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Racismo ou plágio? O caso de Jason Arday que está a abanar a academia britânica

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O sociólogo de 40 anos era uma estrela em ascenção, mas dúvidas sobre o seu percurso académico levaram a um escrutínio que desaguou na sua saída de Cambridge. Arday diz-se vítima de perseguição. Académicos falam em "descrédito".

Jason Arday tornou-se, nos últimos anos, uma estrela do mundo da academia britânica, tendo sido contratado pela Universidade de Cambridge para ensinar Sociologia - o mais jovem professor negro da história daquela instituição centenária. Agora tornou-se o epicentro de uma polémica académica no Reino Unido, o que levou ao abandono da sua cadeira naquela universidade. Arday é acusado de plágio e de mentir sobre assuntos pessoais da sua vida, enquanto o próprio diz estar a ser alvo de uma campanha motivada por racismo. O caso está a gerar desconforto junto de académicos que estudam relações raciais e que temem que o caso possa prejudicar a sua área de estudo.

Jason Arday e a tocha olímpica de Londres 2012
Jason Arday e a tocha olímpica de Londres 2012 Joe Giddens

Jason Arday tornou-se em 2023, então com 37 anos, o professor negro mais jovem na história da Universidade de Cambridge. Durante três anos foi entrevistado, convidado para painéis televisivos e tornou-se uma coqueluche de alguns meios de comunicação social britânicos. Não foi apenas o facto de ser o professor negro mais jovem da história de Cambridge que catapultou Jason Arday para o estrelato. A sua história é uma de superação: diagnosticado com autismo, o professor foi não-verbal até aos 11 anos e aprendeu, alegadamente, a ler e escrever aos 18 anos. Era também um atleta de excelência e um filantropo, Mas a poucas semanas do lançamento da sua autobiografia, começaram a surgir dúvidas sobre o seu mérito académico - e até sobre a sua verdadeira biografia. No seguimento dessas dúvidas, Cambridge abriu uma investigação interna às acusações de plágio do professor e Arday decidiu abandonar a escola. 

O jornal  avançou que mais de 100 excertos da tese de doutoramento de Arday são altamente semelhantes a excertos de uma outra tese de uma estudante da Universidade de Brunel, em Londres, chamada Zwozdiak-Myers e cuja tese foi publicada seis anos antes. A tese de Arday "Uma exploração da monitorização de pares entre estudantes e professores" cita 17 vezes o trabalho de Zwozdiak-Myers, mas de acordo com a análise do jornal britânico, há muitas passagens "copiadas" e não atribuídas à doutoranda. Também o académico Nathan Cofnas - afastado de Cambridge em 2024 depois de ter dito que num sistema verdadeiramente meritocrático as pessoas negras “desapareceriam de quase todos os cargos de destaque fora do desporto e do entretenimento” e que o número de "professores negros em Harvard seria de aproximadamente zero" - acusou Arday de plagiar várias publicações sem as citar no seu trabalho académico.

Curiosamente, em abril deste ano, Arday deu uma palestra intitulada Wanted Dead or Alive: the Playbook ("Procurado vivo ou morto: um guia", em tradução livre) em que defendia que ativistas conservadores estavam a passar a pente fino todo o percurso académico de muitos professores negros nos Estados Unidos para encontrar erros de citação, inconsistências ou frases semelhantes a outros trabalhos académicos de forma a que estes fossem afastados dos seus cargos. Falou da situação da primeira reitora negra de Harvard que, sete meses depois de chegar ao cargo, abandonou depois de acusações de incompetência ou de professores que tinham tirado a própria vida na sequência de campanhas para minar a sua credibilidade. Arday denunciava ainda que o mesmo se passava no Reino Unido. "Temos de erradicar este cancro da academia", defendeu. 

Inicialmente, Cambridge colocou-se do lado do seu professor, afirmando que o mesmo estava a ser alvo de uma perseguição racista. "O professor Arday foi vítima de uma campanha vil para minar a sua credibilidade. Alegações de plágio na sua tese e publicações científicas foram investigadas pelas instituições e revistas em causa e o professor for ilibado de qualquer má conduta académica", lia-se no comunicado. A Universidade John Moores, de Liverpool, publicou comunicados na mesma onda. No entanto, agora lançou uma investigação interna.

Apesar de assumir que possa ter cometido alguns erros nos seus primeiros trabalhos académicos, Arday rejeita as acusações mais graves e garante que não é “mentiroso” ou plagiador. “Não matei ninguém. Acho que a crueldade de que fui alvo e o facto de me terem rotulado como mentiroso é totalmente inaceitável”, disse. “Desde que cheguei a Cambridge, tem havido uma campanha muito bem orquestrada e coordenada para me destituir do cargo”, afirmou Arday, em entrevista ao , dizendo que esta perseguição tem “motivações raciais”.

Contactados pelo vários professores que estudam os temas de racismo no Reino Unido lamentam toda a situação em torno do caso de Arday, afirmando que o alegado plágio - os investigadores em causa acreditam que se trate de plágio - pode fazer recuar os estudos nesta área devido à descredibilização da cara mais famosa desta área de investigação.

Arday tornou-se uma figura pública ainda antes de ter entrado em Cambridge. Durante anos correu ultra-maratonas de forma a angariar dinheiro para a caridade (afirmou ter angariado mais de 5,5 milhões de libras) e foi até porta-tocha nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012. Mas mesmo alguns dos seus feitos como ultra-maratonista têm sido revistos nos últimos meses, bem como denúncias de perseguições e agressões.

Os casos de polícia

O The Guardian lançou também uma investigação própria a várias declarações feitas por Arday em entrevistas no passado e descobriu várias irregularidades. 

Ao longo dos anos, Arday contou que tinha corrido 600 milhas (965 quilómetros) em seis dias - e afinal foi em seis dias diferentes num período de 12 dias; que tinha sido ameaçado com uma arma branca na universidade (mas nunca apresentou queixa formal ou informou os seus colegas); e até que tinha enviado uma cabeça de porco para casa dos seus pais, mas nunca foi aberto um inquérito policial sobre o tema.

Quando questionado com estas discrepâncias pelo The Guardian, Arday respondeu: "Para ser honesto, achava que iam simplesmente acreditar em mim".