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“A verdade é a interpretação que cada um faz da realidade. É uma escolha que cada um faz da realidade.” A frase, dita por João Canijo numa entrevista, em 2023, poderia servir de epígrafe a toda a sua obra. Não como declaração teórica, como método. Ao longo de décadas, o realizador escolheu olhar quando muitos desviaram os olhos; fê-lo sobre a fratura social, a intimidade em combustão, a família como campo de batalha, o País visto do seu lado B. Incómodo, por vezes brutal mas sempre profundamente humano.
João Canijo morreu na quinta-feira, 29 de janeiro de 2026, aos 68 anos, em Vila Viçosa. A notícia apanhou o meio cultural português de surpresa, num momento em que o cineasta vivia uma rara convergência entre reconhecimento crítico, consagração institucional e projeção internacional, alcançada com o díptico
Mal Viver e
Viver Mal. Filmes-espelho, tragédia e comédia em contraponto, nos quais múltiplos pontos de vista disputam o mesmo espaço e a mesma verdade.
Foi precisamente essa capacidade de confronto que o encenador e dramaturgo
Tiago Rodrigues sublinhou ao lembrar Canijo como alguém que “travou
um combate poético com o país que somos”, um artista “tempestuoso e lúcido” que nos devolveu “
um espelho que refletia doses iguais de violência e ternura”. Um espelho que não suavizava arestas nem oferecia redenções fáceis.
A atriz e encenadora
Cleia Almeida, que trabalhou com João Canijo em vários projetos, entre os quais
Sangue do Meu Sangue,
Noite Escura e
Mal Viver / Viver Mal, falou à
SÁBADO de uma relação que foi também fundadora no plano pessoal e artístico. “Só posso dizer que tive muita sorte em
conhecer e ser amiga do João. Mudou a minha vida, e sou-lhe muito grata”, afirmou esta sexta-feira.
Já em 2024, também em entrevista à
SÁBADO, a propósito da estreia enquanto encenadora com
Uma Vida no Teatro, Cleia Almeida descrevera com precisão o método quase invisível de Canijo na direção de atores. “O João Canijo é
mestre em baralhar-nos de tal forma que
achamos que estamos na personagem e, na realidade, estamos a ser nós próprios nas circunstâncias. Não sei como é que ele faz, nem acho que ele saiba, porque consegue uma manipulação tal que nos tornamos aquelas pessoas. Ele consegue que tenhamos comportamentos que não teríamos naturalmente, a ponto de dizeres ‘eu não era aquela pessoa’. Isso vai
além da transformação física.”
"Só me apetece escrever palavrões"
De
Sangue do Meu Sangue a
Noite Escura, passando por
Ganhar a Vida ou
Fantasia Lusitana, Canijo construiu um cinema em que o melodrama convive com o documentário, o teatro infiltra a
mise-en-scène e o trabalho coletivo com os atores se torna matéria viva do filme.
Vicente Alves do Ó, realizador, recorda
Noite Escura como um desses raros momentos em que o cinema português “atinge aquele lugar de rasgo onde todas as realidades se encontram”, sublinhando não apenas o cineasta, mas o homem, alguém que “
agregava mundos e oposições” e cuja procura artística “aos 68 anos ainda ia a meio”.
A dimensão humana surge repetidamente nos testemunhos.
Catarina Portas, empresária e jornalista, confessou o choque. “Só me apetece escrever palavrões. O João Canijo,
cineasta imenso, homem incrível.”
Fernando Vendrell, realizador, escreveu-o num registo mais íntimo, feito de memórias, almoços partilhados e gargalhadas cúmplices, recusando conclusões: “Não há nada a dizer.” Talvez porque, como nos filmes de Canijo, o que importa permanece muitas vezes no não-dito.
Pedro Abrunhosa, músico, resumiu a perda em dois tempos, alma e futuro, enquanto que
Rita Cabaço, atriz central na filmografia do portuense, lhe chamou “
a Cornucópia do cinema”, reconhecendo nele a escola, o rigor e a exigência que lhe ensinaram o que era representar. “Resta-nos sempre a obra”, escreveu, como quem sabe que ali ficou um território inteiro por revisitar.
Marcelo fala em "meticuloso e destemido cronista"
Também a reação institucional sublinhou a singularidade do percurso.
Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, falou de um “
meticuloso e destemido cronista de um país que nem sempre queremos ver”, lembrando um cinema feito de miséria, emigração, violência e “mau-gosto”, trabalhado com método, risco e frontalidade. António José Seguro, candidato à Presidência da República, evocou um “olhar lúcido e corajoso”, capaz de dar voz aos silêncios e expor feridas sem nunca abdicar da humanidade.
Numa nota divulgada pelo
Governo,
Margarida Balseiro Lopes, ministra da Cultura, Juventude e Desporto, lamentou “com profundo pesar” a morte do cineasta, lembrando João Canijo como “figura maior do cinema português contemporâneo”, autor de uma obra marcada por “
rigor formal e intensidade emocional”, particularmente atenta às dinâmicas familiares e às personagens femininas.
Para a ministra, “a morte inesperada de João Canijo representa uma perda irreparável para a cultura portuguesa”, sublinhando uma obra “intensa, realista, exigente e profundamente humanista”, cujo legado “nos merece todo o respeito e admiração”. Em nome do Governo português, a ministra endereçou condolências à família, amigos, colegas e a toda a comunidade cinematográfica.
Natural do Porto, João Atavilla Canijo trabalhou ao longo de mais de quatro décadas com nomes centrais do cinema europeu como Manoel de Oliveira, Wim Wenders, Alain Tanner ou Werner Schroeter, assinando quase três dezenas de filmes como realizador e argumentista. Entre eles,
Noite Escura (2004) e
Sangue do Meu Sangue (2011) tornaram-se referências incontornáveis, enquanto o Urso de Prata – Prémio do Júri no Festival de Berlim, atribuído a
Mal Viver (2023), marcou um dos pontos mais altos da sua carreira. Dono de uma vitalidade criativa que parecia inesgotável, tinha em mãos novos projetos, entre os quais o filme
Encenação.
João Canijo escolheu a sua verdade e foi fiel a ela até ao fim. Num cinema português frequentemente dividido entre o pudor e a metáfora, filmou de frente, sem pedir licença, sem procurar consenso. As reações agora conhecidas desenham apenas um primeiro contorno dessa ausência. Outras vozes se juntarão, ao longo do dia, a este retrato ainda em movimento, à medida que o País do cinema, bem como o real, continue a confrontar-se com a obra que deixou em aberto.