Entrevista
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Inês Torres: “Não temos provas que as pirâmides tenham sido construídas por pessoas escravizadas”

Inês Torres: “Não temos provas que as pirâmides tenham sido construídas por pessoas escravizadas”
Ana Bela Ferreira 25 de julho

A arqueóloga de 30 anos é autora do livro Como é que a Esfinge perdeu o nariz?, em que responde a várias dúvidas e mitos sobre o antigo Egito. Lamenta que a palavra múmia tenha sido utilizada para classificar pessoas falecidas como objetos.


Inês Torres é egiptóloga cumprindo assim um sonho que vinha desde a infância. Este ano esteve pela primeira vez numa escavação no Egito e conta regressar no próximo ano. Acaba de lançar o livro Como é que a Esfinge perdeu o nariz?, onde esclarece várias dúvidas e mitos sobre o antigo Egito. Aos 30 anos e depois de ter tirado o mestrado em Oxford e o doutoramento em Harvard regressa a Portugal para fazer egiptologia a partir daqui – mas com um pé lá fora entre a Bélgica (de onde é natural o marido), os EUA (onde o marido também ele egiptólogo está a terminar o doutoramento) e o Egito (onde terão sempre de voltar por paixão e trabalho). Atenta à comunicação, criou um podcastTrês Egiptólogues Entram Num Bar - e uma página de Instagram onde divulga o antigo Egito.


O que a fascinou no antigo Egito?
O culpado foi o meu pai, que me comprou um livro quando tinha 9 anos, chamado Os egípcios espantosos. Ainda tenho esse livro em casa. Fiquei mesmo apaixonada porque era assim uma cultura que de facto me atraiu pela escrita, pela cultura material, não só as pirâmides, mas também tudo aquilo que os egípcios de facto faziam. Uma das coisas que adorava era aquela ideia de Ma'at, de justiça e equilíbrio sociais que para mim eram muito chamativos. Aquela ideia de justiça-verdade que os egípcios, pelo menos em teoria, queriam praticar ou praticavam. Os romanos eram assim muito brutos, os gregos também tinham umas filosofias um bocado estranhas para mim. E então os egípcios pareciam-me uma civilização mais alinhada com aquilo que enquanto miúda me fascinava.

Quando vai pela primeira vez ao Egito?
Tinha 18 anos, foi uma passagem de ano, numa viagem organizada pelo professor Luis Manuel de Araújo, que era meu professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Pedi muito ao meu pai para me deixar ir e então a minha família ajudou a pagar e fui. A minha visão do Egito mudou muito entretanto. Tinha aquela fantasia de um país distante, também muito no sentido quase orientalizante. Quando fui pela primeira vez tirei pouquíssimas fotografias, porque estava pasmada, olhava para as pirâmides, não acreditava que estava lá. Foi também um momento de grande aprendizagem porque o professor Luís Manuel Araújo estava lá e quase que estava a tirar notas e foi mesmo assim algo muito, muito fascinante. Mas a minha relação e visão do Egito tem vindo a mudar muito nos últimos anos. Costumava ler muitos romances históricos passados no Antigo Egito, agora tenho dificuldade em fazê-lo porque para mim já é trabalho, então sempre que leio estou a pensar 'ah mas isto não é exatamente correto', 'ah mas isto não se passava exatamente assim' e é difícil apreciar já o Egito como um hobby, porque agora é o meu trabalho. 

Quando o fascínio surgiu era muito alimentado pelos livros e pelo cinema, com personagens como o Indiana Jones?
Nem foi tanto o Indiana Jones que me influenciou muito, mas o filme da Múmia de 1999, que é assim um filme fantástico para mim - hoje em dia, lá está, vejo muitos problemas no filme, mas na altura tinha 9 anos e fiquei super-fascinada - e foi sempre muito aquela ideal da cultura material e da arqueologia que me fascinou. Tanto que quando tive de escolher a faculdade - em Portugal não podia licenciar-me em egiptologia - fui fazer Arqueologia. Podia ter feito História ou Arqueologia, mas essa ideia da cultura material das escavações foi sempre aquilo que me fascinou.

Já fez escavações no Egito?
Muito recentemente. Tinha alguma experiência em escavações em Portugal, mas a nível de escavações no Egito são muito complicadas para obter autorizações, tem de ser feito com muita antecedência. Portanto a primeira vez que tive essa oportunidade foi em janeiro deste ano. Fui com o meu marido, que também é egiptólogo, e estivemos numa escavação no templo de Mut, que era uma deusa e que faz parte do complexo religioso do templo de Karnak, em Luxor. Foi uma experiência absolutamente fantástica, mas também me fez aperceber de tantas mais outras coisas enquanto arqueóloga europeia que vai escavar num país estrangeiro, que foi dominado por europeus durante muito tempo. A maior parte dos europeus nem consegue falar o mínimo de árabe e interagir com as pessoas que estão a trabalhar na mesma escavação, foi assim um bocadinho choque. Já sabia estas coisas, mas vê-las assim acaba por ser assim um bocadinho mais choque. E ao mesmo tempo foi uma felicidade porque estou a aprender árabe há já bastante tempo e poder conversar na língua que as pessoas falam fez uma diferença enorme também na minha experiência lá e acabei por fazer bastantes amizades. 

Temos esta ideia que as escavações são uma coisa um bocadinho de ir à descoberta, mas não é assim. Há um projeto e cada uma das pessoas têm uma parte do trabalho atribuído, no meio de centenas de pessoas.
Uma das perguntas do livro é mesmo essa. E a resposta é "depende do sítio, depende do tipo de arqueologia que estamos a fazer". É muito importante realçar que por vezes a caça ao tesouro e a arqueologia são uma linha ténue e a diferença principal é mesmo o facto de existirem metodologias e procedimentos científicos, não é só escavar buracos. Tem que haver uma pergunta científica para a qual nós queremos encontrar resposta - quero saber como é que esta cidade se desenvolveu ao longo dos últimos 20 anos e portanto vou escavar aqui nesta área e quero perceber que tipo de pessoas viviam aqui, o que é que elas comiam - e isso é bastante importante para delimitar não só onde vamos escavar, mas até quando é que vamos escavar. E, claro, documentar precisamente onde cada coisa foi encontrada, em que dia. Tudo isso é arqueologia, escavar um buraco só porque sim, para encontrar uma peça bonitinha para pôr no museu é caça ao tesouro. Infelizmente no Egito ainda continua a haver muitas escavações sem grande objetivo científico. E depois de uma coisa estar escavada já não se pode voltar a por no sitio, acabou. É um processo destrutivo. 

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