréstimos [dos trabalhos]."

Nos temas que alimentam a sua carreira de sete décadas entram histórias de abortos, de violência, de obediência, de depressão, de relações de poder desequilibradas e temáticas feministas. Para a Tate Britain, a artista "desempenhou um papel-chave na redefinição da arte contemporânea figurativa, particularmente na sua forma intransigente de representar as mulheres". Não se assumindo ativista, o chumbo do primeiro referendo sobre a despenalização da interrupção da gravidez, em 1998, levou-a a criar uma série de pinturas dedicadas a este tema.

Trazendo para a conversa por email o aproximar do Dia da Mulher, a resposta veio lacónica: "50% da população mundial com um dia para celebrar e reclamar. Não é muito. E ainda há tanto para fazer [pelas mulheres]", escreveu.

E será mais fácil ser-se mulher e artista hoje do que há 50 anos, quando a crítica Linda Nochlin se insurgiu contra uma questão que ia ganhando força na cena londrina, sobre "não haver grandes artistas mulheres"?

Em 1971, Paula Rego vivia entre Londres e a Ericeira e já era artista com obra. Tinham passado quase 20 anos desde que fora estudar para a Slade School of Fine Art, em Londres, onde conheceria o pintor Victor Willing, com quem teria três filhos.

"Não me lembro da conversa", responde em relação à polémica de 1971. "Mas era o que os galeristas e críticos pensavam. Quando aparecia uma artista tinha que competir com todos os pintores na história da pintura! Tudo bem, é o que eu queria fazer."

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