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Márcia Melo: "Uma birra é uma forma infantil de dizer: 'não consigo lidar com isto por dentro'”
Falta de literacia emocional está a impedir as crianças de explicarem o que sentem e isso faz com que os pais leiam os comportamentos como "birras". Para a psicóloga, "gritar pode parar o comportamento no momento", mas não é a solução.
No Dia Internacional da Educação, que se assinala este sábado, 24, a psicóloga Márcia Melo alerta para o facto de as crianças não terem vocabulário suficiente para dizerem o que sentem: como depressões ou ansiedade. Na opinião da especialista, isso leva a que muitos pais leiam as "birras" como um ato de insurreição e não como um pedido de ajuda.
Márcia Melo alerta: falta literacia emocional em crianças leva a birras
DR
Em muitos casos, sim, não por falta de inteligência, mas por falta de educação emocional estruturada. As crianças de hoje têm acesso a muita informação, muitos estímulos e muita pressão, mas nem sempre têm vocabulário para nomear o que sentem e regular o que acontece por dentro. A literacia emocional é uma competência básica de reconhecer emoções, compreender sinais do corpo e aprender formas saudáveis de expressar e regular. Quando isto não é ensinado, a criança não deixa de sentir, apenas fica mais vulnerável a expressar através do corpo ou do comportamento. Que sinais indicam sobrecarga emocional em crianças ou jovens?
A sobrecarga emocional pode aparecer de formas muito diferentes. Nem sempre é choro. Por vezes é “mau feitio”, isolamento ou sintomas físicos. Que sintomas físicos se podem manifestar?
Alguns sintomas físicos repetidos são as dores de barriga, dores de cabeça, náuseas, tensão, fadiga, alterações do apetite e do sono. As mudanças de comportamento incluem irritabilidade, explosões, maior agressividade, oposição, ou pelo contrário, retraimento e isolamento. Há também sinais de ansiedade, como medos novos, preocupação excessiva, necessidade de controlo ou perfeccionismo e dificuldade em desligar. Na escola, pode haver uma quebra de atenção, esquecimento, desorganização, recusa escolar, ou queda súbita no desempenho. Os adolescentes podem mostrar ainda uma maior apatia, alterações de humor persistentes, comportamentos de risco, e em casos mais delicados, autoagressão. Muitas vezes os pais lêem comportamentos como esses como "birras". Mas pode significar mais do que isso?
Sim. Uma “birra” é muitas vezes uma forma infantil de dizer: “Não consigo lidar com isto por dentro”. A criança não tem ainda maturidade neurológica para “explicar bem”. Por isso, o comportamento é a linguagem quando faltam palavras. Defende que os adultos devem adotar uma linguagem simples "sem gritar". Que tipo de comportamento é que os pais devem ter?
Uma linguagem simples, firme e humana. Gritar pode parar o comportamento no momento, mas não ensina regulação, ensina medo ou desconexão. Comportamentos concretos que ajudam realmente é baixar o tom de voz e aproximar-se, em vez de aumentar intensidade. Usar frases curtas como: “Estou aqui"; Respira comigo"; “Eu percebo" ajuda.
É muito importante, porque quando não conseguimos nomear, compreender e regular o que sentimos, isso tende a sair por outras vias: pelo corpo, pelo comportamento e pelas relações. Nas crianças e nos jovens, esta falta de competências pode contribuir para uma baixa autoestima, porque a criança começa a interpretar o que sente como “algo errado nela”. Em adultos, quando este padrão se acumula ao longo dos anos, pode expressar-se como burnout, exaustão emocional, irritabilidade crónica e dificuldade em desligar, muitas vezes com impacto direto na vida profissional e familiar. Além disso, sem linguagem emocional há mais conflitos: a pessoa não sabe dizer “estou inseguro”, “estou sobrecarregado” ou “estou com medo”, e acaba por reagir com ataque, grito, silêncio, controlo ou afastamento. No fundo, chamar a atenção para este tema é prevenção, não dramatização. É um tema que devia ser abordado também nas escolas junto das crianças?
Sim, com muita clareza. Literacia emocional é cidadania, porque influencia convivência, empatia e prevenção de violência/bullying, gestão de conflitos, capacidade de pedir ajuda, saúde mental e bem-estar. Mas eu defendo que este tema seja trabalhado de forma prática e contínua, e não como “uma aula teórica sobre emoções”. Deve incluir treino, ou seja, linguagem emocional, autorregulação, comunicação assertiva, limites e relações saudáveis. E para isto resultar, os adultos que ensinam precisam também de ser parte do processo: educação emocional começa pelo exemplo. Muitos professores não tiveram formação específica nesta área, por isso faz sentido que as escolas integrem psicólogos e equipas especializadas para apoiar e capacitar a comunidade educativa.
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