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Agualusa, Sérgio Godinho e David Foster Wallace entre os destaques da 'rentrée' da Bertrand

A publicação do livro (até aqui, inédito em Portugal) "Breves entrevistas a homens hediondos", de David Foster Wallace é uma das novidades anunciadas pelo grupo livreiro.

Lusa 09 de setembro de 2026 às 09:16
Sérgio Godinho Vítor Mota / Medialivre

Ovídio, David Foster Wallace, Álvaro Laborinho Lúcio e Ana Maria Gonçalves são alguns nomes da 'rentrée' da Bertrand, que traz a primeira edição integral em português de "Cantos de Tristeza" ("Tristia"), inéditos, uma obra póstuma e um romance histórico.

O Grupo Editorial Bertrand Círculo apresentou esta terça-feira as novidades literárias a serem lançadas entre setembro e novembro, de entre as quais se destaca a publicação, pela primeira vez com tradução para português e em edição bilingue (português/latim), das cartas poéticas do poeta romano Ovídio, escritas durante o período em que esteve exilado.

Esta obra, editada pela chancela Quetzal, e que conta com tradução e notas de Carlos Ascenso André, foi escrita originalmente entre os anos 8 e 12 d.C..

Aos 51 anos, Ovídio foi condenado ao exílio em Tomis (atual Roménia), pelo imperador Augusto, tendo iniciado então um novo modelo de poesia, com o título "Tristia" (traduzido aqui por "Cantos de tristeza"), que consistiu em cartas poéticas destinadas a diversas pessoas, maioritariamente amigos e a mulher, lançando desse modo as bases da chamada literatura de exílio.

Também em setembro, na mesma chancela, vai ser publicado pela primeira vez em Portugal "Breves entrevistas a homens hediondos", de David Foster Wallace, que abordam aquilo que hoje é conhecido como a "masculinidade tóxica", como descreve a editora.

Publicado pouco depois de "A piada infinita", este livro foi lançado em 1999 e inclui 24 contos, que são na verdade 24 entrevistas em que as perguntas são omitidas, e em que o autor explora temas como a dependência de drogas, a depressão, o sexo, a misoginia, os relacionamentos amorosos, os 'media' e as barreiras de comunicação.

"As histórias de David Foster Wallace retratam um mundo onde o bizarro e o banal se entrelaçam e onde homens horrendos aparecem sob as mais diversas formas", descreve a editora sobre a obra que foi recentemente colocada em cena por Patrícia Portela em forma de monólogo para Nuno Cardoso.

Inédito também é "Voltas e disfarces", um novo volume dos diários de Rentes de Carvalho -- estes referentes ao período entre 2010 e 2011 -, que se sucede a "Recordações e andorinhas", uma das obras semifinalistas ao prémio literário Oceanos.

Em outubro, a Quetzal lança "De olhos abertos", de Julian Barnes, um conjunto de ensaios sobre pintura, do romantismo ao realismo, passando pelo modernismo, em que o autor se debruça principalmente sobre pintores franceses -- entre os quais Géricault, Delacroix, Courbet, Manet, Fantin-Latour, Cézanne, Degas, Bonnard, Braque, Magritte, Berthe Morisot e Lucian Freud, entre outros -- mantendo sempre a ligação entre arte e literatura.

José Eduardo Agualusa terá um novo livro, "A arte da deriva", uma antologia pessoal dos contos que melhor representam o seu universo literário, e José Luis Peixoto lança um novo romance, intitulado "Menina Alzira", que resulta de um diálogo entre mãe e filho, ambos a serem lançados em novembro.

No mesmo mês chegará um romance que Álvaro Laborinho Lúcio, que morreu em outubro do ano passado, deixou inacabado, intitulado "A arca de Noémia", e que será publicado tal como está.

Sérgio Godinho lançará o seu primeiro livro de memórias -- "Memória de duas prisões no Brasil (e outras cenas da vida corrente)" -- sobre as suas detenções em 1971, em Ouro Preto, Minas Gerais, e em 1982, no aeroporto do Rio de Janeiro.

Com a memória destas duas prisões no Brasil, Sérgio Godinho recorda também a sua vida na Suíça e no Canadá, o 25 de Abril e a cena musical portuguesa.

Outro dos grandes destaques da 'rentrée', com o selo da Bertrand Editora, é o lançamento já neste mês, do romance histórico "Um defeito de cor", de Ana Maria Gonçalves, a primeira mulher negra a entrar na Academia Brasileira de Letras.

Distinguido com o Prémio Casa de Las Américas e eleito por leitores e críticos do jornal Folha de S. Paulo o melhor livro de literatura brasileira do século XXI, esta obra conta a saga de Kehinde, mulher negra que, aos oito anos, foi sequestrada no Reino do Daomé, atual Benin, e levada para ser escravizada na Ilha de Itaparica, na Bahia.

Na mesma chancela, mas na área da não-ficção, será publicado em novembro "Hotel Exílio -- Paris sob as nuvens do fascismo e da guerra", da historiadora britânica Jane Rogoyska, uma crónica sobre o mítico hotel que testemunhou a Segunda Guerra Mundial e o nascimento da Europa, finalista do Women's Prize para não-ficção de 2026.

Entre as propostas da Temas e Debates, conta-se a publicação, durante o mês de setembro, da obra "Revoluções. Uma nova História", do historiador Donald Sassoon, que "trata da história das revoluções no tempo longo", dando uma "perspetiva de como elas chegaram e continuam a chegar ao tempo presente", segundo a editora.

Outros destaques desta editora são "A revolução invisível", de Mariana Dimópulos, uma análise da forma como pensadoras do século XX - Rosa Luxemburgo, Hannah Arendt, Simone Weill, Simone de Beauvoir, Iris Murdoch, Ágnes Heller e Judith Butler - revolucionaram o pensamento político; e "Economia do Bem Comum", da premiada economista Mariana Mazzucato, que reimagina a economia dando-lhe uma nova bússola para se orientar.

A Contraponto lança já em setembro uma nova coleção, intitulada "Do meu ponto de vista", cujo primeiro volume é dedicado a António Barreto e resulta de vinte e cinco conversas com o jornalista João Céu e Silva, em que o sociólogo escrutina a História do país.

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