Entrevista

Lair Ribeiro: "O cancro tornou-se num grande negócio"

Sandra Xavier 31 de dezembro de 2021

Formado em Cardiologia e Nutrição, o médico lançou em 2021 o livro "Câncer – uma outra visão".

O cardiologista e especialista em nutrição Lair Ribeiro é polémico: relata já ter recebido ameaças e foi acusado de ser um perigo para a saúde pública, algo que não o incomoda. Prestes a cumprir 50 anos de carreira, há 20 que estuda o tratamento do cancro durante oito horas diárias, afirma. Em 2021, lançou o livro Câncer – uma outra visão. Neste, defende a biópsia líquida no tratamento personalizado da doença e recomenda 20 minutos diários ao sol sem protetor.


Porque decidiu escrever este livro?
Em 2002, publiquei o livro Câncer de mama – Prevenção e Tratamento. Nos últimos 20 anos, tenho vindo a aprofundar o meu estudo sobre o tema. Além de ser cardiologista, sou médico especialista em nutrição e foi esta minha especialidade que me levou a interessar-me pelo tratamento do cancro.

Afirma que "o cancro é um grande negócio" e que a indústria farmacêutica fatura milhões. Conhece-a bem?
Sim, porque trabalhei nela durante oito anos e meio. Como o próprio nome indica, é uma indústria. Não está preocupada com a saúde. Está lá para ganhar dinheiro. O cancro tornou-se num grande negócio. Se alguém descobrir algum tratamento que não dê dinheiro a ninguém, não vai para a frente, infelizmente.

Em que é que o facto de ter trabalhado na indústria farmacêutica mudou a sua visão como médico?
Mudou radicalmente porque nós, médicos, passamos seis anos no curso a aprender a usar remédios. Mas o remédio, o próprio nome já diz, remedia, não trata a causa, trata os efeitos colaterais da doença.

Porque é que saiu da indústria?
Saí por frustração porque – eu cheguei a ser vice-presidente de uma empresa -, percebi, cada vez mais, que a indústria está mais preocupada com o lucro do que com a resolução do problema. A minha ética não me permitiu fazê-lo. 

Mas a indústria investe milhões na procura de tratamentos contra o cancro...
Quando eu falo em indústria, não me refiro a toda. Há indústrias sérias e outras que querem faturar. Temos que estar lá dentro para saber quem é quem.

Apesar do forte investimento da indústria, os casos de cancro aumentam a cada ano. O que é que está a falhar?
Em primeiro lugar, é a causa do cancro. Até hoje, não se chegou a uma conclusão precisa sobre se o cancro é um fenómeno genético ou uma doença metabólica. Pode ser de origem genética, metabólica ou uma combinação das duas. Pode haver uma alteração metabólica, tratar-se o cancro como tal e como consequência, surge a mutação. Eu não estou a dizer que não há uma mutação genética, há, sim, mas não é a causa primária. A causa primária, na minha opinião, é uma falha na utilização do oxigénio pela célula. Perante este distúrbio, em vez de sobreviver, a célula muda de aeróbica (usa oxigénio) para anaeróbica (não usa oxigénio) e isso muda tudo porque obriga a mudar o foco no tratamento. Enquanto não se resolver a causa, o efeito não vai desaparecer. 

É na utilização do oxigénio que está a diferença no metabolismo de uma célula cancerígena quando comparada com uma célula normal?
A célula normal recebe o oxigénio e liberta dióxido de carbono. Se perder essa habilidade, tem duas opções: ou morre ou muda. Se sofrer uma mutação, vai tornar-se numa célula cancerígena. Quando se torna cancerígena, o oxigénio torna-se veneno para ela. Ela passa a fermentar e vai usar o produto da fermentação. A melhor coisa para fermentar é o açúcar. Por isso, o primeiro passo para melhorar o cancro é diminuir, drasticamente, a ingestão de açúcar e de hidratos de carbono (que se transformam em açúcar), pois "mata-se a célula cancerígena à fome". A dieta ajuda muito no tratamento do cancro, mas, hoje, os oncologistas – não todos -, não estão interessados na dieta do paciente. O doente pergunta: "Doutor, o que é que eu posso comer? O que quiser. Posso comer gelados? Pode." A partir daí, o paciente vai comer gelados todos os dias. Ele mata o cancro de manhã com a quimioterapia e estimula-o à tarde, comendo gelados. 

Porque é que diz que muitos oncologistas não estão preocupados com a dieta?
Porque nos seis anos da faculdade, não discutimos nutrição. Ninguém enfatiza a importância da alimentação, das vitaminas, dos minerais. Se for medir os níveis de vitamina D de pessoas com cancro, estão baixos. 

Quais são as fases do cancro?
O cancro tem três fases: a iniciação, a evolução e a progressão (metástases). A célula cancerígena, além de se dividir desordenadamente, também tem a capacidade de invadir as células vizinhas, ela gosta de viajar – apanha boleia no sangue e na linfa e vai para outra zona do corpo. Por exemplo, a célula cancerígena do pâncreas migra para o fígado. O que mata mais não é o cancro, são as metástases. Há medicamentos que podem prevenir o cancro, mas, após a fase de iniciação, já não servem para nada. Há remédios que podem ajudar na fase de iniciação, outros na evolução e outros na progressão. A curcumina (presente na curcuma), por exemplo, pode ajudar nas três fases. Há centenas de trabalhos científicos que o comprovam. 

Refere que 90% dos cancros são de origem epigenética: devem-se a fatores ambientais e/ou ao estilo de vida...
Sim, o cancro é multifatorial. Um dos principais fatores é a desnutrição. As pessoas estão alimentadas, mas não estão nutridas. Se eu como um hambúrguer com batatas fritas e bebo um refrigerante, estou alimentado – a fome desapareceu -, mas não estou nutrido. Por outro lado, vivemos num mundo em que o ar, o solo e a água estão contaminados, o nosso corpo está contaminado. As crianças já nascem contaminadas. O conflito emocional também influencia. Por exemplo, uma mãe que perdeu um filho pode desenvolver com um cancro de mama, um ano depois. Um empresário, que foi sequestrado, pode vir a ter um cancro de próstata. Outra coisa importante é que o cancro pode passar de uma pessoa para outra. O que é que é o HPV? É uma infeção (causada pelo papiloma vírus humano), que pode dar origem ao cancro do colo do útero. Como é que se apanha? Nas relações sexuais. 

Todos os anos são gastos milhões em tecnologia que se concentra em métodos de análises genéticas, mas se só 10% dos cancros têm esta origem, anda-se a investir no "cavalo errado"?
Fazer pesquisas genéticas dá dinheiro e cuidar do metabolismo é muito simples. Quem falar contra o sistema, é apedrejado. É uma luta de David contra Golias. 

Mas as investigações e análises genéticas não ajudam a compreender o funcionamento das células?
As investigações e análises genéticas ajudam muitíssimo a medicina como um todo, e não deixam de ajudar na terapia do cancro. Esse não é o ponto que estou a discutir. O ponto é se tudo começa na genética ou se também pode começar na epigenética. Qual é a causa primária do cancro? Há cancros que são de origem genética e nesses estamos de acordo. Naqueles que não são de origem genética, a toxicidade do mundo onde vivemos tem um papel muito importante, podendo tornar o genoma instável, levando a mutações. 

O abandono da investigação em genética não pode acabar por prejudicar a medicina funcional?
Em nenhum momento estou a sugerir que haja um abandono da investigação genética. Tem-se investigado muito sobre a causa primária ser a genética e os resultados são pífios. A investigação genética constitui um dos maiores avanços na medicina. A publicação do "Projeto Genoma", em 2003, constitui um avanço inestimável. Tanto que hoje a medicina está a ser dividida em 2 fases: medicina pré-genoma e medicina pós-genoma. A causa primária, sendo genética, é que é a questão. A alta prevalência de cancro é uma consequência da modernidade.

O que é a biópsia líquida e como pode ajudar?
A biópsia líquida consiste em tirar 15 mililitros de sangue do paciente e analisar. Em primeiro lugar, a biópsia vai ver se existe alguma célula cancerígena a circular no sangue, porque o paciente pode dizer: "estou curado", mas se houver uma ou duas células cancerígenas em circulação, pode ter uma recidiva. É só uma questão de oportunidade de se manifestar de novo. Em segundo lugar, a biópsia vai permitir saber qual é a melhor quimioterapia para aquele tipo de cancro. Há mais de 100 quimioterapias diferentes, mas nem todas são adequadas para o mesmo tipo de cancro. A biópsia líquida vai permitir um tratamento personalizado da doença. É um instrumento de diagnóstico e terapêutico, que orienta a terapia. 

Além da Suíça, que países já utilizam a biópsia líquida?
A empresa que faz a biópsia líquida é uma empresa suíça, mas os laboratórios ficam na Grécia. A empresa faz biópsias líquidas para o mundo inteiro. Em Portugal, alguns médicos já a utilizam. 

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