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Quase metade dos portugueses sente desconforto intestinal persistente, revela estudo

Luísa Oliveira 21 de março de 2026 às 08:00

Prisão de ventre, diarreia, cólicas, inchaço ou gases são os sintomas mais comuns que derivam de problemas com a microbiota. No livro que esmiúça o método BioReset, desenvolvido por Alexandra Vasconcelos, com edição revista e aumentada, há conselhos práticos e receitas para tratar melhor do intestino - e não só

Quase metade dos portugueses entre os 18 e os 65 anos sente desconforto intestinal persistente. Os sintomas variam entre prisão de ventre, diarreia, cólicas, inchaço ou gases. Estes são os números saídos do estudo A Saúde Intestinal dos Portugueses – um Território por Explorar, do Projeto Saúdes da Médis, e desenvolvido pela Return on Ideas, divulgados no dia 19 de março. De entre as pessoas que sofrem dos intestinos, 63% têm sintomas pelo menos uma vez por semana e 38% já foram à urgência por causa de crises. Nessas crises, 72% das pessoas sentem que perdem o controlo do corpo ou do estado emocional, pois experienciam episódios de ansiedade, irritação, frustração e desânimo. Muitos dos inquiridos referem efeitos negativos no humor, na autoestima, na relação com a comida, na motivação para fazer planos, no sono, na vida social, no trabalho e na vida amorosa. Para 37% dos Inquiridos, o problema intestinal surge associado a outras doenças, como ansiedade e depressão, doenças endócrinas, respiratórias, hipertensão ou obesidade.

Desconforto intestinal afeta quase metade dos portugueses, indica estudo

Alexandra Vasconcelos não precisa destes números para perceber o mau estado intestinal da maioria das pessoas. Ao seu consultório, em Lisboa, chegam-lhe muitos casos de desbiose, que se caracteriza por um desequilíbrio na microbiota (quando as bactérias prejudiciais estão em maior número do que as benéficas). "Oitenta por cento da nossa imunidade está no intestino", assegura. No seu sexto livro, uma reedição revista e aumentada do Jovem e Saudável em 21 Dias, publicado em 2019, explica melhor as três fases em que se divide o seu programa de Bioreset. Também o dá online, para turmas de 100 pessoas e em versão compactada em 14 dias. A manutenção a que esta mudança de vida obriga é muitas vezes deixada para trás, como verifica esta farmacêutica que entretanto enveredou por caminhos mais alternativos da medicina integrativa. "Sentem os resultados, mas depois facilmente retomam a vida antiga."

Alexandra Vasconcelos aborda desconforto intestinal persistente e o método Bioreset

Voltando ao estudo - que resulta de um inquérito nacional a quase três mil pessoas e de uma amostra aprofundada de 800 indivíduos entre os 18 e os 65 anos com desconforto intestinal persistente - ele mostra também que a alimentação ocupa um lugar central nas tentativas de controlo do problema. Cerca de 69% atribui grande influência à forma como come e 92% dizem ter algum cuidado com as refeições. No entanto, só 57% descreve o seu regime alimentar como realmente cuidadoso e apenas 49% segue uma dieta prescrita por um profissional de saúde. Setenta e cinco por cento dos doentes fazem experiências por iniciativa própria – dietas restritivas, exclusão de lactose e glúten, uso de probióticos e suplementos – muitas vezes sem enquadramento clínico continuado, o que pode agravar desequilíbrios em vez de corrigi-los.

Por acaso, é mais ou menos esse o caminho que Alexandra Vasconcelos apresenta a quem segue o seu método de rejuvenescimento natural e melhoria da qualidade de vida. "Tiramos o açúcar, que é terrível e só dá energia falsa, reduzimos ou retiramos o glúten, assim como a caseína, que se encontra nos laticínios." De resto, é tentar comer menos vezes, cozinhando boas refeições, sempre coloridas, com o objetivo de se conseguir fazer jejuns intermitentes cada vez mais espaçados.  

Saúde e comida numa relação complicada

A relação entre intestino e saúde mental está estabelecida nas perceções dos doentes que responderam ao inquérito. Quase metade aponta stress ou ansiedade prolongados como a origem do problema e muitos associam fases de maior instabilidade emocional a períodos de agravamento dos sintomas. A maioria reconhece que o estado psicológico influencia o intestino, mas ainda são poucos os que se dão conta do sentido inverso, quando o intestino é fator que também pode alterar o humor, causar ansiedade ou depressão.

“Os resultados deste estudo confirmam que a saúde intestinal é um pilar central da saúde global. Estamos a falar de sintomas que começam cedo na vida dos doentes, são frequentes e que se associam à ansiedade, à depressão e a outras doenças crónicas, mas que continuam muitas vezes banalizados e pouco discutidos em consulta. Vemos também muitas pessoas a experimentar dietas restritivas, probióticos e suplementos por iniciativa própria, sem orientação continuada. Estes dados mostram a necessidade de olhar para o intestino de forma integrada, cruzando medicina, nutrição e saúde mental, e de criar percursos de cuidados mais claros para quem vive com estes problemas”, destaca Conceição Calhau, professora da área da nutrição na Nova Medical School e consultora científica da investigação.

A relação da saúde com a alimentação vai além do peso, defende Alexandra Vasconcelos. Segundo a especialista, a inflamação persistente é causada por agressores plenos para os quais não estamos preparados. E aquilo a que chamamos comida - e que muitas vezes está carregada de substâncias que não são alimentares - é um desses elementos que agride a microbiota, conferindo-nos maior debilidade imunológica. No seu método, por isso mesmo, trata de "corrigir a alimentação", enveredando por produtos mais próximos da natureza e menos artificiais, como os ultra-processados. Além disso, prescreve "exercício, respiração, regulação do sono, a prática de meditação e de grounding [andar descalço], com o intuito de ter maior resistência ao stress".

Alexandra Vasconcelos apresenta programa para limpar e reparar o corpo em 21 dias

Em paralelo ao inquérito à população, a Médis ouviu ainda cerca de 50 médicos de Medicina Geral e Familiar. A esmagadora maioria (90%) relata ouvir queixas intestinais com frequência ou muita frequência e 50% considera que o número ou a intensidade dessas queixas aumentou nos últimos quatro a cinco anos. Os profissionais apontam sobretudo o acréscimo das perturbações ansiosas e depressivas (83%), a alimentação inadequada (79%) e os estilos de vida mais stressantes (75%) como fatores chave nesta evolução. 

Ultimamente, a área de maior interesse de Alexandra Vasconcelos é a "carga de parasitas", como vírus, bactérias, protozoários, fungos ou helmintas (por exemplo, lombrigas). "Temos capacidade para os matar, mas sempre que há desequilíbrio eles reativam-se", constata. A desbiose intestinal é um facilitador dessa carga. Mais: "Todas as doenças autoimunes, por exemplo, estão relacionadas com vírus e bactérias, assim como alguns cancros. E a neuro-inflamação, que se encontra no cérebro, pode causar ataques de pânico, ansiedade e depressão." Afinal, isto está mesmo tudo ligado.

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