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Mulher sobrevive a duas injeções letais e juiz manda parar execução: está há 31 anos no corredor da morte

Isabel Dantas 01 de outubro de 2026 às 08:13

Christa Pike perdeu a consciência mas manteve batimentos cardíacos. Foi conduzida de emergência a um hospital.

Christa Pike, a mulher que está há 31 anos no corredor da morte no estado do Tennessee, nos Estados Unidos, sobreviveu na última madrugada às duas injeções letais que lhe foram administradas e acabou por ser conduzida de emergência para um hospital, por ordem de um juiz.

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Veículos de emergência chegam ao centro de detenção
Foto: AP
Christa Pike foi condenada à morte há 31 anos
Foto: AP

Os advogados de defesa submeteram um pedido de emergência para que a execução fosse interrompida, alegando que "a senhora Pike perdeu a consciência, mas ainda tem batimentos cardíacos e está a respirar audivelmente". A cortina da sala de testemunhas foi fechada umas vezes e os jornalistas convidados a retirar-se.

A mulher, de 50 anos, foi conduzida ao hospital, onde os médicos levaram a cabo "medidas para lhe salvar a vida", depois de ter recebido duas doses de  pentobarbital, um barbitúrico comummente empregado como sedativo, hipnótico e antiespasmódico.

Num comunicado publicado num jornal local, os advogados de defesa - que já tinham feito um pedido de clemência - declararam  que "o estado do Tennessee mais uma vez falhou na realização de uma execução legal". "Não temos prazer em ter razão, mas as preocupações levantadas pela Sra. Pike provaram ser verdadeiras: dificuldade de acesso às veias, pentobarbital degradado, nenhuma assistência médica de emergência disponível quando as coisas inevitavelmente dão para o torto, tudo sob um protocolo que permanece envolto em segredo."

O governador do Tennessee, Bill Lee, que tinha negado o pedido de clemência da defesa de Christa Pike, mandou suspender todas as execuções agendadas até ao final do ano.

O caso

Christa Pike, recorde-se, foi condenada à morte em 1996 pelo homicídio de uma jovem, de 19 anos. Tinha apenas 18 anos quando, juntamente com o namorado, espancou e torturou Colleen Slemmer até à morte num acampamento para jovens problemáticos. A mãe da vítima, May Martinez, esperava que a execução acontecesse. "Cada vez que penso nisso, penso em Colleen sentindo aquela dor e tentando levantar-se e fugir."  1

Os advogados Christa Pike apresentaram um pedido de clemência, juntamente com especialistas de em direitos humanos da ONU que também pediram para que a execução - a primeira de uma mulher no estado do Tennessee em 200 anos - fosse suspensa.

Na base da argumentação estava o facto de se encontrar documentado um histórico de abuso sexual infantil, abandono e negligência. Os advogados de Christa Pike não têm dúvidas de que se o julgamento pelo mesmo crime acontecesse nos dias de hoje, como adolescente ela não receberia a pena de morte.

Foram entretanto descobertos detalhes sobre a infância da mulher que, segundo a defesa, o júri do julgamento nunca teve a oportunidade de considerar. "É incompreensível que não tenham apresentado nenhum detalhe do histórico de abuso e violação, mesmo sabendo disso", disse Sandra Babcock, especialista em questões de género e pena de morte da Faculdade de Direito de Cornell, que trabalhou na defesa de Pike, citada pela BBC. "O caso dela é tão singularmente fascinante, não apenas por causa do seu histórico realmente incompreensível de violência sexual, mas pela combinação disso com sua juventude e doença mental.

"O relatório de uma psicóloga forense, datado de 1995, revelou que Christa Pike foi negligenciada pelos pais, tendo sofrido abusos físicos e sexuais pelos vários maridos e namorados da mãe, tendo sido violada várias vezes, incluindo em criança, por um namorado da avó. Mas a defesa não utilizou o depoimento da especialista no julgamento e estes dados só foram conhecidos dez anos mais tarde, quando uma nova equipa de advogados pegou no caso e alegou assistência jurídica ineficaz para tentar anular a sentença, sem sucesso. 

Em 2021 a mulher foi diagnosticada com transtorno bipolar na prisão e está medicada desde então. Outra psicóloga forense que analisou Christa Pike em 2023 e não tem dúvidas de que o crime foi cometido em circunstâncias excecionais. "A sua infância foi repleta de abusos físicos, sexuais e emocionais. Foi violentada sexualmente por vários homens, começando antes mesmo de entrar na escola", referiu, considerando que Pike sofria de episódios maníacos não tratados devido ao transtorno bipolar e transtorno de stress pós-traumático. "A combinação desses dois fatores influenciou significativamente o nível de ameaça que ela sentiu pela jovem que acabou por matar e sua falta de controlo emocional naquela situação."

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