Entrevista
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Tom Cruise: “Tinha 4 anos e já queria fazer filmes. Queria viver aventuras”

Dispensa duplos, pilotou o seu caça em Top Gun: Maverick e recebeu a Palma de Ouro Honorária em Cannes. Faz 60 anos em julho, só faz filmes para as salas de cinema e não para o streaming.

Não se formou em cinema, mas aprendeu tudo o que sabe nos estúdios a trabalhar. Em miúdo já perseguia aventuras, a trepar a árvores e a subir a telhados. Além de ator, Tom Cruise é produtor e acaba de bater recordes com Top Gun: Maverick. Depois de ver os seus filmes adiados por causa da pandemia, voltou a encher salas de cinema. Quase a fazer 60 anos, Tom Cruise faz questão de continuar a fazer as suas próprias cenas de ação, sem recorrer a duplos. Numa entrevista em Cannes, França, o norte-americano recorda o início de carreira e explica que faz filmes para o grande público.


É um apreciador de cinema. Como é que a sua relação com o cinema evoluiu ao longo dos anos?
Lembro-me que, em miúdo, tinha 4 anos e já queria fazer filmes. Queria pilotar aviões. Pensava no que ia ser a minha vida. Queria viver aventuras. Era um miúdo que estava sempre a fazer coisas doidas, a trepar às árvores mais altas... Era um grande sonhador. Estava constantemente a escrever histórias. Quando cresci, tive vários empregos, sem ser na indústria do cinema – tive de trabalhar em miúdo porque todos contribuíamos para ajudar a família. Cortava relva, esse tipo de coisas, limpava a neve nos acessos das vivendas, vendia postais porta a porta, de Natal e de outras quadras festivas. E poupava dinheiro para ir ao cinema, depois de dar uma parte à minha família. De repente, tenho 18 anos e estou a fazer O Clarim da Revolta. E apercebo-me de que isto está mesmo a acontecer, que estou num estúdio de cinema pela primeira vez na minha vida. E, na verdade, era a minha segunda audição para fazer um filme e consegui o papel, um papel muito pequenino. E eu só pensava: eu nunca andei numa escola de cinema, mas conhecia os filmes. O que fiz foi ir a cada departamento, sem exceção, e estudar tudo, porque pensei assim: mesmo que nunca mais volte a ter a oportunidade de fazer outro filme, quero compreender o que é isto. Eu era o tipo de puto que estava sempre a escrever na parede metas a atingir: que tipo de filmes eu gostava ou como eu queria que a minha vida fosse. E depois trabalhava com vista à realização desses objetivos. Sempre gostei de ter público e fiz os meus filmes para o público, porque eu, antes de tudo, sou o público.

Vivemos na era do streaming. Por que razão ainda é importante, para si, que os seus filmes sejam exibidos nos cinemas?
Trata-se de sermos capazes de nos reunirmos enquanto comunidade e partilharmos uma experiência juntos. Eu já vivi alguns momentos incríveis na minha vida. Compreendo a indústria. Faço filmes para o grande ecrã. Sempre pensei num filme não apenas como uma boa forma de começar um fim de semana, mas como algo para perdurar. Por isso penso: como é que hei de fazer um filme (e esperamos conseguir fazer um filme) que vá divertir e interessar o público passados vários anos? Quero esta experiência não apenas para mim, como tenho a certeza de que há imensas pessoas que a querem viver também. O cinema é a minha paixão. Eu vou sempre ao cinema quando os filmes estreiam. Enfio o meu boné na cabeça e sento-me na audiência, no meio de toda a gente.

Com a pandemia, as salas de cinema fecharam. Contemplou a hipótese de estrear Top Gun: Maverick noutra plataforma?
Isso nunca iria acontecer. Eu vou ao cinema e aquelas pessoas que lá estão, que vendem as pipocas, que fazem dos cinemas o que eles são, eu pus-me a telefonar-lhes e a dizer-lhes: "Por favor, eu sei aquilo por que vocês estão a passar neste exato momento, mas nós estamos a fazer a Missão Impossível, o Top Gun vai estrear-se e eu prometo-vos…" É como quando eu estou a fazer um filme, eu tento usar todo o talento e tudo o que sei, toda a competência e as capacidades de todas as pessoas com quem trabalho. A maravilha de fazer filmes é que é uma experiência incrível, em que se aprende imenso acerca da humanidade e sobre as pessoas, o trabalho, a arte. E sobre cada departamento. Cada elemento de um filme é tão importante e é preciso criar um ambiente que seja propício à concretização do potencial da história. Algumas pessoas poderão pensar: "Escreves o guião e comprometes-te a segui-lo fielmente…" Na verdade, eu trabalho nas coisas durante anos e anos. Trabalhámos no filme Jerry Maguire durante um ano inteiro. E mesmo quando já estamos a fazer o filme, estamos constantemente a evoluir e a descobrir o que ele é. E comecei a produzir filmes por necessidade, para poder andar para a frente com coisas que eu queria fazer, para conseguir apoiá-las da forma como as queria apoiar e isto está sempre a evoluir. E esta é a maravilha de tudo isto. Às vezes julgamos que sabemos realmente o que estamos a fazer, apenas para nos apercebermos de que, simplesmente, não sei o que estou a fazer [risos]. Isto dá-nos humildade e é magnífico em tantos aspetos.

Em De Olhos Bem Fechados há uma cena em que Nicole Kidman lhe fala do oficial da Marinha. Vocês estão na cama, o Tom está em tronco nu e não mexe um único músculo. Foi o Stanley Kubrick que lhe disse para interpretar a cena assim?
O que aconteceu foi que, na verdade, filmámos essa cena muitas vezes, rescrevemo-la muitas vezes, porque andávamos à procura do tom certo. O que era maravilhoso no Stanley é que eu chegava e púnhamo-nos a falar sobre iluminação e ele explicava-me tudo, passo a passo. E depois eu ia ver tudo através de uma câmara, juntamente com ele, na manhã seguinte. Via as imagens em bruto que tinham sido filmadas no dia anterior, depois entrava na sala de visionamento, via os frames e observava o material que ele escolhia. E passávamos muito tempo a falar sobre iluminação e sobre o tom que ele queria no filme. É possível sentir isso. Filmámos tipos completamente diferentes de representações e não batia certo. O resultado foi apenas algo que o Stanley, a Nic e eu descobrimos. Tudo acabou por ir dar àquilo. No cinema, a preparação é tudo. Mas claro que não quero que as pessoas vejam o trabalho que está por trás do filme. Só quero que experienciem o mundo.

As pessoas adoram a saga Missão Impossível, especialmente as cenas de ação. Faz as cenas sem duplos e isso é perigoso. Porquê?
Nunca ninguém perguntou ao Gene Kelly: "Porque é que dança? Porque canta?" Se eu fizer um musical, quero ser eu a cantar e a dançar. Missão Impossível foi o primeiro filme produzido por mim. A Sherry Lang e o Stanley Jaffe, que já conhecia de O Clarim da Revolta, disseram-me: "Olha, Tom, nós queremos que produzas filmes." E fui à Paramount e disse: "Quero fazer a Missão Impossível." E, claro, na altura aquilo era uma série de TV e as pessoas, os meus amigos, diziam: "Isso é uma péssima ideia, é uma série de televisão." Aprendi imenso a fazer o filme e sempre pensei que devia haver alguma coisa que conseguisse fazer [com a ideia]. Queria levar esta forma artística até ao limite. Pus-me a pensar: "Como é que eu posso imergir o público num filme com este tipo de ação? E como posso diverti-los?" Se vir os meus filmes, quer seja o Negócio Arriscado, comigo a patinar pelo chão, ou mesmo O Clarim da Revolta, com os fuzileiros, eu estou sempre a tentar dominar bem o lado físico. Isto são coisas que eu quis fazer toda a vida: aterrar de paraquedas, saltar, usar as aptidões que fui desenvolvendo ao longo do tempo. Sou piloto acrobático, piloto de helicóptero, faço voos a jato e danço, tenho lições de dança e de canto. Posso criar para o público uma experiência que será, julgo eu, única. Lembro-me de estar em O Clarim da Revolta e de me pôr a ouvir os duplos a conversar. E mais, era ainda um miúdo, tinha aí uns 4 anos e meio e tinha um boneco que costumava atirar ao ar e que descia com o paraquedas aberto.

O que fez?
Brincava com ele e deixava-o cair do alto de uma árvore. E eu ficava: "Quero mesmo muito fazer isto." Lembro-me de tirar os lençóis da minha cama, de os atar a uma corda, arrastei aquela tralha lá para cima e subi para o telhado. Olhei lá para baixo e vi que a minha mãe estava na cozinha, e ela tinha quatro miúdos, e eu fiquei: "OK." Tinha ali o paraquedas e saltei do telhado com 4 anos. E é naquele momento, quando se salta do telhado, que se diz: "Isto não vai funcionar. Isto é péssimo. Eu vou morrer." [Risos] Bati no chão com tanta força. Não sei bem como tudo aconteceu, mas aterrei com o rabo no chão e vi estrelas em plena luz do dia. Recordo-me de olhar para cima e dizer: "Isto é muito interessante." E pensei: "A minha mãe vai-me matar!" Porque os lençóis estavam sujos. Mas, agora, cá estou eu num estúdio de cinema, aquele miúdo que costumava trepar ao telhado ou às árvores mais altas, com o vento a soprar, só porque queria fazer isso. E como é que eu desenvolvo estas aptidões e as torno parte de uma história e de uma personagem? Portanto, essa é uma das coisas que me ocorreram com a Missão Impossível. Quando fiz Dias de Tempestade andei a conduzir carros de corridas. E eu punha-me a conduzir carros para o Paul Newman. Portanto, estou a aprender todas estas novas aptidões e apercebo-me de que é como na Velha Hollywood. Esse sistema já desapareceu, mas eu estava constantemente a estudar cinema e pressionava-me a mim próprio para aprender diferentes competências. Por isso, inscrevia-me em lições de dança e depois viria a aplicá-las em Les Grossman [personagem que interpretou em Tempestade Tropical] ou em A Idade do Rock. Ou então tinha lições de canto, só para ter esta capacidade. E estou constantemente a pensar em histórias e personagens.

Alguma vez teve medo ao fazer as cenas de ação?
Sim. Não é só fazê-las, é como é que elas fazem parte da história? Como é que envolvemos o público? E há momentos… como é que as montamos? Porque, tal como aquele miúdo de 4 anos, eu penso nisso. Eu sou a audiência naquela sala de cinema. Os filmes que eu via transmitiam-me uma sensação de aventura e isso abriu-me os horizontes. Eu queria saber coisas sobre as pessoas, as culturas. Ajudou-me sonhar. Costumava pensar: "É possível." Mesmo que outros dissessem que era impossível. "Não, eu acho que é possível e vou trabalhar para que isso aconteça, um dia. E tentarei fazê-lo." Penso que uma das coisas mais importantes, quando estou a trabalhar com atores, é criar. Mesmo que fracassemos até certo ponto, tento sempre sair dali com aquilo que aprendi. Sinto-me muito privilegiado. Adoro o que faço. Com Top Gun perguntam-me: "Porquê 36 anos de intervalo?" Eu não estava preparado em 1986. Lembro-me de que o estúdio queria que eu fizesse uma sequela logo a seguir. Eu disse: "Não quero fazer isso. Preciso de crescer como artista."

Há uma deixa que já é clássica no Maverick – o Tom está a falar com o ator Ed Harris e este diz que o fim é inevitável para pessoas como o Maverick e você responde: "Talvez, senhor, mas não vai ser hoje." Enquanto ator, coloca a si próprio essa pergunta: quando é que tudo terminará?
Pensava nisso, aos 18 anos, quando estava para ali deitado. Quando isso volta a acontecer, regresso a esses momentos. E então pensamos: "Quero tentar fazer todo o tipo de filmes que possa e aprender sobre esta forma de arte." Eu marco realmente estas metas. As mesmas metas que tinha quando era um miúdo pequeno. E, para mim, é uma fase de cada vez. Houve alturas, na minha carreira, em que as pessoas discordaram de mim, ao fazer certos filmes, ou disseram: "O que é que podemos fazer melhor do que isto?" E eu sei que há sempre mais uma história. E de todas as vezes que fui obrigado a adiar o filme, telefonava a toda a gente.

O que lhes dizia?
Dizia: "Não te preocupes, isto vai fazer-se." Eles são talentosos. Estou muito grato a todos e a cada um deles pelo que deram ao filme. Estou grato por isso e pelo Chris McQuarrie [guionista], pelo Jo Kosinski [realizador] e pelo Jerry Bruckheimer [produtor]. Estou muito grato por esta experiência. Mas já estou a pensar no futuro: Qual é o próximo? Uma das coisas que faço é passar algum tempo com o resto da equipa de filmagens. Por isso, estou sempre a ajudar diferentes cineastas, guionistas, realizadores. Todos temos de contribuir para isso. Infelizmente, em Hollywood todos querem garantias. Sou capaz de dizer como consigo criar um ambiente, ou seja, que com um determinado solo posso plantar as sementes que podem vir a dar uma bela flor – mas isso é o que esperamos que aconteça. Estou disponível para todos os que aceitem isso. Além disso, eu estou aqui é para aprender.

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